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Misoginia e violência: o que está acontecendo com jovens – 03/03/2026 – Lorena Hakak

by Silas Câmara

Letícia (nome fictício) foi convidada por um colega de escola para ir a um apartamento com ele. Segundo seu relato, os dois já haviam mantido um relacionamento. O que seria um encontro entre duas pessoas se transformou em violência quando quatro amigos do rapaz chegaram ao local enquanto ela mantinha relações sexuais com ele. O episódio terminou em um estupro coletivo. Os jovens acusados têm entre 18 e 19 anos. Segundo reportagem da Folha, o caso ocorreu no dia 31 de janeiro de 2026, em Copacabana, no Rio de Janeiro.

Diante de episódios como esse, é inevitável perguntar: o que leva jovens e adolescentes a cometer esse tipo de crime? Que ideias sustentam tal comportamento? A violência sexual pode funcionar como instrumento de subjugação de mulheres? As perguntas são muitas e as respostas longe de simples.

A adolescência e o início da vida adulta configuram uma etapa de transição marcada por profundas transformações. Nesse período, a formação do caráter é influenciada por múltiplos agentes de socialização, como a família, os amigos e os professores, bem como pelos discursos aos quais os jovens estão expostos. Ao mesmo tempo, eles buscam reconhecimento e pertencimento entre seus pares, em interações que ocorrem tanto no ambiente presencial quanto no virtual.

Segundo o artigo “Taught to Hate, Longing to Belong: Misogyny and the Making of Masculinity in Adolescence” (Ensinados a odiar, ansiando por pertencer: Misoginia e a construção da masculinidade na adolescência), de Afarin Rajaei, Chantal Hanna e Shakiba Jonaghani, a masculinidade, durante a adolescência, é construída a partir da internalização de narrativas culturais, das experiências de socialização e da influência cada vez mais presente dos ambientes digitais.

Além disso, a combinação entre misoginia e a relativização da violência de gênero pode favorecer o desenvolvimento de uma identidade masculina “tóxica”, levando jovens a adotar comportamentos violentos e agressivos contra mulheres. Assim, ambientes que distorcem o conceito de masculinidade e o associem à dominação, ao controle e à agressão feminina podem contribuir para esse fenômeno. Essas atitudes se manifestam em comentários como “mulheres não deveriam usar roupas decotadas”, na desqualificação de vítimas de estupro, seja no mundo real ou no virtual, ou, em casos mais extremos, no recurso à violência física.

Independentemente da motivação, a violência contra as mulheres deve ser punida com rigor pela lei. No entanto, como sociedade, precisamos refletir sobre formas de prevenir esses comportamentos. Os pais devem manter um canal aberto de diálogo com seus filhos e estar atentos a mudanças de comportamento. Além disso, o enfrentamento precisa ser integrado, envolvendo médicos, psicólogos, educadores e formuladores de políticas públicas.

As escolas podem promover o letramento digital e a inteligência emocional, preparando adolescentes para enfrentar narrativas misóginas e para aprender a navegar pelas redes de forma crítica. Também podem oferecer cursos de letramento digital para pais e cuidadores, além de orientações sobre como dialogar com seus filhos, a fim de prepará-los para enfrentar esse desafio.

Paralelamente, políticas públicas podem ser criadas para regular conteúdos digitais e exigir maior responsabilidade das plataformas, especialmente quando seus algoritmos incentivam determinadas ideologias e reforçam o isolamento emocional. Além disso, é possível apoiar iniciativas voltadas à capacitação de educadores e profissionais de saúde mental para que identifiquem e lidem com indícios de radicalização digital e isolamento emocional entre adolescentes. O caminho é difícil, mas precisamos enfrentá-lo o quanto antes.


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