Tia Milena não estava no BBB para agradar. Ia ao limite das regras. Não se produzia intensamente para as aparições ao vivo, ajudava rivais, não dava calorosos “boa noite, Brasil, boa noite, Tadeu”. Mal entrava no confessionário, disparava seu voto e saía antes que o apresentador agradecesse.
Tadeu Schmidt entendeu, tanto que a recebia para o voto com um “manda ver, tia Milena”. Adaptou-se.
Esse perfil foi bem celebrado na final do BBB 26, que a Globo não se furtou em chamar desde a abertura do último episódio de uma “edição de colecionador”. Milena Moreira foi uma das figuras raras da edição. Agradou boa parte do público com seu jeito desbocado, disposto ao confronto, confiante, autêntico.
Foram muitas as situações produzidas pela animadora de festa infantil que chamaram atenção não só pelo aspecto inusitado, caótico ou inocente, mas também por ela parecer não se abalar com os efeitos que aquilo teve sobre sua imagem.
Devorou Jonas Sulzbach numa dinâmica em que ambos precisavam decidir, em consenso, quem indicar para o paredão, impondo sua vontade ao modelo conhecido pelas medidas avantajadas. O rapaz calou e consentiu.
Numa dinâmica patrocinada por uma rede de fast-food, pronunciou errado o texto, dando ao acervo memético do país a palavra “xézeburguer”.
Não é mais todo dia que a TV aberta apresenta alguém indisposto aos protocolos de bom mocismo, capaz de incomodar sem parecer uma espontaneidade forçada.
A participante, que começou o programa vista por parte do público como emocionalmente frágil ou dependente da amiga Ana Paula Renault, reverteu logo esta percepção para ter presença própria.
É simbólica a brincadeira nas redes de que ela “desbloqueou” um ângulo de visão do programa. Ao se envolver em uma discussão na casa enquanto estava na escada que leva ao andar superior, uma das câmeras se virou para filmá-la de um ângulo raramente visto.
É de se temer o que acontecerá com uma personalidade como essa, agora que o programa terminou e ela talvez tenha menos chances de agir por si mesma, sem freios. Exemplo notável já aconteceu na entrevista com Gil do Vigor e Ceci Ribeiro.
Ao final, ela sussurra que a mulher que apareceu nas chamadas ao vivo como representante de sua torcida em Teófilo Otoni —com uma camiseta com a inscrição “500 mães com Milena”— nunca a contratou para uma festa.
“Por que foi ela? Não entendi”, perguntou Milena. Ceci Ribeiro reagiu: “Gente, eu não entendi nada desse cochicho. Eu não escuto direito e o diretor está aqui no meu ponto. A gente não pode cochichar, fazer isso com o público.”
Gil do Vigor caiu na risada e ela, já ciente dos dilemas da fama, faz uma cara de deboche e apenas diz: “Já começou, né? Aquilo…”. Virou o assunto do dia seguinte à final.
Mas isso pode incomodar. Como a própria Globo e o mercado publicitário vão lidar com esse tipo de autenticidade? Quanto de controle e roteirização tentarão impor a ela? Se há algo para os fãs da vice-campeã torcerem, é para que os espaços que Milena vier a ocupar estejam dispostos a dar vazão à sua imprevisibilidade.
Alguns podem lembrar da Bia do Brás, que agora está se dando bem como garota-propaganda, extravagante na medida, mas, diferente de Milena, ela insistiu num bordão simples e numa performance de uma nota só.
Milena debochava e brincava nas ativações de marca, fugia ao roteiro. Não teme pôr sob suspeita a imagem apaziguadora que a Globo é tão eficiente em produzir. Na final, Edilson Capetinha estava dançante, rindo da agressão a Leandro Boneco que expulsou o ex-jogador. Um longo VT mostrava o lado emocional e reflexivo da atriz Solange Couto, que deixou o programa com alta rejeição e imagem arranhada.
Uma das poucas provas que Milena venceu foi uma disputa pelo anjo em que os participantes deveriam apalpar, sem olhar, um objeto pessoal significativo. A dinâmica rendeu momentos de emoção com as memórias despertadas em cada integrante da casa. No caso de Milena, foi o riso, ao reconhecer um abajur que deu de presente para a mãe e imaginou que já deveria ter ido para o lixo.
Ela acabaria ganhando o direito a ter contato com a mãe. Milena podia encostar nela com luvas, mas não vê-la; Neide conseguia ouvir o que a filha dizia, mas não responder. Feliz, Milena a elogiou: “Você é uma mãe maravilhosa, perfeita, do seu jeito. Você não veio com manual”. Neide chorava em silêncio. Instantes depois, Milena vira-se para a direção oposta e diz: “Acabou? Acabou. Tchau, mãe!”, alegre.
Tadeu Schmidt lembrou no discurso da final como Milena foi capaz de produzir algo novo nestes anos de programa. Tomara que a Globo e quaisquer outros que se interessem por ela possam assumir que Milena também não veio com manual e evitem limitá-la com as rédeas do mercado midiático, que tantas vezes tornam algo memorável, esquecível.