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Filme investiga mortes de políticos na ditadura militar – 08/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

A praça em frente à Basílica Santuário do Senhor Bom Jesus, na cidade de Iguape, no litoral de São Paulo, ficou tomada na noite de sábado (28) para a pré-estreia de “A Conspiração Condor”. Em cadeiras montadas ao ar livre, moradores se misturavam a autoridades locais —como o prefeito e representantes da elite local— para assistir ao filme rodado ali mesmo, no Vale do Ribeira.

Ao longo da sessão, a reação era imediata —comentários em voz alta, risos pontuais e, sobretudo, reconhecimento de ruas, fachadas e até conhecidos que aparecem como figurantes. Em alguns momentos, o público parecia antecipar as imagens, como quem espera ver na tela um pedaço da própria rotina.

Dirigido por André Sturm e protagonizado por Mel Lisboa, o longa estreia nos cinemas nesta quinta (9). Ambientado na ditadura da década de 1970 —como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”—, o filme acompanha uma jornalista que, ao cobrir o velório de Juscelino Kubitschek, começa a desconfiar da versão oficial sobre a morte do ex-presidente.

A investigação a leva a cruzar informações sobre os casos de João Goulart e Carlos Lacerda, mortos em sequência nos meses seguintes, em circunstâncias que permanecem objeto de debate. No filme, Lacerda é interpretado por Pedro Bial, em participação especial.

Kubitschek morreu em agosto de 1976, em um acidente de carro na Via Dutra. João Goulart morreu em dezembro do mesmo ano, oficialmente vítima de um infarto, no exílio, na Argentina. Carlos Lacerda morreu em maio de 1977, também por problemas cardíacos, no Rio de Janeiro.

A proximidade entre as três mortes, mera questão de meses, alimenta, desde então, suspeitas e hipóteses de ação coordenada contra adversários do regime militar, ainda que sem conclusão definitiva.

Os três tinham, além do peso político, um ponto de convergência —a chamada Frente Ampla. No final dos anos 1960, Kubitschek, Goulart e Lacerda, até então adversários, se articularam em torno de uma proposta comum pela redemocratização do país.

A iniciativa foi interrompida pelo regime, mas permanece como um episódio central para entender a aproximação entre os três líderes e o contexto político em que suas mortes ocorreram.

No cinema, Sturm opta por uma abordagem indireta. Em vez de reconstituir os fatos de maneira linear, inventa uma personagem fictícia que conduz a narrativa. “Criei uma jornalista que não existiu para percorrer um caminho entre personagens reais”, diz o diretor.

Sturm é diretor do MIS, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo, e foi secretário de Cultura da cidade, na gestão de João Doria. Ele também coordena o Cine Belas Artes e a distribuidora Pandora Filmes. Havia dirigido dois longas, “Sonhos Tropicais”, em 2002, e “Bodas de Papel”, em 2008.

Inicialmente distante do tema, a repórter Silvana e a mais experiente Marcela vão sendo impactadas pelas informações contraditórias sobre as causas do acidente de JK e as mortes dos outros dois políticos, supostamente por envenenamento. “Quero que o espectador saia se perguntando se aquilo poderia ter acontecido”, afirma ele.

O filme ainda traz a curiosa personagem de um censor que trabalha na mesma redação que as moças. Interpretado por Nilton Bicudo, ele lê reportagens antes de serem publicadas e corta trechos que considera contrários ao regime.

É interessante o fato de ele não ser retratado como um monstro, mas sim como o amigo mais próximo de Silvana, com quem divide vários cafés e cervejas ao longo do filme.

A origem do projeto, segundo o diretor, está na percepção de um padrão que o intrigou. “Quando descobri que eles tinham morrido com poucos meses de diferença, pensei: como é que ninguém nunca fez um filme sobre isso?”

Mas haviam escrito livros. Esse mesmo conjunto de suspeitas já foi explorado em “Operação Condor”, obra póstuma de Carlos Heitor Cony em parceria com a jornalista Anna Lee, publicada em 2019. Nele, a investigação combina documentos, depoimentos e elementos de ficção para reconstituir os casos e discutir a possibilidade de articulação entre regimes sul-americanos.

O livro amplia “O Beijo da Morte”, também assinado pela dupla, em 2003, e reforça o interesse contínuo sobre esses episódios. Sturm, porém, afirma que não leu esses livros, justamente para não se influenciar demais. Há ainda o documentário “Condor”, de Roberto Mader, que explora as conexões entre as polícias secretas e a participação da CIA.

A partir da ideia, o cineasta passou a reunir informações e construiu um argumento que relaciona os episódios ao contexto real da Operação Condor, ação coordenada entre ditaduras sul-americanas, com apoio dos Estados Unidos, para perseguir opositores políticos. O roteiro foi desenvolvido em parceria com Victor Bonini.

Sem defender uma conclusão definitiva, o diretor trabalha com a ideia de dúvida. “Não acho que foi exatamente como mostro no filme, mas acredito que houve alguma coisa”, diz. “São muitas coincidências para serem ignoradas.”

O filme assume o formato de thriller político, gênero pouco frequente no cinema brasileiro. Sturm cita como referência direta “A Trama”, dirigido por Alan J. Pakula em 1974 e estrelado por Warren Beatty, um dos marcos do cinema político paranoico daquela década.

“Quis filmar como se fosse um filme dos anos 1970”, afirma. A opção inclui câmera no ombro, uso de zoom constante e planos mais longos, além de uma luz menos contrastada, criando um ambiente de instabilidade e tensão.

A narrativa mistura ainda material de arquivo —imagens de velórios, registros de época e manchetes de jornal— a cenas ficcionais, reforçando a sobreposição entre realidade e reconstrução. “Isso ajuda a criar essa dúvida entre o que é fato e o que é invenção”, afirma o diretor. O recurso contribui para borrar as fronteiras entre documento e dramatização.

Filmado quase integralmente em Iguape, o longa utilizou a cidade para recriar diferentes cenários, incluindo Rio de Janeiro, São Paulo e até locações na Argentina. Apenas duas sequências foram rodadas fora dali.

“A gente conseguiu fazer tudo aqui”, afirma Sturm. Segundo ele, a escolha teve impacto direto na produção. “Iguape é uma cidade que nasceu para o cinema.”

Com orçamento de cerca de R$ 6 milhões, viabilizado pela Lei Paulo Gustavo, o filme foi rodado em cinco semanas. A logística concentrada e o apoio local facilitaram as filmagens. E esse pioneirismo de filmar em Iguape rendeu frutos. Outro longa já foi feito ali e há mais a caminho, em pré-produção.

“A cidade abraçou o filme”, diz o diretor. Moradores participaram como figurantes e acompanharam o processo de perto, criando expectativa pela estreia e estabelecendo uma relação direta com a produção.

A pré-estreia na praça da basílica, diz Sturm, foi pensada como uma forma de retorno. “Eu tinha que devolver isso para a cidade”, afirma. Sem salas de cinema na região, a exibição ao ar livre reuniu um público que dificilmente teria acesso imediato ao filme. E assim retomou uma história que, décadas depois, ainda levanta perguntas.

O jornalista viajou a convite da produção do filme

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