O cineasta espanhol Javier Espada é fascinado por seu genial conterrâneo Luis Buñuel. “Memória de ‘Os Esquecidos‘”, atração de encerramento do 31º É Tudo Verdade, dá vazão a esse fascínio com uma boa dose de dedicação e pesquisa.
O longa “Os Esquecidos” é conhecido por representar, em 1950, a volta em grande estilo de Buñuel ao cinema com “C” maiúsculo, depois de um período de dezessete anos em supervisão de documentários e outros trabalhos aquém de seu talento.
Era o terceiro longa que Buñuel filmava no México, país que o adotou após sair da Espanha sob a ditadura de Franco. Seus dois anteriores, o fracassado “Gran Casino” e o bem-sucedido “El Gran Calavera”, são obras impessoais feitas apenas como modo de sobrevivência.
“Memória de ‘Os Esquecidos'”, por sua vez, é o quarto documentário em que Javier Espada procura entender o percurso do maior cineasta espanhol de todos os tempos, após “El Último Guion”, “Trás Nazarín” e “Buñuel: Un Cineasta Surrealista”, filmes de natureza semelhante.
E para entender “Os Esquecidos”, Espada investiga tanto o cinema mexicano dos anos 1940, dominado pelos melodramas de Emilio Fernandez, quanto o trabalho anterior de Buñuel, principalmente o magnífico “Las Hurdes”, ou “Terra sem Pão”, como foi chamado no Brasil, curta feito na Espanha em 1933 que seria uma espécie de antecipação em forma de ensaio ao filme mexicano.
Se “Las Hurdes”, um documentário, incomodou as autoridades espanholas por mostrar um lado do país que ninguém queria ver, “Os Esquecidos”, uma ficção, incomodou por mostrar um bairro da periferia da Cidade do México onde adolescentes e crianças praticamente recebiam formação para se tornarem marginais.
A influência do neorrealismo italiano era forte no mundo todo, mas é possível dizer que a ambição de Buñuel era diferente: não era a denúncia, ou não “apenas” a denúncia que o interessava. Seu cinema buscava a provocação para fazer o público pensar. Não é por acaso que Buñuel seja considerado um cineasta-filósofo.
Nessa provocação havia sempre o toque surrealista, aqui sob a forma de sonho, como o da mãe que oferece ao filho, no meio da madrugada, um enorme pedaço de carne crua, interceptado por Jaibo, o adolescente maior que leva o menino para o caminho do crime.
No filme de Espada, voltamos a “O Cão Andaluz”, o curta-escândalo realizado com Salvador Dali em 1929, e à obra-prima “A Idade do Ouro”, de 1930, que continuava, de modo ainda mais cinematográfico, o sonho surrealista iniciado no curta.
A conexão faz sentido. Se “Um Cão Andaluz” representou um começo na França, “A Idade do Ouro” representou outro, pois foi o primeiro filme que assinou sozinho. E “Las Hurdes” seria um novo começo, pois era o primeiro filme que dirigia na Espanha.
É como se Espada dissesse, por meio da estrutura de seu filme e com pertinência, que Buñuel voltava de fato ao cinema em 1950, com “Os Esquecidos”, seu terceiro filme mexicano, mas o primeiro que fazia jus à sua assinatura pessoal. Era então um novo começo.
De fato, se sua filmografia mexicana é respeitada, a ponto de muitos a colocarem acima da francesa com a qual encerrou a carreira, isto acontece sobretudo por causa de filmes como este, “Nazarín” ou “O Anjo Exterminador”, enquanto filmes comerciais como “El Gran Calavera”, mesmo que ele os fizesse bem e sem traição de suas convicções, seriam uma minoria nessa fase.
“Memórias” entrevista críticos e estudiosos diversos que compõem um mosaico sobre o filme, o trabalho de Buñuel, sua parceria com o diretor de fotografia Gabriel Figueroa, sua relação com o realismo social e com o surrealismo, enfim, com tudo que normalmente associamos ao seu cinema.
Passamos até mesmo por uma obra-prima de Arturo Ripstein, “El Lugar Sin Limites”, de 1978, onde reencontramos Roberto Cobo, o ator que interpretou Jaibo em “Os Esquecidos”, como o homossexual que se traveste em La Manuela.
Nesse sentido, é um filme bem rico, mesmo que não saia da fórmula das imagens de arquivo somadas às entrevistas, e mesmo que por vezes pareça fora do eixo, com imagens de outra época para ilustrar algum fato ocorrido anos antes.
Sua melhor característica pode ser também a mais problemática dependendo do ângulo por onde se olhe: apesar de algum didatismo, talvez a viagem pelo cinema ao redor de Buñuel represente um risco. O espectador que contornar esse obstáculo verá um filme de interesse inegável.