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Atores imigrantes recriam tragédia em São Paulo – 14/04/2026 – Mise-en-scène

by Silas Câmara

Em “Travessia”, Gabriela Mellão utiliza a estrutura de “A Balsa da Medusa” como dispositivo para expor um sistema que ainda opera pela lógica do descarte. Obra-prima de Théodore Géricault (1791-1824) e ícone do Romantismo francês, a pintura — hoje no acervo do Louvre — retrata o naufrágio de 1816, fruto de negligência política, em que apenas 15 de 147 pessoas sobreviveram a 13 dias de horror. O espetáculo tensiona essa herança colonial com a paralisia ética do presente, substituindo o lirismo pela materialidade bruta do esforço.

A cena da tempestade causadora do naufrágio, nesse sentido, é o momento em que a encenação abraça o realismo físico: não existe simulação, pois o naufrágio é um evento que ocorre na musculatura do elenco. Sob a orientação de Reinaldo Soares, os corpos entram em um estado de tensão real, onde a luta para permanecer de pé contra uma força invisível exige uma brutalidade técnica que beira a exaustão.

Essa anatomia da exclusão ganha contornos clínicos através da luz de Aline Santini, que despoja a imagem de qualquer romantismo. Quando o elenco — composto por artistas que carregam em suas trajetórias as marcas de fronteiras reais e deslocamentos geopolíticos — se amontoa para compor a pirâmide humana de náufragos, a imagem deixa de ser uma referência artística para se tornar evidência política.

Corpos indígenas, congoleses, venezuelanos e brasileiros estão ali para reivindicar a soberania sobre o próprio relato. O uso de fragmentos da tragédia grega, como a disputa pelos papéis de Clitemnestra e Egisto, retira o cânone do pedestal acadêmico e o joga no campo de batalha. Ao exigir o direito de interpretar o poder e a vingança, esses atores expõem a hipocrisia de um sistema que aceita o “outro” como estatística ou vítima, mas o rejeita como sujeito de sua própria história.

A cenografia de Camila Schmidt elimina o supérfluo para concentrar a ação em um território de suspensão e clausura. A balsa é o próprio espaço cênico, um laboratório onde a sobrevivência é uma negociação constante e violenta. A direção de Mellão concentra-se na precisão do gesto e na crueza da fala. “Travessia” abraça a premissa de que o naufrágio é um projeto político contínuo. A balsa de 1816 e as fronteiras militarizadas de 2026 são alimentadas pela mesma mecânica de indiferença. O espetáculo se propõe a desarticular nossa passividade do olhar.

Três perguntas para…

… Gabriela Mellão

Por que utilizar o quadro de Géricault (1818) como dispositivo para falar dos naufrágios civilizatórios de 2026? Como foi o processo de colocar essa imagem histórica em “fricção” com as crises humanitárias contemporâneas?

Essa pergunta não pode ser respondida sem falar do processo. Para mim, o quadro “A Balsa da Medusa” só ganhou sentido no encontro com os atores. O espetáculo nasceu de um processo colaborativo longo, de quase dois anos. A pesquisa não foi teórica. Ela aconteceu no corpo, na convivência, nas histórias compartilhadas.

Cada um, a seu modo, tinha vivido uma travessia, deslocamentos, rupturas, tentativas de sobrevivência. Então o quadro começou a aparecer como um espelho, um espelho que não estava fechado no passado, que misturava com essas experiências todas.

No fundo, o que aquele quadro denuncia é uma estrutura que organizava o mundo no contexto colonial do século 19 e que segue absolutamente ativa. A gente só mudou os cenários. Usar essa imagem foi uma forma de dizer: isso não acabou. A gente ainda está nessa balsa, só que agora ela é global, difusa, às vezes invisível.

Você mencionou que o espetáculo navega rumo ao direito de cada um existir sem concessões. Como o teatro pode ser um laboratório para testar novos pactos de convivência que a sociedade civil falha em realizar?

Esse processo começou, na verdade, de um outro lugar. A pesquisa nasceu do meu desejo de investigar o teatro de Peter Brook, especialmente essa ideia de um teatro que se constrói a partir do encontro real entre culturas, sem hierarquizar saberes.

Só que, quando os atores chegaram na sala de ensaio, fui tomada pelas histórias muito potentes de cada um. Ficou impossível não reconhecer que aquelas experiências eram, por si só, o retrato mais direto e mais cru das crises humanitárias contemporâneas. Foi a partir daí que a imagem da balsa entrou em fricção. Porque, quando você coloca essas histórias vivas em relação com “A Balsa da Medusa”, o quadro deixa de ser uma imagem distante e passa a abrigar essas experiências.

A fricção, pra mim, está nesse ponto: no passado que deixa de ser passado para se tornar uma urgência da atualidade. No fim, eu sinto que a fricção não foi uma estratégia que eu apliquei. Ela foi uma consequência inevitável desse encontro.

Embora a peça beba de fontes visuais, o título remete inevitavelmente a Guimarães Rosa. Como o conceito roseano da “terceira margem” e da vida como uma travessia perigosa se aplica à balsa instável que você montou no Sesc?

Consigo responder a partir do que a gente viveu no processo de “Travessia”. Colocamos na mesma sala, para criar junto, pessoas com histórias, bagagens, culturas e pontos de vista distintos. Diferentes maneiras de entender o mundo, o corpo, o tempo, a arte. E aí começou um trabalho muito delicado: como conviver sem apagar essas diferenças? Como manter a escuta de fato aberta, porosa? Como ouvir o outro sem tentar traduzir, corrigir ou encaixar?

Não foi um processo fácil, mas foi um processo rico. Reinventamos o destino de dois anos concretos de realidade partilhada. “Travessia” navegou mares improváveis. Enfrentou vertigens, abismos, tempestades. Desequilibrou, torceu, sangrou, mas atravessou. Para mim, é aí que o teatro se tornou um laboratório. Porque o que a gente fez não foi só montar um espetáculo. Vivemos na prática outras formas de estar juntos.

Guimarães Rosa inventa um lugar simbólico que não é nem um lado nem outro. Não é permanência nem partida. A balsa de “Travessia” tem muito desse lugar. Ela não tem estabilidade, não tem garantia de chegada. Ela é um entre. Um espaço de possibilidade, que nos incita à reinvenção.

Sesc Belenzinho – rua Padre Adelino, 1.000 – Belenzinho, região leste. Quinta a sábado, 20h. Domingo, 18h30. Até 3/5. Duração: 70 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 15 (credencial plena) em sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades

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