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Sidival Fila e Bernardo Ortiz ganham mostras em São Paulo – 16/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Para Sidival Fila, a costura é muito mais do que uma atividade utilitária. Ela é, antes de tudo, uma atitude humanista de valorização das memórias e do fazer manual. “O tecido é aquele material que me permite explorar, através da gestualidade, uma ação quase política de resistência à decadência do mundo”, diz o artista, em entrevista por videochamada na galeria Luisa Strina, na capital paulista.

Esse espaço leva ao público a exposição “A Dignidade da Matéria”, mostra que reúne 24 obras de Fila. Além de artista, o paranaense é frade franciscano radicado em Roma há 40 anos. Seus trabalhos são conhecidos por unir em uma mesma tela tecidos de origens e formas diversas.

É o que pode ser visto em “Senza Titolo Ricamo Antico”. Nessa obra, ele costurou um bordado do século 19 ao tecido que reveste a moldura de um quadro, promovendo uma fricção entre o novo e o velho.

Algo parecido, ele fez na tela “Senza Titolo Lino Antico”, em que decidiu trabalhar com um tecido de linho do século 18. Ainda que tenham características diferentes, esses materiais encontram na fragilidade um elo em comum. É quase como se eles estivessem prestes a se desintegrar diante do observador em razão do efeito do tempo.

De certa forma, é uma metáfora para o trabalho de Fila, artista que busca perenizar memórias que estão na iminência de desaparecer.

“Acredito que o forro dos materiais testemunha a vida e o tempo porque é a parte do tecido que mais fica em contato com a pele das pessoas”, diz o artista, para quem os tecidos ajudam a revelar o passado.

“A mancha, a umidade e o mofo contam histórias, algo que eu gosto de definir como narração existencial. Por isso, eu lavo o tecido de sua utilidade e dou a ele uma identidade que não é ligada à função, mas sim à sua existência no mundo.”

Ainda que as obras de Fila façam referência ao passado, algumas delas trazem elementos que nos conduzem em direção ao presente.

Evidência disso pode ser observada na obra “Senza Titolo”, em que um tecido floral do século 19 traz rasgos que revelam a superfície de um espelho. Ao olhar para a obra, é como se o reflexo do observador se tornasse parte da tela.

“O meu trabalho fala muito sobre tempo e memória, então decidi usar o espelho para que a obra tenha elementos do presente.”

Para Fila, olhar os reflexos do mundo contemporâneo nem sempre é uma experiência agradável. Isso porque ele considera que as pessoas se conectam à técnica das máquinas enquanto perdem de vista a sensibilidade humana.

“Eu amo a tecnologia, mas acho que as pessoas estão se confundindo com a técnica. Posso dirigir um carro e ir a 200 quilômetros por hora, mas eu não sou a máquina, ou seja, não caminho nessa velocidade.”

Por isso, ele busca recuperar a dimensão humana por meio do fazer manual. “São materiais que têm esse contato muito forte com as pessoas, já que elas plantaram e colheram o linho que deu origem aos fios. É uma relação com o ser humano sem a mediação da máquina.”

Se o fazer artístico de Fila explora a memória por meio de tecidos ancestrais, o trabalho de Bernardo Ortiz investiga a força poética do desenho. Alguns dos trabalhos do colombiano reproduzem diagramas que parecem resumir o caos do mundo em elementos mínimos. Exemplo disso é uma gravura em que podemos ver um sem-número de pequenos quadrados azuis e amarelos.

Esse, aliás, é um dos destaques da exposição “Um Tumulto de Titubeios”, também em cartaz na galeria Luisa Strina. “Para mim, o desenho é um procedimento e uma metodologia que você pode utilizar para compreender melhor as estruturas presentes no mundo”, diz o artista.

Algumas das obras dele, inclusive, lembram vagamente esboços das fachadas de prédios, em que quadrados fazem as vezes de janelas. “Sinto que o desenho sempre carrega uma potencialidade, como os projetos de arquitetos que, depois, se tornam casas.”

A exposição traz uma escultura que parece flertar com a arquitetura na medida em que lembra a maquete de um edifício. “O interesse por estruturas tem a ver com minha história pessoal. Eu cresci em meio à arquitetura, já que essa era a profissão de meu pai.”

Ortiz, porém, diz que seu trabalho não almeja transmitir a solidez e estabilidade de projetos arquitetônicos. “Na verdade, eu quero questionar a certeza das estruturas. É diferente dos artistas dos anos 1960 e 1970, que buscavam na geometria algo fixo e certo”, diz ele. “Eu tento procurar na estrutura a incerteza de um mundo que é duvidoso.”

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