Acontece, contra todas as probabilidades, de um casal envelhecer junto ou começar um relacionamento na velhice. (Existe uma certa ojeriza no uso da palavra velhice, mas aqui se trata de assumi-la, deixando o mal-estar do lado de quem não entende que ela, com sorte, chega.)
Se compartilhamos nossa existência com a mesma pessoa ao longo dos anos, o outro vira testemunha do que fizemos com nossos sonhos, desejos, corpos, tempo. Enfim, que destino demos às heranças, acontecimentos e escolhas que chamamos de vida.
Como nossa sociedade lida mal e porcamente com a maior questão humana, leia-se a morte, é de se esperar que isso reflita diretamente sobre as relações dos sujeitos que dela passam a ter maior consciência. Porque envelhecer não é só se haver com a perda de colágeno, equilíbrio e memória, mas dar-se conta do que sempre esteve lá, mas era impensável: esse trem acaba.
A ideia de zerar o odômetro passa pela cabeça de todo mundo e dá lugar às estratégias mais curiosas: das tecnologias estéticas ao enriquecimento e poder compensatórios, passando pela busca por parceiros mais jovens. Se você imaginou um idoso vítima de procedimentos estéticos desfigurantes, dirigindo um carro obscenamente caro, acompanhado de uma mulher 30 anos mais jovem, acertou. Mas existem exemplos oriundos de todas as classes, gêneros e orientações sexuais a nos lembrar que não é fácil envelhecer com dignidade e bom gosto.
Quando se vive isso a dois, o outro se torna o espelho que nos lembra dia riamente o que perdemos quando ganhamos anos de vida. A questão sobre cuidar e ser cuidado se torna urgente – a diferença de idade, salvo imprevistos, deixa claro para onde o peso recairá. Em geral, para as mulheres que, por viuvez ou abandono, tendem a acabar seus dias solitárias no amor e solidárias na amizade.
Adaptações vão sendo feitas a depender das circunstâncias e da índole dos casais. O sexo selvagem, que arrefece com a idade, pode dar lugar à ternura, por exemplo, ou à troca sumária de parceiro. Mas não há o que justifique seu fim: há inúmeras formas de receber e dar prazer nesse playground que é o corpo humano.
A relação baseada em conveniência pode descambar para o ódio mortal pelos anos perdidos. Nesses casos, o outro serve de eterna lembrança de nossa covardia diante do desejo, que, por comodismo, deixamos escapar. São aqueles casais que não se separam para não ter o desprazer de ver o outro se dar bem. Preferem se afundar abraçados, amantes da infelicidade compartilhada.
Diferenças no envelhecimento –idade, genética, hábitos, imprevistos– podem levar a impasses, nos quais uma pessoa ainda cheia de disposição divide a vida com alguém incapaz de acompanhá-la. Nessa hora, descobrimos se o que se espera do outro é a renúncia aos próprios sonhos e à satisfação, o que é uma contradição com a própria ideia de amar alguém.
Ao longo da vida, casais encaram diferentes desafios: a inconsequência juvenil; o dilema de ter ou não ter filhos; a busca do tempo perdido, quando cai a ficha de que (até nós!) vamos envelhecer; a questão da finitude.
Com a mesma ou com outra pessoa em cada fase, o amor de casal é uma forma de reconhecer, espelhado no olhar do outro, nosso acerto de contas com a vida e com seu fim.
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