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Lygia Pape é ponte entre o físico e o imaterial em mostra – 21/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Três placas coloridas pairam no ar. Tons se sobrepõem em áreas próximas, mas outras carregam partes transparentes. Essa estrutura incerta, entre a totalidade e a ausência, sintetiza os experimentos que consagraram Lygia Pape.

Seja pelas “Ttéias” —colunas de fios metálicos, iluminadas por trás, que desafiam a profundidade—, seja pelos “livros” revolucionários —blocos geométricos, com pedaços deslocados, que representam narrativas históricas—, a brasileira subverteu limites das artes plásticas.

Entre trabalhos icônicos e peças pouco conhecidas, a Mendes Wood DM, em São Paulo, exibe sua primeira individual da artista. Dividido entre dois espaços, o evento antecipa o centenário de Pape, morta em 2004, e tensiona materiais que ela reinventou.

É o caso das esferas brancas que ocupam a Casa Iramaia, em Pinheiros. Elas apresentam buracos pretos, que convidam visitantes a contemplarem o interior. À distância, porém, é possível confundir as rupturas com tecidos e demais superfícies, como se algo as revestisse por dentro.

Ao lado, esculturas da série “Amazoninos” trabalham outras contradições. Presos a chapas de ferro, quadrados e círculos saltam das paredes. São telas que se projetam para fora e redefinem a distância entre público e autor.

Contemporânea de Hélio Oiticica e Lygia Clark, entre outros nomes do neoconcretismo, Pape defendia que tal relação sofre mudanças constantes. Não por acaso, inscreveu naquele trio de placas translúcidas a palavra “Sendo”, título da obra e da exposição.

Nas palavras do curador Germano Dushá, o verbo no gerúndio referencia uma ação que nunca se encerra. “Já na tela inaugural estão o fluxo energético livre, a efervescência das formas e a urgência do gesto que orientariam a experiência neoconcreta em contraposição à rigidez do Concretismo“, escreve ele no texto de apresentação.

Idealizados em viagens pela Amazônia, os “Amazoninos” também celebram a floresta tropical como corpo sujeito a mudanças. Na Barra Funda, dividem um corredor com projetos contemporâneos de Daniel Steegmann Mangrané, em cartaz com uma mostra sobre o homem e a natureza. Com pequenos hologramas, o carioca explora paisagens vegetais.

Para Paula Pape, filha da artista e diretora do Projeto Lygia Pape —associação que administra o acervo deixado—, o elo intergeracional se justifica pela amplitude da mãe. Professora em instituições como a Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ela ainda fez curtas experimentais, inspirada pelo cinema novo, e performances diversas.

Desenvolvida na ditadura, “Divisor” se tornou uma das mais reproduzidas. Nela, um enorme pano branco era estendido sobre multidões. Cabeças atravessavam furos no tecido, e a ação ilustrava o coletivo em meio à censura.

“Lygia queria tornar sensações em obras. Ela era uma educadora do olhar, do sentir e do arriscar. Sinto que hoje faltam riscos nas artes”, afirma Paula. Ao embaralhar fases de sua mãe, a exposição a enquadra como precursora.

Na Barra Funda, xilogravuras de “Tecelares” antecipam aspectos neoconcretos. Entalhadas em madeira, aglomeram “linhas-corte”. Essas incisões transmitem impressões de profundidade e movimento e não restringem materiais a contornos bem definidos.

Raciocínio parecido influência quadros na Casa Iramaia. Com linhas que formam diagonais e formas indescritíveis, elas vigiam uma Ttéia em um dos cômodos. A luz ambiente dimensiona os fios que se estendem e se confundem uns com os outros.

Na outra galeria, por sua vez, lâmpadas pequenas iluminam duas pilhas de pigmentos azuis. Inscrita sobre o pó, a luz cria uma ponte entre o estado físico e transcendental da matéria.

“Lygia questionava a própria essência das artes plásticas. Embora a matéria seja fundamental, ela o usava para tatear o imaterial”, afirma Dushá. “Seus artefatos permitiam o contato com o desconhecido.”

Junto aos livros de Pape, que convidam quem passa a estudar o mundo visualmente, “Sendo” também traz a sua “Roda dos Prazeres”. Num grande círculo, a instalação reúne pratos com líquidos de cores variadas —com pipetas, os visitantes podem prová-los e encontrar sabores diversos.

“As pessoas estão habituadas a ver obras de arte. Mas o magnetismo de Lygia vai além disso”, diz Pedro Pape, neto da artista e vice-presidente da associação voltada à avó. “Aqui, elas vivem essas obras.”

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