É preciso falar com cuidado de Eva Nil. Trata-se de uma das histórias mais estranhas do cinema brasileiro. Só se pode assim saudar este “O Silêncio de Eva”, documentário que resgata a história dessa estrela da qual restaram apenas alguns fotogramas de sua carreira.
Eva Nil estreou nas telonas ainda adolescente, em dois filmes de Humberto Mauro —”Valadião, o Cratera”, de 1925, e “Na Primavera da Vida”, de 1926. Filmaria ainda “Barro Humano”, de 1929, dirigido por Adhemar Gonzaga, e “Senhorita Agora Mesmo”, de 1928, dirigido por seu pai, Pedro Comello. Todos desapareceram. Depois deles, Eva retirou-se.
O que restou dessa estrela promissora foi, portanto, a fama criada por revistas especializadas da época, como Paratodos e Cinearte, de uma jovem atriz que impressionava pela presença, pela graça, pela fotogenia, além de meia dúzia de fotogramas e as belas fotos tiradas por Comello.
Sua história passa tanto por Mauro quanto pelo seu pai. Os dois, diretor e fotógrafo, criaram a produtora Phebo e, com ela, o famoso ciclo de filmes de Cataguases, em Minas Gerais. Quando os dois rompem a sociedade, Eva toma o partido do pai e recusa o papel principal de “Brasa Dormida”, de Mauro. Filma “Senhorita Agora Mesmo” com o pai. O título, aliás, é ótimo, mas o filme fracassa.
No entanto, como bem informa “O Silêncio de Eva”, a personagem de “Senhorita” era muito mais próxima da personalidade de Eva do que costumavam ser as personagens femininas do cinema mudo brasileiro.
Ali, ela surge como uma jovem viva e ativa, e o “agora mesmo” do título correspondia ao que ela era —uma mulher prática, que gostava de resolver qualquer problema de imediato, o que acrescenta algo ao charme de Eva.
Essa imagem feminina luminosa que vemos pelas imagens que sobreviveram recolhe-se ao silêncio. Além do cinema, Eva deixou na mão os inúmeros rapazes de Cataguases que a cortejavam, conforme depoimento de Guilhermino César, um dos poetas da revista modernista Verde. Morreria na mesma cidade, em 1990, aos 81 anos, com o nome de Eva Comello.
A diretora do documentário, Elza Cataldo, esquadrinhou sua vida, e só mostra uma foto de Eva na maturidade. O que serve de base para o filme são mesmo esses fragmentos remanescentes de películas e imagens da estrela na adolescência. Elas inspiram as encenações que entrecortam a narrativa —com atores como Inês Peixoto, Barbara Luz e Eduardo Moreira, eles mesmos parte desse trabalho arqueológico—, com as quais a cineasta busca ilustrar e reconstituir a trajetória dessa estrela que não foi.
“O Silêncio de Eva” é, sobretudo, uma indagação sobre por que a história foi daquela forma. Não é um caso fácil.
Eva Nil era, naturalmente, um pseudônimo, mas nem tanto. O Eva ela recebeu ao nascer, na cidade do Cairo, no Egito, filha de um pai italiano que emigrou para o Brasil em 1914, fugindo da Primeira Guerra Mundial. O Nil, portanto, vem de Nilo, nome do rio que banha o Cairo.
O silêncio de Eva, sua recusa constante em conceder entrevistas, as raras anotações deixadas num livro de Paulo Emilio Sales Gomes —”Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte”— não ajudam a esclarecer os fatos.
No fim, esse silêncio de Eva não se explica, mas significa. É uma ausência e, mais que isso, uma falta, como essas que, tempos em tempos, acometem o cinema brasileiro. É nessas águas que viaja o documentário de Cataldo, que trata com delicadeza a sua trajetória e dá a ver o enigma dessa que tinha tudo para se tornar a maior estrela brasileira do cinema mudo.
A diretora valoriza o pouco material de que dispõe, ainda que talvez se estique um tanto —o assunto termina bem antes dos 106 minutos do filme. Mas revelar Eva Nil aos cinéfilos de hoje fala muito do que foi o cinema pioneiro do Brasil nos anos 1920, de sua história turbulenta e também da situação de mulher vivendo numa cidade do interior, num país de hábitos conservadores. Nesse sentido, “O Silêncio de Eva” fala por Eva.