O mercado brasileiro de sorvetes cresceu 35,4% entre 2020 e 2025, segundo dados da consultoria Euromonitor. O setor é liderado por grandes multinacionais, principalmente Kibon e Nestlé, e enfrenta uma guerra de preços e denúncias de práticas anticoncorrenciais.
A Abrasorvete (Associação Brasileira do Sorvete e Outros Gelados Comestíveis), que representa mais de 10 mil empresas do setor, diz que notificou formalmente, em dezembro de 2025, a Froneri Brasil, que controla a Nestlé, e apontou preocupações semelhantes em relação à Kibon. A entidade fala em práticas predatórias que ameaçam a sustentabilidade de fabricantes locais e diz que um comitê irá avaliar se levará o caso a órgãos reguladores.
Segundo a entidade, há exemplos de vendas de potes de 1,5 litro por menos de R$ 9 em grandes redes, valor que, segundo a associação, não cobriria nem sequer os custos médios de produção e distribuição.
Além da política de preços, a Abrasorvete também denuncia contratos de exclusividade em pontos de venda, que dificultariam o acesso de pequenas e médias empresas. Segundo a associação, há relatos de pagamento de até R$ 20 mil a pequenos estabelecimentos, como padarias, para garantir exclusividade na exposição dos produtos.
Procurada pela reportagem, a Froneri informou que não comentaria as críticas da entidade.
A The Magnum Ice Cream Company afirmou à Folha que reitera seu compromisso com a livre concorrência, “atuando em estrita conformidade com a legislação vigente e com seu Código de Conduta, que orienta a competição de forma ética, transparente e leal, em benefício dos consumidores e de um ambiente concorrencial saudável”.
O presidente da associação, Martin Eckhardt diz que a precificação do sorvete envolve custo de matéria-prima, energia elétrica, logística refrigerada, embalagens e carga tributária, que incide de forma semelhante sobre empresas nacionais e multinacionais no Brasil.
“Quando uma multinacional vende um pote de sorvete por um valor que mal paga a matéria-prima e a logística, ela não está competindo, ela está sufocando o mercado para reinar sozinha depois”, afirmou o representante, em nota.
Na semana passada, a Nestlé anunciou que venderá suas operações remanescentes de sorvetes para a Froneri. No Brasil, porém, a operação já é controlada pela joint venture (empreendimento conjunto) desde 2016, e a decisão não altera a estrutura do negócio local. Algumas marcas da empresa são LaFrutta, Mega, Especialidades e Crocante.
A Kibon também é controlada por outra multinacional independente, a The Magnum Ice Cream Company, desde 2025, após a separação da divisão de sorvetes da Unilever. A empresa é atualmente responsável pela gestão e operação de marcas como Cornetto e Ben & Jerry’s em diferentes mercados.
“Globalmente, vemos grandes grupos reorganizando portfólios para que unidades com características muito particulares, como sorvetes, operem com maior autonomia estratégica”, diz Eckhardt.
O presidente diz que o mercado brasileiro de sorvetes é bastante plural, com forte presença de fabricantes nacionais.
Um levantamento do Senai-SP (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo), em parceria com a Abrasorvete, estima que a cadeia produtiva emprega cerca de 274,8 mil pessoas no Brasil, sendo 39,6 mil postos diretos e 235,1 mil indiretos, incluindo agropecuária, produção de insumos, embalagens, logística e distribuição. A maior parte das empresas é formada por micro e pequenos negócios, com concentração no Sul e Sudeste.
O faturamento do setor passou de R$ 14,4 bilhões em 2020 para R$ 19,5 bilhões em 2025. Apenas no último ano, o avanço foi de 5,8%. Apesar do crescimento, de acordo com a Abrasorvete, o consumo per capita ainda é considerado baixo no país, em torno de 7,7 litros por pessoa ao ano, se comparado a países como a Nova Zelândia (26 litros).
Uma pesquisa da Abis (Associação Brasileira das Indústrias e do Setor de Sorvetes) aponta que 92% das marcas são de micro e pequenas empresas, com 52% do consumo no Sudeste.
Para o presidente Eduardo Weisberg, o consumo brasileiro de sorvetes é segurado pela cultura. “[Por exemplo], quando as avós falavam que ia dar dor de garganta. Em outros países, como na Argentina, as pessoas são acostumadas a tomar sorvete no inverno. Mas há uma tendência de mudança”, afirma.