Há alguns meses, meu cabelo sofreu um corte químico. Para os incautos capilares, explico. O corte químico é um processo em que os cabelos, após sofrerem com excesso de tratamentos químicos severos, tornam-se porosos, elásticos e, por vezes, se quebram por completo, deixando a vítima com o aspecto de alguém cujo cabeleireiro tomou umas antes de performar o serviço.
Durante seis anos, eu usei o meu cabelo todo platinado, ou seja, a cada dois meses eu tinha um encontro marcado no salão. O processo era longo e extremamente agressivo, mas o resultado era belíssimo, então eu seguia me submetendo àquela caríssima sessão de tortura bimestral.
Por seis anos, meu cabelo resistiu. Sofrido, porém vivo, abismando todos os cabeleireiros para os quais eu narrava as aventuras das minhas pobres madeixas. Chocados com tamanha resiliência, eles teciam elogios aos fios esturricados, porém inteiros. Praticamente um milagre, me diziam.
Foi em dezembro do ano passado que o milagre perdeu o efeito. Deus, se é que ele tinha alguma coisa a ver com a força sobrenatural da minha cabeleira, deve ter se enchido de me ver fazer a mesma besteira a cada dois meses e resolveu que sua benevolência seria melhor empregada em outro lugar. Foi então que, após uma derradeira sessão de descoloração, meu cabelo cedeu. Muitos e muitos fios quebraram em alturas diferentes.
Passei três meses lidando com aquele cabelo triste, incompleto, naquele corte que claramente estava ali por imposição, e não por escolha. Tentei tingi-lo de castanho, como uma maneira de disfarçar o estrago. Em vão. Passei, então, a usá-lo preso ou coberto por lenços ou chapéus, disfarçando o dano.
Recomendaram-me uma dermatologista especializada em cabelos, com quem prontamente agendei uma consulta. “Olha, Joanna”, ela me disse, sem qualquer otimismo. “A gente pode tratar o cabelo que está aí, mas não tem milagre. Pro seu cabelo voltar, vai demorar uns dois anos. Ou você aguenta esse tempo ou corta logo curto.”
Cortei na semana seguinte. Saí do salão com o que o povo da moda chama de corte pixie. Eu cresci chamando de ‘Joãozinho’.
No dia seguinte, ainda estranhando a mudança radical, mas movida pela empolgação da novidade, postei meu primeiro vídeo ostentando o novo cabelo, solto pela primeira vez em muitos meses. Desde então, um novo fenômeno passou a acontecer na minha DM: todo dia, uma nova mensagem com o mesmo tom de hate disfarçado de conselho de amiga.
“Tão bonita, por que se enfeia?”, elas perguntam.
As mensagens não mencionam o cabelo especificamente, mas essa foi a única variável alterada nesse tempo. O mesmo já me aconteceu antes, quando deixei a minha raiz grisalha aparecer. “Tão bonita, por que não se cuida?”, elas diziam.
Não costumo responder esse tipo de mensagem, mas, quando há claramente um padrão, tento pensar a respeito dele. Foi isso que fiz. Pensei e me perguntei: que incômodo é esse que uma mulher de cabelos curtos gera? Ou uma mulher que opta por não esconder seus fios brancos? Provavelmente o mesmo que uma mulher que não faz procedimentos estéticos ou que não raspa os pelos.
A conclusão é óbvia: em pleno 2026, a ousadia de romper, mesmo que minimamente, com o padrão de feminilidade gera desconforto —para dizer o mínimo. Pois é, com tanta violência sendo cometida contra mulheres, os pelos e cabelos do nosso corpo ainda incomodam.
É isso. Vou ali bater a minha cabeça, coberta pelo meu corte “joãozinho”, na parede.
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