Crítica | SP
Le Freak
Três estrelas (bom)
Av. São Luís, 282, República, região central.@lefreak.menu
Le Freak seria algo como o esquisito, em português. E é mesmo. Tem menu com cara de bistrô sem ser bistrô. E algo de endereço secreto mesmo com filas nada discretas em plena avenida São Luís, no centro de São Paulo. O lugar já nasceu na moda, então existe sempre uma chance de você acabar esbarrando em algum cliente ilustre. Foi assim naquele sábado à noite.
Depois de uma rápida espera, fomos acomodados na última mesa do primeiro giro, que era também a pior da casa para uma noite fria como aquela. A segunda pior era a que ficava quase encostada à nossa. Sentado nela, logo reconhecemos um ministro do governo. Com o salão lotado e sem chances de mudar para um lugar mais quentinho, a solução para todos os envolvidos foi pedir a carta de vinhos.
Arroz caldoso servido no Le Freak
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Priscila Pastre /Folhapress
Ela é enxuta e, entre os tintos, os preços começam em imodestos R$ 189. Pedimos uma garrafa e optamos por começar pela porção de moules et frites (R$ 64). Os mexilhões chegaram frescos, envoltos num equilibrado e untuoso molho à base de creme de leite e vinho branco. As fritas estavam bem feitas e crocantes.
Com vinho bom, entrada gostosa, ambiente festivo, atendimento solícito e vizinho ilustre, tudo fluía bem. Até chegar o arroz caldoso de pato à mesa ao lado. Quando penso em arroz caldoso, imagino um prato substancioso, de grãos firmes, caldo denso, carne farta, cores fortes. O que vimos estava longe disso.
Era um monte alto e comprido de arroz com fiapos de carne desfiada, aïoli, cebolinha francesa e um pedaço de limão. O caldo não envolvia o arroz. Em vez disso, estava em volta dele, formando uma ilha. Um prato feio.
Mas como nem só de beleza vive a gastronomia, decidi pedir para tirar a prova. Só para constatar, com tristeza, o sabor de canja, os grãos encharcados e a carne tímida num conjunto monótono. Complicado para prato de R$ 105.
Provamos também o boeuf bourguignon (R$ 88). Este veio correto, com a carne desmanchando na boca, toques de dulçor e acidez no molho, acompanhado por um aveludado purê de batatas. Ah, veio muito bem servido. Acabamos dividindo este prato, já que sobrou a maior parte do meu arroz. O do ministro, aliás, também sobrou.
De sobremesa, fomos numa clássica musse de chocolate. O que chegou foi um creme espesso, mais parecido com um recheio de bolo do que com uma sobremesa para comer de colher. Ao lado, uma inexplicável poça de azeite. O óleo de oliva de fato vai bem em alguns doces, se usado com moderação. Não era o caso. Nem pela quantidade (exagerada) nem pela combinação (pesada demais).

Musse de chocolate do Le Freak
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Priscila Pastre /Folhapress
A atendente perguntou se havia algo errado, levou o doce de volta para a cozinha e não cobrou por ele —algo raro nos restaurantes da cidade. No fim do jantar, eu me sentei com uma família do interior de São Paulo que havia conhecido na fila. O trio de mulheres costuma viajar aos finais de semana especialmente para comer. Então fiquei curiosa para saber a impressão delas.
Elogiaram os pães (que chegaram quentinhos) e a entrada de massa folhada recheada com queijo e presunto Royale (R$ 42). Ainda não tinham chegado aos principais nem tinham pressa para isso.
Alternando goles de dry martíni com vinho tinto, acomodadas nos charmosos sofás com ar retrô, elas estavam… saboreando a experiência. Que, no fim, parecia ter mais a ver com o charme boêmio do centro, do que com a comida propriamente dita.