Home » Indignação com novelas de frutas só alimenta máquina da IA – 21/04/2026 – Ilustrada

Indignação com novelas de frutas só alimenta máquina da IA – 21/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Prompt: “Para o desespero da Moranguete, Abacatudo se recusa a procurar emprego porque acha que o tigrinho vai salvar o orçamento do mês. Moranguete tenta um aumento com o chefe, Bananildo, mas ele condiciona o acréscimo a favores sexuais. Aflita, ela se vê forçada a aceitar. Uma gravidez indesejada surge dessa violência”.

É digitando comandos assim em plataformas de inteligência artificial que criadores de conteúdo têm gerado as chamadas “novelinhas das frutas“, melodramas de menos de um minuto em que alimentos assumem a forma humana para protagonizar situações como a descrita acima.

Com a explosão desses vídeos em plataformas como o TikTok e o Instagram, cresce também a discussão sobre os impactos psicológicos ou sociais do consumo das “novelinhas de frutas”. O argumento lembra quem culpava os jogos de tiro online por casos de violência envolvendo menores. Algo como se o mau exemplo simbólico resultasse invariavelmente no aumento desse comportamento nocivo no mundo real.

Pode-se argumentar que, diferentemente dos seus precursores do “brain rot” —séries animadas também geradas com IA—, essas novelinhas não têm o público infantil como alvo, apesar da estética inspirada em animações da Disney. Ou mesmo que a linha que separava a produção cultural infantil e adulta há muito deixou de existir e que as frutas antropomórficas são apenas mais um exemplo da infantilização geral na cultura.

Não há uma resposta simples para essa discussão, mas ela acaba escanteando outra, envolvendo a forma e a maneira que consumimos essas novelas.

Vislumbres sintéticos já têm onipresença no nosso tempo de tela diário. Entre vídeos de animais se comportando de forma perturbadora, pessoas se metamorfoseando em vísceras e frutas praticando adultério, o chamado “IA slop” foi aos poucos substituindo as lindas garotas de biquíni que moravam no meu feed.

Tanto as frutas quanto as garotas estão ali como produtos da exponencial demanda universal por conteúdo. Sua forma de ser é condicionada inteiramente à minha atenção. O único motivo dessas coisas existirem é porque sabem que eu vou ver.

Mas diferentemente da produção algorítmica anterior à explosão da IA –que garantia o meu prazer com vídeos mostrando frutas sendo cortadas perfeitamente ou sendo amassadas sem piedade por uma prensa hidráulica–, a produção algorítmica inteligente eleva o achatamento da narrativa pelo absurdo.

Bananildo, Moranguete e Abacatudo não são personagens com profundidade dramática concreta, mas espasmos de significado que existem e circulam, mas não como obra cultural.

O domínio atual do formato de conteúdo de curta duração exige e acelera a otimização das estruturas narrativas para a difusão algorítmica. Você segue vendo porque acompanha ponto de inflexão emocional atrás de ponto de inflexão emocional –Bananildo traindo Moranguete com a irmã dela; Abacatudo devendo para o agiota e prostituindo a Perita para pagar a dívida.

Você precisa reduzir a narrativa à sua forma mais crua de estímulo emocional para garantir as métricas de audiência. Assim, qualquer densidade narrativa nessas personagens se torna irrelevante. Elas precisam ser apenas recipientes de estímulo, acumulando características na mesma velocidade que as descartam, quase como um reflexo do fluxo de imagens onde estão presas.

Como o escritor inglês Sam Kriss afirmou: “Da próxima vez que você estiver perto de alguém rolando a tela sem parar por vídeos curtos, observe o que essa pessoa realmente faz. Na maioria das vezes, ela nunca assiste a um único vídeo de 20 segundos até o final. Ou melhor, não consome nada além do algoritmo, o fluxo e a velocidade da máquina que reúne o mundo inteiro e o transmite diretamente para você”.

O feedback instantâneo entre criadores e audiência significa que o sistema responde a si mesmo. Em vez de usar essa tecnologia mágica para coisas novas com algum grau de expressão e demanda, você valoriza apelações gratuitas que possam garantir a visualização do fluxo.

Isso talvez explique o tom apelativo das histórias. A propaganda machista, no fim, garante sua indignação e a economia da atenção também é a economia da indignação.

A graça dessa salada de frutas mórbida é que, em algum lugar, sabemos que estamos consumindo lixo sintético pelo absurdo da sua própria premissa. É o fluxo, através da inteligência artificial, regurgitando ele mesmo direto na nossa garganta.

Essas personagens, como as do “brain rot”, não têm um criador identificável. Elas são produto da criação coletiva de usuários; criaturas mágicas de geração e manutenção espontânea que permeiam a cultura sem lastro visível, servindo de agentes de promoção das plataformas e das ferramentas de inteligência artificial que possibilitam suas aventuras.

Talvez o futuro do influencer seja esses seres de criação coletiva, um folclore algorítmico, sustentado por uma parcela vulnerável da população que viu sua capacidade de mão de obra ser substituída pela automação da inteligência artificial –a promessa de complemento de renda a partir da produção dessas novelas sempre aparece no fim dos capítulos dessas histórias. Pelo menos até a própria máquina decidir começar a produzir conteúdo sem ser provocada.

Prompt: “O fruto do discernimento do bem e do mal precisa garantir a fralda do filho criando conteúdo apelativo para as redes sociais”. O pecado está nos olhos de quem vê.

João Montanaro trabalha desde 2010 como cartunista da Folha e também como ilustrador. Escreve resenhas de cinema para o jornal esporadicamente.

Autor Original

You may also like

Leave a Comment