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Por que usar pseudônimos para falar de anorexia e bulimia – 10/03/2026 – Não Tem Cabimento

by Silas Câmara

Em 2024, quando pleiteamos um espaço na Folha para falar sobre nossas experiências com anorexia e bulimia, o objetivo era dialogar sobre os dilemas que essas doenças psiquiátricas impõem. Com sorte, ainda poderíamos colaborar para desfazer um pouquinho o tabu que as envolve.

Foram anos de acompanhamento psicológico e psiquiátrico até entender que comportamentos naturalizados, da contagem de calorias à adoção de dietas restritivas, devem ser questionados. Os transtornos alimentares são multifatoriais, e pessoas predispostas a desenvolvê-los podem adoecer psiquiatricamente –como aconteceu com a gente.

No refeitório da Redação, gradualmente, esse assunto deixou de ser individual. Doses quase diárias de reflexões sobre nossas experiências –tão diferentes, mas tão parecidas– se tornaram um incentivo para chamar mais gente para essa conversa. E, a princípio, falar em voz alta para a sua amiga é bem menos assustador do que falar em voz alta para o leitorado de um dos maiores jornais do país. Felizmente, nossa então colega Suzana Petropouleas nos deu o empurrão que faltava para levar essas reflexões a mais gente.

Por isso, Ana Carolina e Joana emprestaram seus nomes para assinar os textos até aqui. Nos comentários, chegamos a ser confrontadas sobre nossas identidades. Afinal, por quê se esconder? Vocês chamam isso de coragem?

Vamos chamar, sim. Falar sobre saúde fora de uma perspectiva da indústria do bem-estar, que vende insatisfação e produtos para solucioná-la, é uma forma de dividir informação de qualidade. E todos já ouviram dizer que conhecimento é poder. Afinal, de dicas para emagrecer, formas de manter o peso, e os melhores exercícios para os objetivos x, y e z, a internet, revistas e jornais estão cheios.

Optar por uma vida brevemente secreta foi apenas uma forma de preservar a saúde mental de quem sabia que toparia com comentários agressivos no site da Folha e nas redes sociais. Talvez Ana Carolina e Joana pudessem aguentar, mas as repórteres Nayani e Rebeca não tinham certeza se era o momento para lidar com agressividades externas.

Ao contrário dos estereótipos, pessoas com transtornos alimentares lidam com doenças psiquiátricas diferentes, e também possuem corpos diversos. A imagem de uma menina magérrima em frente ao espelho (que já fomos) não nos representa (nem define os TA enquanto doenças), e nenhuma de nós “parece” doente. Porque doença não tem cara.

Nossos relatos deram lugar à reportagem porque entendemos a importância de continuar o debate, nomear experiências, descartar soluções milagrosas. Os diagnósticos não são definidores, mas ajudam a balizar decisões e pedir apoio a profissionais competentes. Se fomos (e seremos) alvo de ofensas por falar sobre doenças malcompreendidas, nos sentimos mais preparadas para associar nossos nomes ao assunto. Eis alguns dos comentários que recebemos:

“Como me vi no seu texto. Tenho 66 anos e minha luta pelos quilos a mais vem desde os sete. São cinco décadas evitando espelhos, tendo cuidado com o que vestir. É uma paranoia. Já tentei de tudo, só não tentei não tentar mais me aceitar. Mas como é difícil!”

“Muito obrigada por esse artigo , minha filha de 13 anos está gorda, e ainda estou procurando e aprendendo maneiras de ajudá-la […] Vocês me alertaram sobre um lado importante, que é a saúde mental”.

“Não esperava ler algo hoje que gritasse exatamente como me sinto há uns anos!”

E é isso que nos move.


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