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Coleção com obras raras do Brasil será digitalizada – 03/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Por mais de cinco décadas, o norte-americano Richard C. Ramer se dedicou a garimpar livros e documentos raros entre famílias da Europa, Estados Unidos e Brasil. Transitando entre Nova York e Lisboa, tornou-se uma figura influente no mercado de livros raros, com um acervo cobiçado por colecionadores.

Uma das coleções mais importantes do acervo de Ramer, que morreu no último dia 4 de fevereiro, aos 83 anos, foi vendida há pouco mais de um ano para uma instituição brasileira. O conjunto inclui 684 livros, documentos e panfletos impressos no século 19 nos primeiros parques tipográficos da América portuguesa.

Os livros e documentos foram adquiridos pelo Instituto Flávia Abubakir, que mantém sedes em Salvador e em Crans Montana, na Suíça. Eles serão digitalizados e disponibilizados para pesquisadores a partir de abril no site da instituição.

“São pequenas joias. Não são livros luxuosos, mas peças singulares, únicas, que não existem em outras bibliotecas”, diz o empresário Frank Abubakir, que comanda o instituto com a esposa, Flávia Abubakir. O casal possui um acervo com cerca de 60 mil peças.

O catálogo inclui manuscritos e livros do período colonial, da Independência e do Primeiro Império, incluindo os primeiros livros de medicina, direito, filosofia e economia editados na Bahia, muitos deles utilizados no ensino régio após a chegada da corte portuguesa ao Brasil.

Do total do acervo incorporado pelo instituto, 579 obras foram impressas no Rio de Janeiro, então sede da Impressão Régia, 48 na Bahia; 7 em Pernambuco, 5 no Maranhão além de exemplares feitos em Minas Gerais, no Ceará e na antiga província da Cisplatina, atual Uruguai.

Frank Abubakir está na sexta geração de colecionadores de livros raros da família. Há cerca de dois anos, recebeu um telefonema de Ramer com uma proposta de venda da coleção. A negociação foi intermediada por um livreiro que era um amigo em comum, e Frank decidiu aceitar as condições. “Eu paguei o preço que ele queria porque sabia que ele passou a vida toda construindo aquilo”, afirmou. Os valores envolvidos na compra não foram revelados.

Entre as preciosidades está uma edição da “Oração gratulatoria ao Principe Regente nosso Senhor”, primeiro livro impresso na capitania da Bahia, da qual só se conheciam outros três exemplares. O livro foi redigido por Inácio José de Macedo e publicado em 1811 na tipografia de Manoel Antonio da Silva Serva.

Na literatura, o destaque é uma edição brasileira de “Atalá”, de François-René de Chateaubriand, cuja tradução foi liberada pela comissão de censura baiana em 1819. A história, que se passa na Luisiana do século 18, é protagonizada por um indígena que se apaixona pela filha de um grupo inimigo.

A obra influenciaria o romantismo brasileiro e o movimento indianista no século 19, inspirando obras como “A Confederação dos Tamoios”, “Iracema”, “O Guarani” e “Ubirajara”. Foi lida pelos principais escritores brasileiros da época, de Gonçalves Dias a Machado de Assis.

O acervo reúne ainda panfletos políticos publicados no calor da Independência, em 1822, além de impressos ligados à maçonaria. Também inclui uma edição inaugural de 1821 da Aurora Pernambucana, primeiro jornal do Recife, e um livro sobre o Ceará de 1827.

“É um livrinho feito pelo pai do José de Alencar. Nenhuma biblioteca tem. Nem a Nacional, nem a Nacional de Portugal“, afirma o historiador Pablo Iglesias Magalhães, professor da Universidade Federal do Oeste da Bahia e consultor do instituto.

Na área médica, o destaque é “Elementos de osteologia pratica” (1812), de José Soares de Castro, primeiro livro de medicina publicado na Bahia e parte de um tratado em quatro volumes voltado ao ensino de anatomia e cirurgia.

O conjunto contempla ainda teses de 1837 da então recém-criada Faculdade de Medicina da Bahia, como as de Manoel Ladislau Aranha Dantas e Elias José Pedrosa Filho. Parte dos documentos desta época havia se perdido após um incêndio na biblioteca da instituição, em 1905.

O historiador Pablo Iglesias Magalhães afirma que o acervo tem profundo valor histórico e cultural e destaca a relevância da aquisição diante das perdas do patrimônio bibliográfico da Bahia.

Salvador enfrentou um incêndio em 1905 na Faculdade de Medicina, um bombardeio em 1912 que atingiu a Biblioteca Pública da Bahia e destruiu sua coleção, além de ter o prédio da Imprensa Oficial e da segunda sede da Biblioteca Pública arruinado pelo fogo em 1961.

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