O mineiro Leonardo Piana, de 33 anos, diz ter dificuldade de definir o que seria seu “projeto literário” —se é que ele tem um. Quando encontra as palavras, elas chegam juntas e em choque: masculinidade e delicadeza.
Apesar da hesitação do autor, para seus leitores essa resposta pode parecer até um tanto óbvia, já que o tema está na raiz dos três livros que ele lançou nos últimos anos.
Em “Sismógrafo”, seu romance de estreia de 2022, o protagonista Eduardo se descreve como um menino cujos “gestos duros e súbito muito delicados” eram repreendidos pelo pai. Ele se sente um “menino de mentira” diante dos “meninos de verdade” da escola, agressivos e seguros de si.
“A glória da noite dos homens é esta: eu não era, nunca fui como eles. Deitado no chão, a descrença na infância, minha desgraça: eu não era mesmo nada”, diz o personagem.
No livro, acompanhamos Eduardo adulto de volta a Andradas, cidade onde cresceu e da qual sempre quis fugir. Mais que um cenário para a história, a pequena cidade do interior de Minas também molda o protagonista, ensinando uma timidez da qual ele não consegue se desprender.
E o desejo de fuga, planejado desde criança sobre um mapa-múndi no tapete da sala, convive com a atração irresistível pelo que ficou: uma curta e interrompida história de amor com Tomás, seu colega de escola. Com o romance, Piana foi finalista do Jabuti e venceu o Prêmio Cidade de Belo Horizonte.
O autor conta ter sido surpreendido pelo alcance da obra. “Por identificação ou alteridade, os leitores viam no livro pessoas com quem elas cresceram, seus familiares, representados na voz daquele menino, se apaixonando e sofrendo as consequências dessa paixão. Aquilo tocou as pessoas de uma maneira que eu não imaginei.”
A obra, que estava esgotada, ganha agora uma nova edição pela Autêntica Contemporânea. Também será adaptada para o cinema pela produtora Filmes de Plástico, com direção de Pedro Gonçalves Ribeiro.
Mais que o tema da masculinidade, Piana também diz querer ser um “escritor do desejo”. No “Sismógrafo”, tudo que cerca Eduardo convoca Tomás: o cheiro da piscina, o sabonete líquido da escola, “a respiração ritmada do corpo dele antes de dormir”.
O amor não está apenas em momentos de intensidade, mas nas coisas mais banais e físicas —no ambiente, no toque, nos cheiros. Para isso, Piana busca trabalhar com uma linguagem na fronteira entre a prosa e a poesia.
Essa porosidade fica mais evidente em “Escalar Cansa”, de 2025, seu livro de poesia que também tem uma estrutura narrativa. Nele, Piana parte da história grega de Aquiles e Pátroclo, companheiros separados pelo assassinato de um deles em batalha.
Trabalhando os sentimentos dos dois personagens, o escritor traz versos sobre amor, luto, família e, mais uma vez, viver o afeto à margem da sociedade. O livro foi publicado após vencer o Prêmio Sesc de Literatura.
Já seu segundo romance, “Tarde no Planeta”, também do ano passado, mostra um adolescente convicto de que o mundo está prestes a acabar. A crise climática entra pela janela —o fogo que arde nas florestas, a temperatura que sobe, os pequenos sinais do apocalipse que o garoto não consegue ignorar.
A mudança climática, no entanto, está longe de ser seu tema principal. O livro propõe uma relação entre a vida íntima e o ambiente, explorando o que a crise do clima representa nas crises afetivas. O resultado é um livro quente, no sentido mais literal. A natureza novamente não é pano de fundo, constrói também os personagens.
Com o romance, Piana venceu de novo o prêmio Cidade de Belo Horizonte. As premiações de seus livros, ele diz, até abriram espaço num mercado editorial difícil como o brasileiro, mas o que ajuda mesmo é seu emprego como servidor público. “É isso que garante que eu possa continuar escrevendo, tomando os meus riscos, porque eu não dependo de que um livro vá bem para ter o meu sustento.”
Aliás, ele já trabalha em seu terceiro romance. A obra deve colocar em cena uma relação violenta entre dois homens migrantes, num diálogo direto com a obra de James Baldwin —referência que o acompanha desde “Sismógrafo”, em que uma epígrafe do escritor americano dá o tom logo de saída, tratando da consciência de ser observado e do medo que vem desse olhar público.
Baldwin, diz ele, é uma influência da qual não consegue escapar. “Mesmo quando eu tento me distanciar, eu acabo me aproximando.”
Nos dois romances de Piana há outro tema central: a relação entre mãe e filho, coisa que o autor não menciona ao ser questionado sobre os pontos que guiam sua literatura.
Em “Sismógrafo”, Eduardo quer ser o melhor filho possível, dizer “mamãe, eu te amo”, mas não consegue. Já crescido, entende que “mesmo o melhor filho possível nunca bastaria”. Já em “Tarde no Planeta”, a tensão entre mãe e filho escala até quase culminar numa tragédia flamejante. O lar, nos dois livros, é um espaço de vigilância emocional, culpa e silêncio.
“Quando eu estava escrevendo ‘Tarde’, essa relação era tão importante que tomava a dianteira. E fiquei me perguntando por quê. Achei que depois de ‘Sismógrafo’ minhas questões com minha mãe estariam resolvidas. Mas vi que tudo que eu estava escrevendo tinha a ver com ela. Eu nunca vou saber o que é ser mãe, mas sei exatamente o que é ser filho da minha mãe”, diz o autor.
Coincidência ou não, a relação com os pais é com frequência um fantasma para quem vive as masculidades à margem exploradas pelo escritor. Talvez esteja aí mais um elemento do tal projeto literário que Piana segue pensando em como definir.