Quando a bispa Isa Reis se disse farta “desse papinho furado”, muitos evangélicos sabiam do que ela estava falando. Mas poucos diziam em voz alta.
O tema é familiar a muitos irmãos de fé: como as igrejas muitas vezes se calam ante agressões cometidas por atuais e ex-parceiros contra as fiéis. “Se falar, vai escandalizar”, diz Reis em pregação viralizada em redes sociais cristãs. “Escandalizar quem? Quem fez, a vítima nunca.”
Mulheres são maioria no evangelicalismo brasileiro. E esse grupo demográfico está entre os maiores alvos de violência doméstica no país. Ainda assim, o tema ainda é assunto proibido em muitos púlpitos.
Na prática, isso se traduz em silêncio, aconselhamentos privados que priorizam a preservação do casamento e uma pressão pelo perdão àquele que a machucou.
O paradoxo está dado: templos cheios de mulheres que sustentam a vida comunitária, mas encontram resistência quando tentam nomear o abuso que sofrem. “A maioria reconhece no pastor uma figura de autoridade e tenta pôr em prática os conselhos recebidos, encarando o desafio de se submeter ao companheiro, ser mais ‘mansa’, dedicar-se mais a orações”, diz Marília de Camargo César, autora de “O Grito de Eva – Violência Doméstica nos Lares Cristãos”.
A recomendação para não procurar a Justiça parte inclusive de pastoras, “sob o argumento bíblico de que a mulher ganha o marido com sua boa conduta, e seu exemplo de fé acabará levando o agressor aos pés da cruz”, diz César. Está lá, afinal, no Novo Testamento: “Mulheres, sujeitem-se a seus maridos, a fim de que, se alguns deles não obedecem à palavra, sejam ganhos sem palavras, pelo procedimento de sua mulher, observando a conduta honesta e respeitosa de vocês”.
Reis, a bispa que verbalizou o dever de não se calar nesses casos, conta que uma amiga delegada não se dá ao trabalho de trocar de roupa após voltar do culto dominical. Sabe que precisará correr para a delegacia a qualquer instante. “Certamente tem algumas ligações, porque alguma irmã apanhou depois que chegou em casa.”
A bispa diz que as crentes são o grupo mais vulnerável a ataques dos companheiros. Os números a corroboram.
São as evangélicas, segundo dados levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha, que mais se veem na condição de vítima de violência de gênero. Ao longo da vida, 42,7% delas dizem ter sofrido algum tipo de agressão do parceiro ou de um ex.
Entre fevereiro de 2024 e fevereiro de 2025, escopo da sondagem, 39% relatam ter passado por alguma situação de violência. E metade das evangélicas relata ter vivenciado formas de controle excessivo nos relacionamentos amorosos, como checagem de celular ou impedimento de trabalhar e estudar.
O pastor Yago Martins, do canal Dois Dedos de Teologia, lançou “Igrejas que Calam Mulheres” para tratar do tema. “Há alguma resistência a ele em certos ambientes cristãos, onde se entende que conflitos assim deveriam ser tratados dentro da família e da igreja, por meio de aconselhamento pastoral e disciplina espiritual”, diz.
Ainda que permaneça expressiva, essa abordagem tem encolhido, segundo Martins. Cresce a parcela de líderes que entendem a violência doméstica como crime aos olhos da justiça divina, mas também da humana. “Além do acompanhamento espiritual, espera-se que o pastor encaminhe o caso às autoridades competentes, sob risco de acabar encobrindo um ato criminoso.”
Para Martins, há risco também de uma linha cruzada ideológica: a pauta é tida como progressista por muitos no segmento, e lideranças conservadoras podem ter dificuldade em lidar com a questão por temerem serem enquadradas à esquerda.
O problema não é só que “muitas mulheres foram ensinadas a naturalizar o sofrimento no casamento como parte da missão conjugal”, diz a teóloga Valéria Vilhena, fundadora do coletivo Evangélicas pela Igualdade de Gênero.
