Home » ‘A Noiva’ mostra aspectos do cinema, musical e monstros – 05/03/2026 – Ilustrada

‘A Noiva’ mostra aspectos do cinema, musical e monstros – 05/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

“A Noiva” é, de certa forma, um filme de dualidades, de corpos que se dividem. Assim, logo de início existe uma moça enojada com o grupo de gângsteres, de fato repulsivos, que a cerca. A moça se chama Ida (Jessie Buckley). O líder dos gângsteres se chama Lupino. Juntando os dois, temos Ida Lupino, nome da antiga estrela da Warner e intrépida cineasta independente.

Logo, Ida será morta e ressurgirá entre os vivos como a noiva tão desejada pelo monstro de Frankenstein. Estamos nos anos 1930, era de gângsteres e de filmes. Frankenstein já existia desde o século 19, mas ressurgiu com força no cinema. Agora ressuscita como fã incondicional dos musicais, em especial os estrelados por um certo Ronnie Reed (Jake Gyllenhaal).

O solitário Frankenstein (Christian Bale) exige da Dra. Euphorius (Annette Bening) a criação de uma noiva. E caberá à finada Ida esse papel. Ao contrário da noiva do filme dos anos 1930, desta vez a noiva já vem completa, ainda que um tanto avariada. Tem fraturas, escoriações, uma enorme mancha de sangue no rosto.

Juntos, eles saem para o mundo. Mas o mundo que encontram não se parece muito com o de 1930. Agora parece que está dividido em duas partes: o das pessoas “de bem” e as figuras monstruosas (que podem ser prostitutos, músicos, frequentadores de rave etc.). Em vista disso, Frankie (como ela o chama) e Penny (como ele a nomeia) até que começam bem sua passagem pelo mundo civil.

No entanto, logo começam a surgir os obstáculos. Na saída de uma festa, um bando de estupradores ataca Penny; Frankie se enfurece e a defende. Quando a defende não é o monstro gentil que conhecemos, pelo contrário. Os estupradores morrem e, evidentemente, aqui começa a perseguição.

Vemos que, até aqui, Maggie Gyllenhaal mostrou dois aspectos do cinema: os musicais e os monstros. Entra em cena um outro: o policial. Seu xadrez parece pronto. Na verdade, Frankie e Penny serão mais uma espécie de Bonnie & Clyde do que um casal de monstros: uma dupla marginal que sobrevive num sistema opressivo, feito para eliminar os divergentes.

Ou seja, o policial se impõe sobre o terror. As referências ao filme de Arthur Penn são evidentes. Mas também o musical irrompe em contraponto: é o gênero por excelência capaz de prometer felicidade. E aqui ele tem, obviamente, conotação um tanto irônica.

Mais do que todos os gêneros invocados, o cinema é uma presença sempre invocada e sempre questionada. Por um lado, a proximidade entre a produção cinematográfica e o gangsterismo é notória. Mas o cinema é também o lugar onde se promete ao mundo uma felicidade inexistente, que o filme policial virá conjurar. E o horror nisso tudo? Entra sobretudo como dimensão paradoxal: os monstros não são os monstros. São os outros.

Mais exatamente, Maggie Gyllenhaal acrescenta ao mito de Frankenstein a condenação do universo masculino, com tudo o que possa representar de negativo. Basta observar a dupla de simpáticos detetives envolvidos nessa história: Jake Wiley (Peter Sarsgaard) e Myrna Mallow (Penélope Cruz). Ele é o detetive. Ela, a assistente, a secretária. Mas é ela, com seu nome que inevitavelmente evoca o nome de outro detetive, Philip Marlowe (criado por Raymond Chandler), quem tem a capacidade de investigar é a mulher.

A enorme vantagem de “A Noiva!” em relação à maior parte dos filmes que se reivindicam feministas (o que inclui os brasileiros) é que em Gyllenhaal o ideário não atropela a história.

Dizer que o filme é feminista não significa dizer que seu interesse ou seu significado resumem-se a isso. A invocação do monstro visto como vítima de um mundo verdadeiramente monstruoso reflete com alguma desenvoltura a maneira como os liberais sentem-se oprimidos nos EUA sob a atual administração de extrema-direita. E, claro, a cultura do machismo extremo, do sadismo, do estupro (e que se pode replicar, aqui no Brasil, do assassinato de mulheres) mostra sua face horrível por inteiro aqui.

O jogo de espelhos do roteiro, que começa com Ida e Lupino, passa por Frankie e Penny, a era clássica e o contemporâneo etc., ajuda muito na felicidade formal do filme, que consegue superar a empostação desmedida da Mary Shelley que aparece no início e retorna de tempos em tempos.

“A Noiva!” poderia muito bem estar no lugar de alguns abacaxis com que nos presenteia o Oscar deste ano.

Autor Original

You may also like

Leave a Comment