Novos sons, batidas, passos de dança, estilos e uma entrada no pop que ultrapassa o óbvio. O brega funk, que chamou a atenção do país na virada da década, passa por um momento de amadurecimento nos últimos meses. O gênero hoje surge como um fenômeno amplo e deixa marcas que vão do topo das paradas de sucesso do verão a encontros com novas gerações de rappers, símbolos recifenses repaginados e até festas lotadas na Argentina.
“O brega funk está em uma nova transição, outras vertentes acabam pegando algumas batidas e melodias do gênero, tem dança que vira ‘trend’ no TikTok, artistas como o Gordinho Bolado, por exemplo, que chega no top do Spotify e ultrapassa até Anitta“, diz Rayssa Dias, cantora e um dos principais nomes do estilo.
Dado o Sudeste como polo da indústria do funk, com grandes empresas e artistas girando em torno do próprio eixo, a versão pernambucana do gênero por muito tempo foi tida como primo distante da família. O andamento cadenciado, os sons que emulam ruídos de lata e um protagonismo dividido com MCs cariocas e paulistas —sampleados em refrões— fizeram o brega funk explodir em 2020 sem garantir o torque em nível nacional a longo prazo.
Nos últimos meses, porém, o brega funk mostrou que nunca esteve morto —estava em transformação. Embora não tivesse o mesmo impacto de anos antes, o gênero vinha avançando Brasil e mundo afora.
Rayssa Dias, que se apresentou no último festival Favela Sounds e sai em turnê pelo Brasil neste ano com o festival Coquetel Molotov, vê este momento como um ponto de mudança. “Estamos vendo uma virada em que o brega funk se consolida nacionalmente e internacionalmente”.
Um dos maiores exemplos foi o mais recente hit do Carnaval. Em “Jetski”, o DJ e produtor carioca Pedro Sampaio se apoia na estrutura rítmica do brega funk do início ao fim. A faixa, com participação dos MCs Melody, de São Paulo, e Meno K, do Rio Grande do Sul, tem mais de 114 milhões de visualizações no YouTube e outros 150 milhões de plays no Spotify.
Um nome de peso dessa nova leva do brega funk é Anderson Neiff. Entre influenciador e MC, o recifense tem músicas como “Tua Ex é uma Delícia”, com 70 milhões de acessos no YouTube, e “Tá Calor Lá Fora”. Menos popular, esta ganhou um clipe imponente com símbolos pernambucanos, como o personagem carnavalesco La Ursa e a guitarra em overdrive do manguebeat —som que também surge na música.
Outro artista importante dessa geração é o MC e DJ Gordinho Bolado. Ele é dono de algumas das canções mais famosas do brega funk atual, como “Eu Tô Fazendo uma Mágica”, em parceria com Felipe Original —veterano do gênero. A faixa deixa explícitos dois elementos importantes do brega funk, hoje distintos da sua fase anterior —a sólida linha de baixo e o ruído que emula um chicote em pleno ataque.
Nome em ascensão da atual escola do brega funk, o DJ Zoinho no Beat vê como obrigatórios esses aspectos em qualquer produção do gênero. “Uma música sem contrabaixo não é uma música boa, porque ele é a vida da música”, diz. “E, hoje em dia, se você não botar o ‘chicote’, é capaz de o MC te matar”.
Para o artista, o som do brega funk hoje é mais enxuto. “O objetivo na produção é não atrapalhar muito a música, não poluir tanto”, diz ele, que também vê um menor uso de trechos vocais de artistas de funk de outros estados —uma questão de fundo legal, uma vez que essa prática, muitas vezes, não é autorizada. “Quando um artista daqui estoura uma música com ‘acapella’ de artistas do Rio ou de São Paulo, dá confusão, porque muitos querem receber mais dinheiro do que outros.”
Esse modo de operação ainda hoje cria imbróglios. Febre do atual momento do brega funk, o “Passinho do Jamal” ganhou as redes sociais, os programas de TV, os vídeos de streamers e as comemorações de futebol nos últimos meses.
