Um dos críticos de arte mais ativos do país na década de 1970, quando escrevia no Jornal do Brasil e organizava mostras no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Roberto Pontual tinha em casa muito daquilo que analisava em seus escritos, entre eles “Dicionário das Artes Plásticas no Brasil”, livro até hoje referência nos estudos da história da arte.
Ao longo dos anos, sua coleção foi reunindo nomes que marcaram a arte do país, entre eles Alair Gomes, Almir Mavignier, Anna Bella Geiger, Antonio Bandeira, Emiliano Di Cavalcanti, Franz Weissmann, Glauco Rodrigues, Ione Saldanha, Ivan Serpa, Mario Cravo Neto, Raymundo Colares, Rubens Gerchman e Wanda Pimentel.
Todo esse conjunto agora vai a leilão, no final do mês, em Paris, cidade onde Pontual foi viver na década de 1980 e onde morreu, em 1995, em decorrência da Aids. As peças à venda revelam o olhar plural do crítico, com forte acento pop, em especial pelas obras de Gerchman e Pimentel, e raridades da arte queer como as fotografias da série “Sonatinas”, de Gomes, que circulam pouquíssimo no mercado.
É um reflexo tanto da própria vida do crítico, que manteve trocas com uma série de artistas gays, quanto de seu olhar atento aos movimentos de sua época —Pontual foi um dos primeiros críticos a olhar de perto para a chamada Geração 80, que retomou a pintura e a figuração no país depois de décadas das vanguardas geométricas dos concretistas e neoconcretistas.
De acordo com a casa de leilões Maurice Auction, que fará a venda em Paris, os 153 trabalhos ofertados podem render cerca de € 150 mil, ou cerca de R$ 910 mil, se forem considerados só os lances mínimos para cada peça. A expectativa, aliás, é que os preços, baixos para o calibre desses artistas, faça com que muitas peças sejam repatriadas para o Brasil depois desse exílio parisiense, mesmo levando em consideração os impostos altíssimos para a entrada de obras de arte no país.
Uma pequena tela de Antonio Bandeira, por exemplo, um dos artistas mais valorizados do século passado na cena latino-americana, tem lance mínimo de € 5.000, ou R$ 30 mil, preço atual de um artista estreante no mercado. Outra tela, da série “Envolvimentos”, a mais valorizada de Wanda Pimentel, tem uma estimativa inicial de € 2.000, ou R$ 12 mil, quase nada perto de valores recentes cobrados por trabalhos dessa mesma safra, que já passam de R$ 1 milhão.
Dinheiro, em todo caso, nunca parece ter sido a preocupação principal para Roberto Pontual. Seu herdeiro e último companheiro de vida, Vincent Wierink, conta que a coleção foi formada em grande parte por trocas dele com os artistas, obras dadas de presente e pequenas transações que contribuíram para o acervo de quem nunca teve a ambição de ser um colecionador.
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