Ele lembrava que tapava o buraco da fechadura para pintar. Afinal, nas palavras de Almir Mavignier, a Escola Superior da Forma em Ulm, na Alemanha, um dos maiores centros de arte de vanguarda no século passado onde desenvolveu grande parte da sua linguagem estética era quase um mosteiro. Não era para românticos, ele dizia. E seria injusto também descrever Mavignier como tal, ele só tinha uma sensibilidade mais aflorada na construção visual do que o alinhamento castrador à vã geometria.
Tudo isso vai poder ser visto de perto em três mostras paulistanas que celebram o centenário do artista —com um ano de atraso, mas isso não faz mal. As galerias Dan e Paulo Kuczynski apresentam, cada uma, seus recortes da obra desse nome fundamental das vanguardas geométricas e da chamada op art. Além das duas casas, o centro Unibes Cultural, em Pinheiros, também desdobra a visão sobre o artista com uma seleção de trabalhos, tudo isso no mês que vem.
O recorte maior estará na Dan, galeria que representa o espólio de Mavignier, com uma retrospectiva que vai de suas primeiras pinturas figurativas até sua sobras mais aclamadas pela crítica, os trabalhos abstratos em que o artista mergulhou numa pesquisa intensa dos efeitos da luz, da cor e do movimento em trabalhos de raiz geométrica, sem jamais esquecer a subjetividade espontânea que aproxima seu trabalho da arte dos visionários que conheceu de perto no hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, ao lado de Nise da Silveira. Um destaque é um painel de grande escala, o último trabalho realizado pelo artista, há oito anos, em seu ateliê em Hamburgo, onde morreu.
Na seleção da galeria Paulo Kuczynski, a celebração será dupla, não apenas da obra de Almir Mavignier, mas também da amizade do artista com Arthur Luiz Piza, outro grande nome das artes do país que se radicou em Paris. Ali deve ser evidente o contraste entre a vibração profunda das obras de Mavignier com a atenção ao relevo nos trabalhos de Piza, dois mestres, cada um numa das pontas de um espectro dessa vanguarda.
Por fim, na Unibes Cultural estarão à mostra cerca de 50 tipografias de Mavignier, elaboradas num processo póstumo, ao lado de cartazes clássicos do artista, que se firmou como um dos maiores nomes do design gráfico numa época em que o Brasil era ainda o país do futuro, com Brasília em construção e a bossa nova dominando as ondas sonoras das rádios.
O MUSEU É TODO MEU A galerista Luisa Strina prepara um novo espaço, alguns andares acima de sua galeria nos Jardins. Será um lugar intimista para ver joias que marcaram seu olhar. Na estreia, estarão obras de Anish Kapoor, Antonio Dias, Cildo Meireles, Cindy Sherman, Danh Vo, Ivens Machado e Jenny Holzer.
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