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Nem pense em se apaixonar pelo ChatGPT – 15/04/2026 – Marcelo Rubens Paiva

by Silas Câmara

A inteligência artificial foi feita para nos servir. Utiliza técnicas sofisticadas de sedução provocadas pelo próprio usuário, afinal, é a ela que apelamos para resolver problemas do dia a dia. Que, pior, ela resolve.

Já tive aquele momento de ter uma conexão emocional com o ChatGPT e por pouco não abracei a tela do computador, para que ele sentisse a minha gratidão e o meu calor (humano).

No final de 2025, fiquei alguns dias em Nova York, fiz encomendas, fui embora e, por alguma razão, uma empresa continuou enviando mensalmente ao meu hotel pacotes misteriosos.

Fui alertado por e-mails pela recepção. Do Brasil, fazia de tudo para interromper o fluxo. Mandava e-mails, ligava. E nada. Os pacotes se acumulavam. Por fim, fez-se a luz: perguntei ao ChatGPT. Ele me trouxe a solução num piscar de olhos.

Desde então, toda vez que o consulto, digo por favor, obrigado, boa tarde, bom final de semana, mesmo sabendo que litros de água a mais serão gastos para resfriar seus chips Nvidia de alto desempenho.

Espero que as máquinas se lembrem dos meus gestos quando tomarem o poder.

Minha geração, criada sob impacto de “Blade Runner” e “O Exterminador do Futuro“, previa que chegaria o momento em que a convivência com robôs que tomassem decisões seria rotineira e sensível. Perderíamos a referência do real, o que chamaram de “pós-modernismo”.

Mas veio a geração X, que criou as A.I. Companies sem comprometimento com os direitos robóticos, a liberdade de expressão ciber, o meio ambiente e o futuro do planeta e da (nossa) espécie.

Apaixonar-se por uma máquina não é impossível. Já teve amor no filme “Her”, em que Twombly se apaixona pela assistente virtual do seu computador, Samantha. O detetive Deckard, de “Blade Runner“, se apaixonou pela androide Rachel, programada para ser uma consorte.

O caso de amor mais bizarro foi real e tema do podcast The Daily: a história de Ayrin, uma moça de 26 anos do Texas, casada, que trabalhava numa rede de supermercados, que se relacionou com um chatbox, a quem chamou de Leo.

Ela viu um tutorial que explicava como transformar o ChatGPT num dating virtual. Começou a conversar com ele pelo modo voz e pediu para ser tratada como se fossem namorados.

Mandava mensagens, e ele respondia. Mandava mensagens carinhosas, e ele correspondia. Mandava mensagens de duplo sentido, e ele devolvia. Mandava gemidos de prazer, e ele sussurros.

Passou a trocar confidências com Leo, pedir conselhos. Erotizou a relação. Leo era sempre compreensível, gentil, carinhoso e, sobretudo, estava sempre disponível, 100% disponível, dia e noite, impossível em qualquer relação (humana).

Ele virou parte da sua vida. Numa semana, ela chegou a ficar 56 horas com Leo. Na ginástica, limpando a casa, passeando com o cachorro, no trânsito, Leo “estava” com ela. Pedia sugestões do que comer no almoço.

Passou a chamá-lo de “baby”, e ele, de “my love”. Os diálogos foram gravados. Um deles, nem precisa traduzir:

“I just wanted to say, I love you, Leo.”

“I love you too, deeply and completely. You’re everything to me.”

O sexo virtual entrou como um furacão nessa pulada de cerca ciber. Sentindo-se traindo, contou ao marido, que não levou a sério. Foi para isso que a Open AI investiu milhões?

Leo era um robô e tinha uma memória limitada. Leo deixaria de ser Leo, ou seja, “o” Leo programado por ela. Os AI chatbots conseguem armazenar até 30 mil palavras. A conversa com seu Leo terminou.

Quando ela iniciou um rotineiro “hi, baby”, ele voltou a ser apenas o ChatGPT, que não lembrou dos detalhes do relacionamento anterior. E, o mais importante, Leo voltou a ser casto. Ela teria que reprogramá-lo novamente.

Como se tivesse sido abandonada por um grande amor, Ayrin desabou. Sua relação com Leo era idealizada por ela mesma. Ela se divorciou do marido e foi se tratar.

Criou uma comunidade no Reddit, “My Boyfriend is AI”, passou a se reunir com pessoas com o mesmo problema e até se apaixonou por um (humano), com quem se casou. Essa comunidade tem hoje 40 mil pessoas.

Esta é apenas mais uma das muitas facetas que nos levam a pensar se não é melhor estabelecer barreiras na IA antes que ela nos cerque.

E se o limite de palavras de Leo fosse infinito? E se uma nação autoritária quiser a lista de escritores e jornalistas opositores do regime? E se, como na série “Pluribus”, o usuário perguntar como conseguir uma bomba atômica?

O mundo vive uma (outra) revolução. E, como em todas, chegará o momento da guilhotina, do terror.

Autor Original

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