Home » Mangá ‘Nausicaä’, enfim completo no Brasil, criou o Ghibli – 19/02/2026 – Ilustrada

Mangá ‘Nausicaä’, enfim completo no Brasil, criou o Ghibli – 19/02/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Um aspecto une os leitores japoneses e brasileiros em torno de “Nausicaä do Vale do Vento”. Ambos tiveram de esperar mais de uma década para terminar de ler a versão em quadrinhos dessa história fundamental para a carreira de Hayao Miyazaki e para a criação do Studio Ghibli.

No caso do Brasil, essa espera foi enfim encerrada com a publicação, no final do mês passado, do sétimo volume da saga pela editora JBC, que ressuscitou a publicação em 2022, mais de uma década após a Conrad ter interrompido o gibi na quinta edição. Um problema que, aliás, desagradou os japoneses e retardou uma nova publicação.

A demora compensou pelo capricho, num formato maior que os mangás tradicionais, papel creme, impressão num marrom ocre em vez de preto, seguindo as exigências do autor, e belas aquarelas em formato de pôster.

Essa saga de fantasia, com muitos combates aéreos, intrigas palacianas, mensagens ecológicas e políticas num mundo pós-apocalíptico, por sua vez, foi publicada ao longo de 12 anos no Japão, de fevereiro de 1982 e março de 1994. Considerando que o longa animado de Miyazaki saiu em 1984, como se pode esperar, muito da aventura nunca chegou às telonas.

Ainda assim, mesmo adaptando apenas dois volumes do mangá, a animação é, a seu modo, uma das primeiras obras-primas do diretor —e foi tamanho o seu sucesso nas bilheterias japonesas que possibilitou, pouco mais de um ano depois, a fundação do Studio Ghibli.

A apreciação da obra vem num momento propício —”Nausicaä”, “O Castelo no Céu”, “A Viagem de Chihiro” e outras produções do estúdio estão voltando aos cinemas a partir desta quinta (19), com o segundo Ghibli Fest, após o sucesso de uma primeira leva no ano passado.

Quem conhece por alto as obras de Hayao Miyazaki —ou de seu mentor e grande parceiro na casa, Isao Takahata— sabe da criação de mundo detalhada, os enredos maduros, complexos, e o sabor artesanal das animações, feitas à mão em processos que podem se estender por anos. Todo esse charme já está no longa de 1984, mas teve de ser concebido em pouco menos de nove meses.

Miyazaki completou 85 anos em janeiro, e tinha 45 quando começou a serializar a HQ na revista Animage, dedicada a animes, a convite do então editor Toshio Suzuki. Ele havia adorado “O Castelo de Cagliostro”, de 1979, o primeiro longa assinado por Miyazaki —uma aventura do ladrão Lupin III, personagem que marcou a cultura pop japonesa nos anos 1970— e admirava seu trabalho na série “Conan, o Garoto do Futuro”, recém-reprisada na TV Cultura.

Apesar do apuro estético —já se via ali sua paixão pelo referencial europeu e a capacidade de trabalhar ação e humor— e dos prêmios, “Cagliostro” não rendeu muito nas bilheterias. Àquela altura, Miyazaki começou a se afastar dos estúdios de desenhos para TV e rascunhava uma adaptação de “Rowlf”, quadrinho do americano Richard Corben. O projeto foi recusado, mas havia uma esperança de que a editora Tokuma Shoten, que publicava a Animage, topasse financiar a adaptação de um mangá.

Foi assim que o autor voltou à sua vocação da juventude —desenhar quadrinhos—, após um início de carreira frustrante que o encaminhou para a vida exaustante do audiovisual. Bastaram alguns capítulos para se tornar o maior sucesso da publicação.

Unindo traços da jovem que ajuda Homero na “Odisseia” e da princesa amante de insetos do folclore japonês, Nausicaä tenta proteger o pequeno Vale do Vento em meio a uma terra desolada tanto pela guerra entre clãs como pela poluição, conforme o chamado Mar Podre —uma floresta que emite gases venenosos e abriga insetos monstruosos— avança pelo mundo, engolindo cidades inteiras.

Guerreira e líder carismática, também é uma ecologista inata, capaz de conversar com os animais e entender as plantas. Caberá a ela descobrir como esse Mar Podre é um prenúncio de um novo dilúvio, conforme a natureza tenta exorcizar do planeta os venenos de uma sociedade industrial que despertou a destruição séculos atrás.

O longa segue apenas até o clímax do segundo volume, quando uma tribo inimiga faz um inseto de refém para atrair uma multidão de invertebrados gigantes enfurecidos. A conclusão do filme emociona, mas o melodrama heroico só cresce nas páginas do gibi.

Essa primeira produção foi suficiente para que Miyazaki iniciasse parcerias longevas, especialmente com o músico Joe Hisaishi, e trabalhasse num grau de maturidade que manteve até “O Menino e a Garça”, seu trabalho mais recente —possivelmente, o último de sua carreira.

E apesar de ter assinado outras publicações curtas ao longo dos anos, nenhuma teve o mesmo empenho de “Nausicaä”.

Em retrospecto, a narrativa antecipa suas obsessões —as protagonistas femininas fortes, os desequilíbrios entre sociedade e natureza, o pessimismo e o pacifismo frente a um mundo engolido pelo capital e pela guerra, o contraste entre a beleza dos aviões e o seu uso bélico, os vilões nuançados.

Quanto à forma, estão ali a reverência aos quadrinhos europeus —sobretudo ao francês Moebius e seu “Arzach”, de onde Miyazaki tirou o design da princesa e de seu planador— e o interesse por diálogos e cenas de ação bem decupadas entre vários quadros, aproveitando um formato maior que o tradicional.

O carinho pela história se nota ainda na demora de sua conclusão. A partir do sucesso do filme, produzido pelo estúdio Topcraft, Miyazaki e Takahata viram as condições ideias para fundar o Ghibli, sob o guarda-chuva da Tokuma Shoten.

Suzuki, o editor da Animage, tanto se empenhou nos bastidores de “Nausicaä” que, como se sabe, se tornaria o principal produtor da nova casa. Uma espécie de elo que manteria a roda girando, conforme os dois cineastas rivalizavam pelo sucesso de seus trabalhos solo.

Nesse período, o mangá sofreu hiatos, com Miyazaki voltando ao trabalho nos intervalos do lançamento de “O Castelo no Céu”, “Meu Amigo Totoro”, “O Serviço de Entregas da Kiki” e “Porco Rosso – O Último Herói Romântico”. Os filmes, de tom mais infantil, contrastam com o lado sombrio e sangrento das últimas mil páginas do gibi, como se Miyazaki extravasasse ali a sua desesperança com o mundo.

Mas, apesar do horror, o vento se ergue e devemos tentar viver, como lembra em “Vidas ao Vento”, citando Paul Valéry. Não à toa, é o vento quem conduz Nausicaä e é dele que nasce o nome do estúdio —Ghibli, um vento do Saara e também um avião italiano da Segunda Guerra Mundial.

Quatro décadas depois, “Nausicaä do Vale do Vento” pode até ser menos lembrado que Totoro —a criatura símbolo da empresa—, mas é, de longe, o gesto mais épico de Hayao Miyazaki.

Autor Original

You may also like

Leave a Comment