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Livro premiado inverte colonizadores e colonizados – 20/02/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

A existência do Brasil atrapalhou bastante Laurent Binet ao escrever “Civilizações”. “Eu me deparei com um problema sério de lógica”, revelou à Folha o premiado escritor francês. É que em sua ucronia —história alternativa fictícia—, Binet imagina um mundo em que a expedição de Cristóvão Colombo fracassa, o que leva, mediante uma série de peripécias, o imperador inca Ataualpa a acabar descobrindo a Europa.

O problema é que, para que a história fosse plausível, Pedro Álvares Cabral tampouco poderia ter descoberto o Brasil. “Eu me saí dessa quando li que no começo Cabral achava que o Brasil era uma ilha.” Assim, quando os incas desembarcam em Lisboa, os portugueses supõem que viessem da Ilha de Vera Cruz, salvando a verossimilhança do enredo.


Por maior que seja a liberdade criativa do escritor, para Binet a plausibilidade era “absolutamente fundamental” em “Civilizações”, lançado este mês no Brasil pela Companhia das Letras, com meticulosa tradução de Rosa Freire d’Aguiar.

“Não me interessaria se fosse apenas uma ficção científica retrospectiva”, explicou Binet, enquanto tomava um café sob o sol fraco de inverno, em um café vizinho a seu apartamento, à beira do turístico canal de La Villette.

A ideia brotou na mente do francês ao ler um pequeno trecho do best-seller “Armas, Germes e Aço”, de Jared Diamond. Ao descrever o triunfo do conquistador espanhol Francisco Pizarro sobre o imperador inca, na Batalha de Cajamarca, em 1532, o historiador americano se pergunta: “Como Pizarro chegou lá para capturá-lo, em vez de Ataualpa ir até a Espanha para capturar o rei Carlos 1º?”

Foram quatro anos de pesquisa e escrita até Binet chegar à engenhosa solução, sob a forma de uma epopeia de mais de 300 páginas, ganhadora do Grande Prêmio do Romance da Academia Francesa em 2019. Explicar como os incas chegam à Europa exigiria dar muitos spoilers. Mas basta dizer que, na obra, eles desembarcam munidos das armas, dos germes e do aço necessários para um choque de civilizações menos desigual.


Embora “Civilizações” não tenha pretensões políticas, o próprio Binet, que se define como “fundamentalmente comunista”, reconhece que o livro pode ser interpretado como “uma revanche dos perdedores da história”. Ao explicar o destino pouco glorioso que reservou a Cristóvão Colombo, porém, o autor brinca: “É uma regra que guardei de Stephen King: ‘Se você puder matar um personagem, mate-o.'”

Um diário fictício de Colombo é uma das quatro partes da obra, escrita sob forma de pastiche. Binet assume sucessivamente o estilo das epopeias vikings, de “Dom Quixote” e até de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, transformando-os em “Os Incaídas” pela simples alteração de alguns versos.

É inevitável que o autor empregue boa dose de humor e ironia. “A ironia era não somente inevitável, mas até necessária”, analisa o autor. “É uma lição de Milan Kundera, que dizia que não conseguia conceber um romance sem humor.”

Binet define sua epopeia como picaresca. Não à toa, o protagonista da última parte (e da última cena) é Miguel de Cervantes. “Todos os romancistas modernos são, de uma maneira ou de outra, filhos de Dom Quixote.”


O tempo todo, Binet brinca de espelhar episódios históricos reais. A Batalha de Cajamarca vira a Batalha de Salamanca, por exemplo, na cena crucial do romance. “O que me deu a ideia do livro, mesmo, foi a cena da captura de Ataualpa por Pizarro. Fiz o livro inteiro para escrever essa cena de faroeste.”

Não apenas o trecho da batalha, mas o livro inteiro é extremamente cinematográfico. Os direitos para as telas já estão vendidos, mas ainda não se sabe se o livro vai virar filme ou série. “A indústria cinematográfica é complicada, e é demorada”, constata Binet.

O romance que lhe permitiu abandonar de vez o emprego de professor do ensino médio, “HHhH” (2010), ambientado na Segunda Guerra Mundial e ganhador do Prêmio Goncourt do Primeiro Romance, virou longa em 2017, estrelado por Rosamund Pike.

Tendo escrito para um público descendente dos colonizadores, Binet diz estar curioso para saber como sua obra será acolhida pelo leitor brasileiro, produto do encontro entre europeus e autóctones. “Todo o livro se baseia no princípio da inversão, então gostaria de ter o retorno dos latino-americanos.”


O francês conhece pouco do Brasil. Esteve em Paraty para a Flip de 2013, quando ficou sabendo de Machado de Assis. Apaixonado por tênis —é co-autor até um “Dicionário Amoroso” do esporte—, ainda não viu João Fonseca jogar, mas era fã de Gustavo Kuerten. “Tinha uma elasticidade incrível, era o homem-elástico.”

O título da obra é uma brincadeira com o nome da série de games “Civilization”, que roubou muitas horas da juventude de Binet. Nela, os jogadores criam impérios rivais, da Antiguidade à corrida espacial. Pelo menos um elemento dos games o autor incorporou a sua obra: os “easter eggs”, ou ovos de Páscoa, jargão que designa as surpresinhas que os roteiristas salpicam ao longo da história.

Em “Civilizações”, um dos mais divertidos é a construção de uma pirâmide asteca no pátio do Louvre, quatro séculos e meio antes da real. “Todo o meu livro é construído como um espelho da história verdadeira. Isso também pedia esse tipo de piscadela”, explica Binet.

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