“Os amores de Safo, a própria Safo, são irrepetíveis e pertencem à história; mas seu poema está vivo”, escreveu o poeta e crítico mexicano Octavio Paz no ensaio “A consagração do instante”. O poema segue vivo porque a cada leitura é reencarnado para sempre no presente. Suspender o tempo enquanto assume a sucessão histórica, essa aparente contradição, é algo que um poema lírico é capaz de fazer.
Em “Ano Passado”, o quinto livro da poeta e astróloga Júlia de Carvalho Hansen, publicado pela editora Nós, memória, luto e paixão tensionam suspender o tempo enquanto marcam sua cronologia.
A marcação cronológica acontece literalmente, desde cada título sendo a data dos poemas: o livro começa no dia 4 de março, pelo poema “4 de março”: “Foi ainda durante o verão / que aprendi / existirem incensos / pra espantar mosquitos / que uma cabeça explode / como se a acendessem”.
Além das datas, há outras marcações cotidianas, próprias da escrita de diário. São observações de lugares e vida social, registros de impressões e estados de espírito. Remetem a uma vida anterior e exterior aos poemas, como nos versos “Estou complexa e esvaziada. / Estava desatenta / vi uma tarântula”; ou “Meu pai fez 80 anos dois dias atrás.”; ou ainda “Esta falta de ar / chamada Brasil.”
Os 129 poemas de “Ano Passado” cobrem o período de um ano, atravessando as quatro estações – o primeiro texto introduz um verão e o último alcança o verão seguinte, intitulados pelo dia do mês.
Em alguns títulos, outros modos de contar prevalecem. Por exemplo, em “dia zero” ao “dia nove”, período em que a poeta contrai Covid e esse é o tempo de sua recuperação. Ou quando informa alguns dias úteis da semana, “sexta-feira”, “terça-feira” e “quinta-feira”, tempo contabilizado por uma voz lírica entregue à paixão por outra pessoa. Ou, ainda, quando o tempo é retrocedido em “(dois dias atrás)”, em uma observação vibrante do não entendimento contido no presente.
Todos esses elementos temporais e de marcações cotidianas dão coesão e estruturam a edição de modo muito bem-sucedido.
Ainda que com isso pudesse cair na reiteração do mesmo, não é o que ocorre. O que há são brevíssimos momentos em que uma certa mudança na velocidade do pensamento assume o risco de enfraquecer seu ritmo, seja por estacionar na explicitação de uma ideia —como nos versos “que por seu eu, lançada dentro do porão / que por seu eu, a predestinada de Plutão / que por ser a rainha, eu / que por ser eu”—, ou por aludir às construções clichês dos poemas de amor —como em “Você não perguntou / se eu sabia quanto tempo levaria / mas eu tinha a resposta: tempo / dos continentes se afastando.”
Como a linguagem de “Ano Passado” contém uma espécie de paixão sóbria, essas mudanças de ritmo se incorporam ao andamento do livro. O tom dos poemas mantém uma sutileza filosófica e objetiva, como se a finalidade da escrita fosse mesmo sustentar a capacidade de atravessar o dia a dia. E é essa busca por sustentação, por vezes encontrada no cotidiano, que rende momentos de firme beleza.
Como os versos “Existe o gesto, a fruta madura / a cura e o soslaio – de resto livre / é quem pisa o próprio caminho // quando o reconhece.”
A relação fundante e terna com o pai e a observação de sua perda de memória, as tentativas de entender o que é a liberdade, a personificação da vida mineral, vegetal e animal, a existência quase impossível durante a pandemia, a paixão avassaladora, as fomes do corpo. O livro de Júlia de Carvalho Hansen se alia à força organizadora do cotidiano para dar conta do caos que é estar viva. O que consagra o instante? Parece ser a pergunta escondida nos poemas.
Tal pergunta convoca o leitor para aquilo que em um segundo já foi e aposta, enfim, na porção imprevisível do destino —”como se me tivessem marcado por dentro / o calor me retorna a quem eu sou”.