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Biografia de Michael Jackson faz ‘moonwalk’ com polêmicas – 22/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Não era exatamente de se esperar que “Michael“, a biografia filmada de Michael Jackson que chega agora aos cinemas, fosse tocar nos pontos mais sensíveis da vida e da carreira do rei do pop.

Primeiro porque parece ter se convencionado, nesse subgênero musical que tomou tanto a produção americana quanto a brasileira nos últimos anos, que os filmes devem ser pensados mais como homenagem do que como cinema —que exige pontos de tensão e personagens complexos.

Segundo porque o clã Jackson se apoderou do projeto, se envolvendo em cada detalhe do filme. Até o ator que encarna Michael é seu sobrinho, Jaafar Jackson, num recado de que a narrativa estaria sob o controle da família.

O resultado não poderia ser mais embaraçoso. No momento em que foram publicadas as primeiras críticas, no fim da tarde desta terça, o tom dos comentários de quem teve acesso prévio ao longa se repetia.

“Um filme que distorce a imagem do biografado para limpar a sua reputação. Uma cinebiografia musical padrão, tão familiar que dá para prever a trama até dormindo”, disse Alissa Wilkinson, do The New York Times. “Ao ignorar certas questões, o filme foi desprovido de qualquer humanidade. Nenhuma vida, certamente não a de Michael Jackson, é tão organizada e certinha assim”, disse Kate Erbland, do IndieWire.

No X, os 33% de aprovação recebidos por “Michael” no agregador de críticas Rotten Tomatoes foram motivo de piada. “Se tirarem as críticas pagas pela família, o filme vai conseguir a primeira porcentagem negativa da história do site”, escreveu um fã, numa publicação que passou do milhão de visualizações na plataforma.

Nenhum desses comentários, porém, deve fazer “Michael” afundar nas bilheterias. Na verdade, o sucesso de uma biografia de alguém do tamanho de Michael Jackson parece ser tão certo que até o Lionsgate e o Universal, estúdios por trás do longa, partiram do princípio de que ele fará dinheiro suficiente para justificar uma parte dois. “Michael”, afinal, termina nos anos 1980, antes de as grandes polêmicas surgirem. Muito se fala da época dos Jackson 5 e dos discos “Off the Wall” e “Thriller”, mas “Bad” só aparece de relance.

A história de Michael continua, diz um letreiro que antecede os créditos finais, confirmando uma intenção ventilada pela imprensa estrangeira —a mesma que disse, a dias da estreia, que o filme originalmente terminaria com as acusações de pedofilia contra ele.

Ponto mais controverso de sua trajetória, isso não é nem mencionado. Segundo a revista Variety, cenas sobre as acusações foram descartadas por violarem um acordo firmado há anos com uma das supostas vítimas. As mudanças causaram atraso no lançamento, além de um gasto de US$ 15 milhões, cerca de R$ 75 milhões, em refilmagens, pagos pela própria família.

Dessa forma, o grande drama do filme foi transferido para a relação de Michael com o pai, Joe Jackson, vivido pelo ator Colman Domingo.

Um dos clímaxes do longa de Antoine Fuqua é a remontagem do acidente que deu a Michael Jackson queimaduras no couro cabeludo, durante a gravação de um comercial. Numa alusão ao vício em sedativos que o mataria décadas depois, o roteiro põe o artista insistindo com seu médico para não tomar analgésicos. Na sequência, sua mãe culpa Joe Jackson pelo incidente, já que ele havia firmado o contrato para a peça.

Os pontos mais delicados da trajetória do rei do pop são tratados como fruto de pressão externa, isentando Michael de qualquer tomada de decisão. É algo frequente nas cinebiografias, em que se corre o risco, ao limpar a barra dos protagonistas, de os tornar desinteressantes.

O Michael Jackson das telas é ingênuo, e mesmo polêmicas anteriores às acusações de pedofilia, aos vícios e às plásticas ficaram de fora. A compra do catálogo musical dos Beatles, que Paul McCartney, seu grande amigo, tentava reverter, nem é lembrada —o episódio pôs fim à relação e às parcerias musicais dos dois e mostra o perfil obsessivo e controlador do Michael da vida real.

Amy Winehouse —que recebeu 35% de críticas positivas no Rotten Tomatoes com o filme “Back to Black“—, Whitney Houston —43% com “I Wanna Dance with Somebody“— e Freddie Mercury —60% com “Bohemian Rhapsody“—, ficaram igualmente rasos, aos olhos de parte do público, em cinebiografias recentes.

Não é de se espantar, portanto, que o acesso da imprensa aos atores, produtores e diretor de “Michael” tenha sido estranhamente limitado para um lançamento desse porte. Mesmo nos Estados Unidos, foram poucos os veículos que tiveram acesso àqueles que fizeram o filme —só da família Jackson há seis produtores.

Mas o envolvimento do espólio não significa que o resultado final precise ser chapa-branca. Exemplo disso é “Rocketman“, que toma certas liberdades, mas nunca deixa de expor os problemas de seu biografado, Elton John.

O músico não só foi ao set de filmagem, como deixou a cargo do marido um dos créditos de produção. O resultado foi um musical hiperbólico, que falou em compulsões por álcool, drogas, sexo e compras, e que retratou Elton John como um sujeito arrogante por boa parte da trama.

No caso de “Michael”, houve discordância no próprio seio familiar, como prova a ausência de ninguém menos que Janet Jackson da trama, que dá ampla ênfase aos outros irmãos do astro.

“Perguntamos a ela se queria estar no filme, e ela gentilmente disse que não”, disse La Toya Jackson, outra irmã, à Variety. Nos bastidores, Janet Jackson e uma das filhas de Michael, Paris, teriam achado a narrativa “desonesta” e “edulcorada”, causando uma rixa interna.

Dessa forma, “Michael” fez um verdadeiro “moonwalk” nas passagens mais suculentas da vida de seu biografado —quando parecia estar chegando perto de alguma das várias polêmica de sua vida, andou para trás e recalculou a rota.

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