No ano passado, quando veio ao Brasil para estrear “Sabius, os Moleques“, peça em que o planeta Terra tenta cometer suicídio após a destruição da humanidade, o diretor teatral Gerald Thomas disse à Folha que não tinha visto “Ainda Estou Aqui“, filme brasileiro que venceu o primeiro Oscar da história do país, e sequer se animado com a conquista.
Agora, às vésperas da próxima edição da cerimônia da Academia, que pode premiar “O Agente Secreto“, filme de Kleber Mendonça Filho que disputa as categorias de melhor direção de elenco, melhor ator, pelo papel de Wagner Moura, melhor filme internacional e melhor filme, Gerald reforça que, para ele, a premiação não importa, e que nem se lembra dos longas premiados —fora a menção ao próprio “Ainda Estou Aqui”, pelo qual sua ex-mulher Fernanda Torres foi indicada.
“Essas premiações não têm a menor importância para o cenário cultural. Os únicos gozadores desses prêmios são lobistas, que organizam festas milionárias para emplacar filmes que se tornam candidatos ao Globo de Ouro e ao Oscar“, afirma ele, agora, à reportagem.
Ele comenta a estreia em São Paulo de “Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente“, peça dirigida por ele e estrelada por Danielle Winits, após uma temporada no Rio de Janeiro. Nela, satiriza a hiperconexão moderna e tira sarro da confusão entre a ideia de arte e de consumo.
O dramaturgo cita Walter Salles, diretor de “Ainda Estou Aqui” —o terceiro cineasta mais rico do mundo, segundo a lista de bilionários da revista Forbes—, ao falar dos “magnatas e multimilionários” que investiriam em festas projetadas para divulgar de seus filmes.
“Os multimilionários fazem filmes sobre gente pobre. Isso que é curioso. Como sempre, os pobres são explorados pelos ricos, inclusive no cinema”, diz.
Entre outros projetos célebres de Salles está “Central do Brasil“, drama estrelado por Fernanda Montenegro, com quem o dramaturgo diz conversar todos os dias. A trama acompanha Dora, uma mulher que escreve cartas para pessoas analfabetas na estação carioca que dá título ao filme.
Na trama, quando o filho de nove anos de uma de suas clientes perde a mãe, ela decide ajudá-lo, em uma viagem pelo interior do Nordeste, a encontrar o pai. Em 1999, “Central do Brasil” venceu o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e Montenegro foi indicada ao Oscar de melhor atriz por seu papel.
Ex-funcionário da Anistia Internacional, movimento global dedicado à defesa dos direitos humanos, Gerald diz que não explorava ou fazia filmes sobre figuras como Rubens Paiva —ex-deputado cujo desaparecimento e morte pelos militares é retratado em “Ainda Estou Aqui”— ou outros torturados, mas sim que trabalhava a favor deles. Ainda assim, reconhece a importância da produção de filmes sobre a ditadura, período histórico também retratado em “O Agente Secreto”.
“Quando a Fernanda [Torres] ganhou o Globo de Ouro, não foi o Brasil que ganhou o prêmio, foi ela. Agora, como o Wagner Moura é mais demagógico, dizem que o Brasil ganhou o prêmio”, diz o dramaturgo. “Usar isso como uma bandeira, como se ele fosse o Pelé, comigo, não funciona.”
Filho de judeus, ele cita os familiares mortos durante o Holocausto e reforça, como já afirmou em várias ocasiões, ser descendente de indígenas americanos. “Minha diáspora é outra. Quando eu visitei Auschwitz, vi outra realidade, em que não se enrola bandeira nenhuma. Demagogia não funciona comigo.”
Sobre os conflitos entre Israel e a população palestina que se desenrolam na Faixa de Gaza, ele condena as ações do primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu, como já havia feito em diferentes ocasiões. “Ele é um horror, um nazista. Tá destruindo o resto do povo judeu no mundo. Ele vai acabar com a gente.”