Após um ano bem ocupado, o autor Marcelo Rubens Paiva volta a escrever com regularidade para a Folha, na edição desta quinta-feira (5), assinando uma coluna quinzenal na Ilustrada, o caderno de cultura do jornal.
Seu 2025 foi marcado pela campanha de sucesso do filme “Ainda Estou Aqui“, adaptação de seu livro homônimo que venceu o primeiro Oscar do Brasil, e de uma temporada entre feiras literárias estrangeiras para traduzir e internacionalizar sua obra.
Autor também do best-seller “Feliz Ano Velho” e “O Novo Agora”, seu trabalho mais recente, o jornalista de formação estava inquieto, apesar da agenda cheia. Quando era menino, afirma, participava do jornal do colégio, escrevendo suas “opiniões, ideias e, principalmente, revoltas”. É esse mesmo espírito que ele diz querer trazer, agora, para a coluna.
Paiva vai alternar o espaço com o médico Drauzio Varella e com a atriz Fernanda Torres, hoje em período sabático como colunista. A protagonista de “Ainda Estou Aqui” é uma grande amiga do escritor, que a considera “um milagre”.
“Como pode uma pessoa escrever tão bem. Ou melhor, fazer tudo tão bem?”, diz o autor, sobre quando lia os textos dela, que viveu sua mãe, Eunice, nos cinemas. “Ela escreve, atua, dirige, produz, é uma artista completa.”
É um retorno à Folha, após uma passagem pelo jornal no início dos anos 2000 e depois de ter publicado textos pontuais nele ao longo do ano passado. Formado em rádio e TV pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, em 1988, Rubens Paiva também fez críticas na revista Veja, para jornais da cena musical alternativa de São Paulo e foi colunista no Estadão até 2024.
Após essa breve pausa —ou “hibernada”, como ele diz— no jornalismo para priorizar “Ainda Estou Aqui”, também quis retomar sua banda. Paiva, afinal, se define nas redes sociais como escritor, dramaturgo e gaitista. “É um sonho antigo meu voltar a ser músico”, diz.
Assim como o Marcelo da juventude, ele pretende manter como tema principal os assuntos que o revoltam. “Eu percebi que muita gente estava escrevendo coisas que não faziam o menor sentido”, diz sobre um dos estopins que o levou à inevitável volta ao jornalismo.
Nas últimas semanas, assuntos como o Banco Master, o cão Orelha e os estudos sobre polilaminina despertaram o interesse do escritor. Mas não só isso. Para Paiva, as notícias estão cada vez mais enraizadas em gabinetes, e o jornalismo de rua já é uma espécie em extinção. “Essa é a ideia da coluna, pôr um pouco mais da visão da rua de verdade. E da apuração um pouco mais longa também.”
Ele avalia que o jornalismo atual perdeu parte da liberdade que tinha quando começou. “O jornalismo ficou muito burocrático”, diz. O autor relembra apurações que demoraram meses e que hoje, por conta da rapidez, não são feitas com a mesma frequência.
Por ser uma coluna quinzenal, Paiva torce para que o tempo consiga elucidar os temas que serão abordados, sem a pressão do imediatismo. Pretende ainda escapar do, como descreve, “linchamento virtual que tem sido realizado constantemente”.
Para ele, a trajetória híbrida entre a literatura, a música e o convívio com diferentes círculos do poder, enriquece seu olhar e pode contribuir para seus textos, principalmente em um ano de eleição.
“Por ter amigos íntimos dentro do governo, por fazer parte das pizzas de intelectuais, por conhecer colunistas, beber com escritores, por conhecer o mercado editorial a fundo”, afirma poder trazer clareza os debates atuais.
Chegando perto dos 40 anos na profissão, Paiva diz que aprendeu que a responsabilidade com a palavra é inegociável. “Eu nunca fui processado, o que é muito raro no jornalismo. Aprendi a não ser estúpido nem grosso com ninguém.”
Lembra ainda de que a liberdade de expressão caminha ao lado do direito à honra e à imagem. “Ao mesmo tempo que você tem a liberdade de manifestação, tem o dever de não violar a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem da pessoa.”