A maior vitrine da coreografia foi a música “Toma Botada”, dos pernambucanos Bacana no Beat e Eo Chapa, com sample vocal do carioca MC Rogê. Tanto sucesso resultou em impasse entre as partes —no YouTube, os autores ocultaram o trecho da voz do MC com uma trilha comercial.
O ímpeto de driblar amarras do eixo Rio-São Paulo também tem movido novos artistas do hip-hop pernambucano. Nome em ascensão na cena, a artista Relikia lançou no fim do ano passado o disco “Maioridade”, em que transita entre brega funk e rap ao lado dos rappers Brenu e Ruan Bryant.
No clipe de “Dono da Área”, assinado pelo coletivo Videoculto, os jovens resgatam os encontros de funk da capital pernambucana conhecidos como “bailes da paz”.
Esse contato não é novo. Nomes de sucesso no Recife como MC Draak já haviam feito a conexão do trap brega funk há alguns anos, mas a nova leva de artistas busca uma alternativa cada vez mais local para ganhar sucesso nacional. “O brega funk já é parte da gente, então a gente introduz o hip-hop nisso”, diz Relikia. “E a gente traz um lado de Pernambuco que o Brasil não conhece.”
Para a jovem, o movimento também legitima o brega funk frente a seus opositores. No ano passado, o vereador do Recife Thiago Medina (PL) encaminhou um projeto de lei restringindo o uso de dinheiro público para apresentações de brega funk aos moldes do projeto de lei “anti-Oruam”. “Se o brega funk for a cultura do Recife, estamos lascados”, afirmou ele em entrevista à publicação Portal de Prefeitura.
“Acho que ele é ignorante porque cultura é tudo que é aprendido e praticado em sociedade”, diz Relikia. “Para eles, cultura é só o que eles acham que é cultura, e por isso é importante que estejamos ali sempre dizendo que, sim, isso também é cultura, porque é praticamente impossível ser de Pernambuco e não gostar de brega funk.”
O atual momento do gênero também alça novas tendências de moda e comportamento ao sucesso, caso do estilo ratão. Outrora pejorativo, o termo hoje é reapropriado por jovens de bairros desprivilegiados do Recife —locais onde a soma de canais fluviais e baixos índices de saneamento favorecem a proliferação de roedores.
De roupas de marcas como Seaway e cabelos coloridos, com cortes baixos que deixam apenas uma mecha longa à mostra, os “ratões” surgem em vídeos nas redes sociais sempre ao som de brega funk. Não por acaso é um rato que estampa a capa de “Escama Trap, Vol. 2”, disco recém-lançado do rapper Brenu. “A estética do trap com o brega é algo nosso, algo que não dá para imitar”, diz ele.
O som do brega funk, no entanto, já é replicado não somente Brasil afora, como também internacionalmente. Na Argentina, a festa Club del Funk chega a reunir 2.000 pessoas por edição. Na playlist dos DJs o que mais toca é brega e arrocha funk —uma versão similar ao gênero pernambucano. “As pessoas aqui gostam desse ritmo porque dá pra dançar mais, algo que tem interação com outra pessoa”, diz Brian Alcuña, DJ e fundador da festa.
A chegada do gênero ao país também se dá pelo paralelo do seu ritmo com o RKT, espécie de cruzamento entre reggaeton e cumbia que faz sucesso em grandes cidades como Buenos Aires. “Começamos a fundir RKT com brega funk e artistas argentinos hoje fazem funk argentino”, diz Alcuña. “Em nossas festas a gente levanta a bandeira do Brasil.”
Nessa onda de novidades do brega funk, há também o que não mude. Além das funções com o microfone, a MC Rayssa Dias trabalha em uma concessionária de carros durante a semana. “As mulheres ainda estão tentando ocupar um espaço no brega funk, a gente ainda luta por visibilidade”, diz ela, que almeja palcos maiores para si e para o gênero. “A minha ideia é fazer com que o brega funk seja cada vez mais pop.”