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Bolsa de Valores comemora recorde em festa vazia – 19/04/2026 – Marcos de Vasconcellos

by Silas Câmara

A Bolsa de Valores brasileira se aproxima da “festa dos 200 mil pontos”, medidos e noticiados diariamente, com base no Ibovespa, índice que reflete o desempenho das ações mais negociadas no país. Apesar do alarde, a verdade é que a festa está vazia.

Não digo vazia de investidores, esses são numerosos e merecem celebrar. O problema aqui é o número de empresas listadas na Bolsa, que vem caindo a passos largos, deixando cerca de 350 opções para quem quer investir. Já foram mais de 400, mas desde 2021 nenhuma companhia entra no mercado, enquanto muitas abandonaram o barco.

Nós estamos em abril, e, só neste ano, cinco empresas saíram da Bolsa, como a Gol. Outros quatro pedidos de deslistagem estão sob análise, entre os quais a Arandu, novo nome da gestora Reag — enroladíssima no escândalo do banco Master— e a Atom Educação, responsável por abrir as portas do mercado financeiro para o grupo Fictor.

O problema de ter um cardápio tão minguado de opções para investir leva a questionar o próprio papel do mercado de capitais. Ele deveria servir para fomentar crescimento e inovação, pela lógica de autores clássicos da economia. Entre eles, Joseph Schumpeter, que destacou o papel do mercado financeiro no financiamento de novos empreendimentos e inovação, e Jean-Baptiste Say, que defendeu a mobilização de recursos para o aumento da produção.

Quando nenhuma empresa está fazendo ofertas de ações, os papéis estão apenas trocando de mãos entre investidores, num vaivém de pura especulação sobre os resultados das companhias. Essa especulação precisa acontecer, para que o mercado tenha liquidez (ou seja, dinheiro circulando) em novas captações. Mas, se estamos em um deserto de ofertas, a Bolsa se torna o campo de um jogo sem objetivos na economia real.

Um dos problemas apontados pelos empresários é o alto custo de fazer toda a operação para abrir capital. Nesse sentido, uma boa novidade é o Regime Fácil, nova regulação da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para ampliar o acesso de empresas menores ao mercado de capitais, publicada em julho do ano passado, mas que só começou a funcionar mesmo no mês passado.

A ideia é que as empresas com receita bruta menor do que R$ 500 milhões possam captar dinheiro no mercado de ações. A primeira (da companhia MaisMu) aconteceu, mas resta a dúvida em relação ao apetite das empresas por investidores e dos investidores por empresas.

Claro que, com nossa atual taxa de juros, é fácil ter bons rendimentos emprestando dinheiro para empresas, bancos ou governo, nas aplicações de renda fixa, com risco tradicionalmente menor do que comprar um pedaço de sociedade. Além disso, investir em mercados maduros, como os Estados Unidos, com suas mais de 5.000 empresas listadas em Bolsa, hoje é extremamente simples.

A verdade é que a Bolsa brasileira, ou suas subdivisões, precisa deixar de ser vista apenas como uma via de especulação. Investir não pode ser uma simples aposta para capturar ganhos rápidos. Para isso, é preciso uma visão dos grandes investidores voltada ao longo prazo, conectada ao valor real das empresas, que vejam o desenvolvimento sustentável como prioridade.

Sem isso, estaremos fadados a comemorar as pontuações do Ibovespa em festas cheias de grandes especuladores estrangeiros, mas sem injetar dinheiro de verdade nas empresas que podem gerar empregos e inovação.


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