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Bianca Comparato encena as dores e o amor de um monstro – 03/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

No centro do palco, Bianca Comparato mergulha os braços em um balde cheio de tinta, molha as mãos no líquido e começa a pintar o próprio rosto de vermelho sangue. Agora, ela já não é mais uma atriz carioca de 40 anos, mas um monstro alado de pele rubra chamado Gerião. Longe de ceifar vidas ou aterrorizar vilarejos, essa criatura deseja apenas viver uma história de amor com o homem que o levará à morte.

O desenrolar desse romance de contornos trágicos é um dos fios condutores de “Autobiografia do Vermelho”, monólogo em cartaz no Sesc Avenida Paulista, na região central de São Paulo. Estrelado por Comparato com direção de Daniela Thomas, o espetáculo adapta para o palco o livro de mesmo nome da escritora Anne Carson, um dos principais nomes da literatura mundial.

Além de publicar livros, a canadense trabalha como professora e tradutora de literatura grega clássica. Foi justamente da mitologia que ela retirou inspiração para escrever a obra que agora ganha os palcos do Brasil.

Lançado há 28 anos, o livro faz uma releitura do mito de Gerião, um gigante de pele vermelha dono de um rebanho igualmente vermelho. A tranquilidade da criatura é interrompida quando Hércules aporta na ilha mítica de Erítia para realizar um de seus 12 trabalhos. A missão da vez é matar Gerião e roubar seu rebanho, empreitada que o herói realiza com êxito. Carson, porém, decidiu subverter esse mito.

No livro, as feições monstruosas de Gerião escondem um jovem introspectivo e profundamente sensível. As asas do personagem parecem a materialização de sua força criativa, enquanto a pele vermelha sinaliza um corpo em ebulição emocional.

Esse fervilhar de sentimentos se intensifica quando ele se apaixona por um rapaz envolvente e emocionalmente distante chamado Héracles –Hércules em latim. Com ele, Gerião descobre o sexo e o amor, mas também a desilusão. Héracles, afinal, não quer mais do que uma relação breve, constatação que provoca uma dor lancinante.

“A vida de Gerião adentrou um período morto, preso entre a língua e o gosto”, diz o narrador, em uma das passagens do livro. Se no mito grego a aniquilação do monstro é concreta, na obra da canadense a morte acontece de forma simbólica.

“É uma história que fala sobre encontrar o que você ama e deixar isso te matar”, diz Comparato, pouco após terminar um ensaio da peça. “Acho que ela fala também sobre vidas e amores intensos, relações que a gente decide viver mesmo sabendo que talvez não deem certo.”

Além do amor frustrado, o livro e o monólogo parecem interessados em questionar as ideias de heroísmo e monstruosidade.

“Os trabalhos de Hércules são muito violentos. Ele aniquila quem é considerado selvagem”, diz Comparato. “É uma história que tem muitas camadas sociais e políticas para mim, principalmente porque sou uma mulher queer, ou seja, eu ocupo um lugar que ainda é visto como monstruoso.”

O brilhantismo de “Autobiografia do Vermelho” reside também no modo como Carson mistura diferentes gêneros para compor uma miscelânea literária, construindo uma história caleidoscópica e, por vezes, labiríntica.

Ora o enredo se desenrola como um ensaio ou um poema, ora ele é narrado como uma entrevista. O monólogo reproduz esse hibridismo estético, valendo-se de músicas, projeções e do próprio texto para dar vida à trama.

A atuação de Comparato também congrega múltiplas camadas, já que ela encarna personagens tão díspares quanto Gerião e Héracles. A voz, a expressão e a linguagem corporal da atriz mudam com rapidez à medida que os personagens vão brotando.

“Demorou para achar o tom de cada um deles. No início, era um pouco confuso, mas a leitura do livro ajudou a achar as vozes”, diz ela. “Eu quis que essa transição de um personagem para outro parecesse fácil e natural. Embora seja algo tecnicamente difícil, a ideia sempre foi que não parecesse um esforço.”

Para algumas pessoas, aliás, a literatura de Carson pode ser tão desafiadora quanto trocar de personagens repentinamente. Além de misturar diferentes gêneros literários numa mesma obra, ela é conhecida pelo uso não convencional da pontuação e por promover experimentações linguísticas por meio de metáforas improváveis. Em razão do estilo pouco ortodoxo, a produção da canadense ganhou a pecha de inacessível.

“Quando peguei o livro, pensei que não entenderia por não ter capacidade intelectual. Mas aí comecei a entrar na leitura e me percebi rindo e chorando”, diz Comparato, acrescentando que tentou reconstruir essa experiência nos palcos. “Eu quero que as pessoas entendam tudo sobre ela. Por isso, não quis construir uma peça distante.”

A proximidade com o público não é apenas simbólica, mas também literal. No interior do teatro, cabem cerca de 70 pessoas, o que confere uma atmosfera intimista à produção. Além disso, os primeiros minutos do monólogo se assemelham a uma conversa, estabelecendo cumplicidade entre a atriz e o espectador.

Esse vínculo se torna mais fácil em razão da universalidade dos temas abordados, como amor, solidão e não pertencimento. Para traduzir a sensação de isolamento, por exemplo, a peça se vale de projeções que parecem emparedar Gerião entre formas geométricas claustrofóbicas.

“É como se o personagem estivesse sendo espremido pelo tempo e pela vida. Ele poderia ser um cara gigante se tivesse autoestima, só que não consegue. Prefere fechar as asas e permanecer pequeno.”

Um dos momentos em que essa sensação de pequenez fica mais evidente acontece quando a peça encena o primeiro dia de Gerião na escola. Nesse momento, vemos um jovem inseguro e vacilante atordoado pelo burburinho dos corredores.

“Eu quis criar esse desconforto usando artifícios teatrais que produzissem nas pessoas a mesma intensidade que o livro produziu em mim”, diz Daniela Thomas, a diretora do monólogo.

Ela afirma que sua direção buscou transportar o espectador para a subjetividade dos personagens. Com isso em mente, Thomas tentou criar uma experiência que estivesse mais perto dos sentidos do que dos conceitos.

“Quis dar um calor psíquico para a peça e habitar esses personagens para torná-los coisas vivas”, diz a diretora. “O monólogo não quer ensinar nada a ninguém, mas me esforcei para que ele fosse não só uma viagem artística, mas também uma jornada íntima e introspectiva para o público.”

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