Determinada a vencer o ouro no Campeonato Mundial de Judô, Leila derruba no tatame mais uma adversária. Quando está se preparando para o próximo round, um fã pede uma selfie. Mas ele não abre a câmera frontal —o que mostra é um vídeo do pai idoso de Leila, machucado e implorando para que ela desista da competição e evite que sua família seja castigada.
A cena do filme “Tatame“, dirigido pelo israelense Guy Nattiv e pela iraniana Zar Amir Ebrahimi, mostra os meandros da repressão no Irã pelos olhos da judoca que compete pelo país persa. Leila, interpretada pela atriz americana de ascendência iraniana Arienne Mandi, conhecida por estrelar a série lésbica “The L Word: Geração Q“, treina desde criança para conquistar a medalha de ouro.
Quando está perto de atingir seu objetivo, porém, a Associação de Judô do Irã exige que ela desista no meio do campeonato para evitar um possível confronto com a judoca da delegação de Israel, considerada uma nação inimiga.
Apesar de ser uma obra ficcional, “Tatame” foi inspirada em muitas histórias de atletas como o judoca Saeed Molaei, a pugilista Sadaf Khadem e a lutadora Kimia Alizadeh, afirma a diretora Zar Amir, que no longa também interpreta a treinadora de Leila, uma ex-atleta que foi forçada a abrir mão da medalha no passado. “Eles arriscaram suas vidas e carreiras para preservar sua dignidade e permanecerem fiéis a si mesmos.”
Seu filme entrou em cartaz no Brasil pouco antes da negociação dos Estados Unidos e de Israel com o Irã para um cessar-fogo, nesta terça. Amir diz que cresceu ouvindo que os dois países ocidentais eram seus inimigos.
“No fim das contas, iranianos e israelenses não querem estar em conflito. Podemos ser amigos, irmãs e irmãos. Muitas vezes são as decisões daqueles que estão no poder que moldam o destino do mundo, e somos nós que arcamos com as consequências.”
Amir, que também é atriz, protagonizou o curta-metragem “Duas Pessoas Trocando Saliva“, vencedor do Oscar na categoria deste ano. Quando subiu ao palco para receber o troféu, a equipe do filme foi uma das poucas que fez declarações diretas contra a guerra, em uma cerimônia marcada pelo silêncio de celebridades.
Na disputa pelo Oscar de melhor filme internacional estava “Foi Apenas Um Acidente“, de Jafar Panahi, que foi condenado à prisão no Irã por criar a história. Seu longa retrata, entre o drama e a comédia, uma trama sobre dúvida, vingança e perdão ligada à repressão do regime dos aiatolás.
Depois de vencer a Palma de Ouro em Cannes, no ano passado, Panahi se tornou uma das vozes mais fortes no coro dos cineastas iranianos que têm denunciado a perseguição de artistas no país persa.
Para Amir, a revolta daqueles que não aceitam se calar pode levar a mudanças significativas. “O esporte e o cinema são muito populares, e ambos podem se tornar ferramentas de propaganda para um regime totalitário como o iraniano. Ao pressionar atletas e cineastas, [os ditadores] tentam controlar a narrativa”, diz.
Em “Tatame”, Leila decide seguir na competição e enfrentar as ameaças do regime —não só aquelas feitas por telefone, mas também presencialmente, com agentes infiltrados no campeonato. A cada luta filmada de perto, o suor corre mais espesso pelo rosto de Leila, e seu hijab, véu obrigatório, parece ficar mais sufocante. Ainda assim, ela está determinada a romper o ciclo.