Os laços comunitários que a igreja proporciona servem como rede de proteção, mas podem ter o efeito colateral de inibir denúncias. “Romper com o agressor pode significar também romper com a comunidade, enfrentar julgamento moral e isolamento.” Melhor aguentar calada, muitas pensam.
A preferência de Gislaine por omitir seu sobrenome diz muito sobre como o tópico ainda é tabu nesse círculo cristão. Ela conta que, casada por mais de 20 anos, demorou para se ver como vítima de violência psicológica.
O ex, diz, é o tipo de homem que humilha e usa palavras que anulam a autoestima. Não batia, mas usava outros recursos violentos para controlá-la, inclusive patrimonial, que é mantê-la à sua mercê por amarras financeiras. “Ele se sentia meu dono. No divórcio ficou com quase tudo o que tínhamos.”
Gislaine procurou o pastor para relatar seu cansaço com a relação. “Ele leu as passagens bíblicas que falam de submissão [ao marido], que o divorciado perde o reino dos céus.”
Ela já sabia que o pastor não havia apoiado outras mulheres em situação parecida. Uma, por exemplo, que apanhava em casa. “Ele foi favorável ao homem. Sugeria que a esposa tem que orar pelo marido.”
Rachel, outra que não quer ser identificada pelo sobrenome, ganhou um olho roxo no dia em que o então companheiro perdeu o emprego. “Ele estava nervoso e descontou em mim. Eu estava com nosso filho no colo, ele puxou briga porque não queria macarrão, queria carne no jantar.”
A reação do seu pastor foi outra. “Ele disse que perdoar meu marido agradaria a Deus. Mas perdoar não era a mesma coisa que continuar junto. Aconselhou que eu fosse a uma Delegacia da Mulher, e eu fui.”
O desembargador William Douglas coordenou a produção de uma cartilha justamente para orientar líderes religiosos sobre a violência doméstica.
O abuso é descrito como pecado grave que não deve ser relativizado. Mas há barreiras, como o sigilo pastoral. Legalmente, o pastor não está entre os profissionais obrigados a denunciar uma agressão caso tome conhecimento dela.
É preciso ponderar, segundo o documento, que há uma confiança entre o líder e a pessoa atendida. Se ela for quebrada, “isso pode atrapalhar a liberdade de outras ovelhas se abrirem em momentos de aconselhamento”.
Ele não poderia, portanto, ir às autoridades por conta própria. A vítima precisa querer. Seu papel seria informar caminhos disponíveis, como telefones de emergência e delegacias. Também deve alertar que a falta de medidas “que interrompam as agressões favorece o aumento da sua quantidade e gravidade”.
O pastor que pregava na igreja de Gislaine não seguiu a diretriz do tipo, e ela acabou saindo de casa. “Levei meus pertences pessoais, o carro que eu ainda estava pagando, uma mesa com seis cadeiras, um fogão.” E foi recomeçar a vida.
Ela, que na infância apanhava muito da mãe, hoje diz enxergar que o casamento só a “mantinha nesse lugar” que ela “já estava acostumada”. Alvo fácil. “Quando um homem como meu ex se envolve com uma mulher que nem autoestima tinha, fica fácil mantê-la refém. Eu nem sabia ser feliz.”
Quando mais precisou, Gislaine não pôde contar com sua igreja. “É um ambiente machista, que estimula o homem que domina a mulher. Se a gente coloca o basta, é vista como descrente, louca. Tem que ficar solteira, tem que pagar o preço.”
É o tal do “papinho furado” que a bispa Isa diz que precisa acabar, reflexão que vem se espalhando pelas igrejas. Orar importa, mas não pode ficar só nisso diante da violência doméstica, ela prega. “A mulher tá caída e silenciada, não tem mais ninguém para proteger. Por quê? Porque agora ela tá morta.”