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Pupillo faz estreia solo sob a benção de Naná Vasconcelos – 24/02/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

“Escuta o ‘Milagre dos Peixes.’” A frase de Naná Vasconcelos acende na memória de Pupillo no momento em que ele começa a falar de seu primeiro disco solo, que lança agora pelo selo Amor in Sound, de Mario e Samantha Caldato. No início dos anos 2000, Naná insistia para que ele ouvisse o álbum de Milton Nascimento, no qual a censura às letras abriu caminho para que a percussão, vocalises e texturas assumissem o protagonismo.

“Na época, o disco não estava no streaming, não tinha no YouTube”, lembra Pupillo. “Só depois que ele morreu que eu encontrei esse vinil. Quando ouvi, aquilo teve um significado muito forte.” Não é casual, portanto, que a fala sobre seu disco de estreia, que leva apenas o nome de Pupillo — sem título, sem personagem, sem conceito anunciado —, comece por aí. Mas ele explica que o álbum não foi construído ao longo das décadas. “Não é um disco da vida, algo que eu venho maturando há muito tempo. É um recorte do momento.”

O recorte nasceu de um convite. Quando mixava um trabalho anterior, Mario Caldato perguntou se ele não pensava em gravar algo próprio. Ofereceu a Pupillo seu estúdio em Los Angeles para as gravações. O artista aceitou e embarcou sem levar nenhum instrumento e com poucos esboços prontos — a maior parte deles dispensada no processo. “Fui abrindo mão de todo o material que eu tinha levado para poder começar algo do zero, aberto aos encontros.”

Durante mais de duas décadas, Pupillo esteve sobretudo a serviço da obra alheia como produtor ou integrando trabalhos coletivos — na Nação Zumbi e em projetos como Sonorado e Almaz. Como produtor, está na ficha técnica de álbuns importantes deste século — entre eles “A Pele do Futuro”, de Gal Costa; “Tropix”, de Céu; “O Futuro Pertence à Jovem Guarda”. Agora, ele ocupa o centro.

“Não foi uma situação confortável para mim”, diz. Assinar o disco com o próprio nome é, para ele, uma espécie de prova. “Eu optei por dar o meu nome pra me colocar nesse lugar de me testar.” No mesmo sentido, evitou a letra: “Já que eu não sou um letrista, eu não queria me utilizar desse artifício para poder me amparar”.

A abertura do álbum já sinaliza o projeto. “Tropical Exótica” funciona como panorâmica: floresta psicodélica e retrô, evocando a música exótica dos anos 1950, mas filtrada por um olhar contemporâneo, com mais clima do que virtuosismo. “Não é um disco que tem solos, que tem uma eloquência no jeito de tocar”, conta Pupillo.

Se o disco nasce no estúdio californiano, ele se ancora no Nordeste. “As escolhas têm a ver com o meu tempo de vida, não com o meu tempo de música”, explica. “Mexer com o forró, com coisas que tinham a ver com a minha memória, os pífanos… Isso faz parte realmente da minha vivência como pessoa, de todo o contato que eu tive com a cultura do meu estado, até chegar o momento em que eu viro músico, que eu vou descobrindo outro tipo de som, a entrada na Nação Zumbi. ‘O Sopro de Naná’ é uma das faixas que reflete isso, esse meu momento ali na banda, o manguebeat, aquelas referências todas.”

“Forró no Asfalto”, com participação de Agnes Nunes, aproxima sanfona e ambiência urbana —algo como Dominguinhos atravessando a Augusta da virada dos anos 2010. Em “Pifando”, os pífanos desenham a melodia sob uma atmosfera que traz certa frieza eletrônica alemã.

Mencionado apenas no título de uma faixa, Naná funciona, porém, como uma espécie de eixo não declarado do álbum. “Eu tinha muito Naná Vasconcelos na minha cabeça. Sempre tenho.” Não apenas o músico, mas seu pensamento. “Naná, para mim, é a síntese da consciência da miscigenação como fundamento do Brasil.”

Síntese que, para Pupillo, não tem nada de conciliatória. “Ele foi o cara que tirou o berimbau da capoeira”, diz o artista, chamando a atenção para o deslocamento como essência do que entende como Brasil, essa unidade múltipla. “Dentro de uma senzala você tinha africanos vindo de várias Áfricas. Naná sempre falou das várias Áfricas que habitam o Brasil, bebeu da música indígena sendo um preto retinto… Ele tinha a consciência de ser um corpo brasileiro.”

Essa noção de Brasil como território de sobreposições também explica o modo como o álbum se constrói a partir do trânsito, do Nordeste ao mundo —como a trajetória do próprio Pupillo. O artista rejeita tanto o regionalismo folclórico quanto a diluição cosmopolita. “O Naná me ajudou a criar essa consciência, principalmente na hora de eu me assumir como brasileiro, filho dessa mistura. Aquilo foi me encorajando a dizer: ‘Se é do Brasil é meu, ninguém vai tirar isso de mim’.”

Essa perspectiva atravessa “Fealhá”, construída a partir de uma consulta a lideranças indígenas de Pernambuco. “Eu fui perguntar uma palavra que traduzisse o amor pela terra, cheguei a ‘fealhá’”. A faixa, com participação de Céu, repousa sobre boom bap ralentado e caixa rufando, enquanto a melodia flutua.

Em “Navegando os Novos Tempos”, a conversa comovente que ele teve no estúdio com a cantora portuguesa Carminho sobre colonização e pertencimento transforma-se em camadas vocais. “A gente falava sobre Naná, falamos sobre os povos originários… e era quase que evidente uma cautela muito respeitosa da parte dela”. Ele sublinha o equilíbrio da gravação. “Ali não era nem eu, como um brasileiro, da perspectiva de vítima, nem ela da perspectiva de colonizadora.”

Amaro Freitas aparece em “Fervendo o Chão”, diálogo entre bateria e piano que tensiona ritmo e delicadeza. Jota Moraes insere vibrafone em “Entrée”, faixa que costura electro francês e melodia brasileira. Rodrigo Amarante e Adrian Younge se juntam em “O Sopro de Naná”, na qual berimbau, sintetizador e minimoog apontam para uma ancestralidade futura —marca da filosofia do mestre expressa em música. O álbum tem ainda presenças como a de Davi Moraes, Alberto Continentino, Gaslamp Killer, Cut Chemist e Hervé Salters.

Batizado por uma sugestão de Naná de duas décadas atrás, não por acaso o álbum se desdobra na compreensão de que tradição é movimento e encontro. Sem dizer uma palavra, como planejou seu autor —emoldurado, na capa do disco, numa fotopintura comum às casas do interior do Brasil, naturalmente cercada de instrumentos de percussão milenares e baterias eletrônicas vintage.

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