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The Pitt mostra como o extraordinário é comum em hospital – 14/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Quando se trata da condição humana, poucos lugares não só podem, como devem, unir o raro ou incomum ao corriqueiro tão bem quanto uma unidade de pronto-socorro.

Que outro lugar reuniria, ao mesmo tempo —ao longo de um plantão de 12 horas— um homem de tórax aberto sob massagem cardíaca, uma freira com uma infecção ocular exuberante e um paciente com priapismo —ereção persistente, dolorosa e anormal, com duração superior a quatro horas, segundo os manuais médicos?

Para fins de raciocínio, imagine uma condição médica de pronto-socorro que atinja uma em cada um milhão de pessoas por dia. Em um grande centro urbano como São Paulo, isso equivaleria a cerca de 15 casos diários.

Para intensificar o drama, a segunda temporada se passa no 4 de Julho, um dos feriados mais importantes dos Estados Unidos, e na véspera do período sabático do protagonista — duas situações que podem entreter o espectador, mas fariam qualquer plantonista gelar. É como ter seu último turno antes das férias justamente no auge do plantão de Carnaval.

Também há, em “The Pitt”, situações mais corriqueiras como um quadro de cetoacidose diabética —descompensação metabólica associada a uma doença que afeta cerca de 20 milhões de brasileiros— e procedimentos como a paracentese, a drenagem de líquido, por vezes em grande volume, do abdome de um paciente, na série marcada por casos ligados ao etilismo.

Como pode ser em uma boa obra de ficção, as tintas (vermelhas, de preferência, e bastante compatíveis com o sangue) são carregadas, mas fazem sentido e ajudam a construir a história.

Ao acompanhar os residentes que chegam ao serviço, a série ajuda a entender como o extraordinário se converte em rotina dentro de uma unidade de pronto atendimento.

Como essas pessoas se tornam tão frias, podem perguntar. Mas não trata-se de frieza. A série tem diversos marcadores que mostram como as emoções influenciam até decisões clínicas, a relação com os pacientes e com os colegas.

Um mérito de “The Pitt” é justamente mostrar como as ciências de saúde procuram mitigar os vieses emocionais por meio de protocolos e estudos científicos, sempre citados ou demonstrados, fazendo a alegria dos profissionais que se identificam nesse tipo de atuação.

Há protocolos para comunicar más notícias, métodos sistematizados —condensados em siglas— para a abordagem inicial do paciente politraumatizado e todo o treinamento necessário para realizar uma massagem cardíaca eficaz.

Mas, como lembra um dos profissionais da série, tratam-se pacientes, não protocolos: a doença é apenas uma dimensão de uma pessoa real. Abre-se, assim, espaço para decisões compartilhadas entre equipe e paciente —e também para a intuição, a experiência e a empatia que o serviço exige.

A série também mostra deslizes verbais, limites éticos por vezes atravessados, disputas por espaço e vaidades à flor da pele —traços que, não raro, também aparecem nas unidades de saúde.

A crise —com as oportunidades e transformações trazidas pela adoção da inteligência artificial— surge como um dos fios condutores da temporada. Tema candente na medicina, ela se entrelaça a crises existenciais, à pressão assistencial e às reações intempestivas de pessoas —profissionais e pacientes— que acompanham o trabalho, tanto na ficção quanto na vida real.

É claro que “The Pitt” não é um docudrama. Ainda assim, a ambição de ser a série médica mais realista já feita encontra eco na recepção entre profissionais de saúde —não apenas pela presença de protocolos e procedimentos que remetem ao cotidiano, mas também pelo drama humano inerente a um serviço de tamanha complexidade e pressão.

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