“A pandemia aumentou o ruído humano no planeta. O ruído doméstico. O ruído da violência. O ruído dos ressentimentos. O ruído das incertezas. O ruído religioso”, canta Fausto Fawcett sobre uma base eletrônica de tom ameaçador, numa das músicas do disco que ele lança, nesta semana, com o coletivo Chelpa Ferro.
“Ruído Humano” dá uma pista do clima do álbum “Pesadelo Ambicioso”, produto de um mundo que chegou ao limite e está em ponto de ebulição. Suas 13 faixas têm letras retiradas do livro de mesmo nome de Fawcett —escritor e compositor carioca de espírito contestador—, e instrumentação dos artistas plásticos Luiz Zerbini e Barrão, do editor de cinema Sérgio Mekler e do músico Thiago Nassif.
No disco, os jogos de palavras espertos e debochados de Fawcett —autor da letra de “Kátia Flávia” e coautor da de “Rio 40 Graus”, clássicas na voz de Fernanda Abreu—, traduzem em palavras o caos do mundo de hoje, assolado por uma pandemia e imerso em redes de comunicação em que muitos falam e poucos escutam.
“É uma grande crônica sobre o caráter demente da população brasileira em todos os seus níveis, de forma bem-humorada, mas crítica”, afirma Fawcett sobre o disco, numa conversa por vídeo, acrescentando que o álbum é uma abertura para falações e sonoridades estranhas.
Seus vocais vêm embalados nas experimentações eletrônicas do Chelpa Ferro, geralmente um trio mas aqui auxiliado pelas guitarras, sintetizadores e walkman de Thiago Nassif. “Plasticamente, só o lance de escultura sonora e de ousadia instrumental que o Chelpa produz é que poderia servir de moldura para esta crônica. Não poderia ter uma melodia simples, um ritmo simples”, diz Fawcett, ao classificar o disco como uma “ópera-noise”, ou uma ópera-barulho.
Tal barulho aparece no instrumental, sempre perturbador, e nas letras. Uma das faixas versa sobre os ruídos enlouquecedores da sinfonia de máquinas nas ruas das cidades —tratores, máquinas de lavar, automóveis roubados em fuga e trituradores nos caminhões de lixo gritam e deixam loucos seus operadores, que também começam a gritar. Um verbo adequado para descrever o disco.
Barrão argumenta que o Chelpa Ferro, que completou 30 anos em 2025, se organiza a partir do pensamento da colagem e da sobreposição. O coletivo deixa de lado a autoria individual em favor das composições feitas em conjunto, no calor do encontro dos seus integrantes. Isso se estende também à parte visual do coletivo, dado que ele e Luiz Zerbini criaram a capa do disco.
“Pesadelo Ambicioso” está disponível em vinil e nas plataformas digitais e terá um show de lançamento nesta quinta-feira (26), no Sesc Pompeia, em São Paulo. É o primeiro lançamento do selo Outra Música, capitaneado por Chico Dub, agitador por trás do festival de música experimental Novas Frequências, com 15 anos de existência.
Para Dub, existem mais festivais e palcos para artistas dedicados a este tipo de som se apresentarem, mas falta o trabalho de base de produtores, promotores e da imprensa. “O mercado no Brasil hoje tem medo de apostar no risco”, diz Dub. “Existe muito mercado para as artes visuais e pouco para as artes sonoras.” É neste vácuo que ele atua.
O próximo lançamento do Outra Música, previsto para maio, será um disco do artista sonoro Marco Scarassatti composto com instrumentos de samba tocados de forma inusual —Juçara Marçal e Negro Leo, nomes de destaque da cena de vanguarda, participam.