Cotada para compor o palanque do presidente Lula (PT) em São Paulo, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, deve deixar a pasta em meio ao temor de que o ano eleitoral e a suspensão da moratória da soja aumentem o desmatamento.
É comum, apontam especialistas, observar o avanço do problema em anos eleitorais, quando setores do agronegócio, sobretudo aqueles ligados ao bolsonarismo, inflamam seu discurso em busca de votos. A própria Marina admite que esse é um ponto de atenção.
No caso da soja, a moratória é um compromisso firmado por empresas de não comprarem o produto de fazendas e lavouras com desmatamento. O acordo foi suspenso pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) em meados de 2025, posteriormente restabelecido em decisão da Justiça Federal e atualmente está no STF (Supremo Tribunal Federal).
Em meio aos trâmites, uma série de companhias já anunciou publicamente que deixará o tratado .
Marina é cotada para disputar o Senado por São Paulo ao lado da ministra do Planejamento, Simone Tebet (MDB). Ela descarta a possibilidade de concorrer a uma cadeira na Câmara dos Deputados.
No lugar da ministra do Meio Ambiente deve ficar o secretário-executivo da pasta, João Paulo Capobianco.
“A política ambiental e climática brasileira é uma política de Estado, liderada pelo presidente Lula e sustentada por diretrizes claras, metas públicas e ações interministeriais”, disse o órgão, em nota.
“Independentemente de eventual saída da ministra Marina Silva, o ministério, que possui quadro técnico altamente qualificado, seguirá plenamente comprometido com a execução dessa agenda, em continuidade ao processo de reconstrução institucional.”
Os ministros precisam deixar seus cargos até 4 de abril para poderem disputar as eleições de 2026.
Marina é cotada para disputar a eleição pelo PT, PSB, PSOL e PV, mas não descarta permanecer na Rede, sigla que ela fundou e que vive um racha interno.
As eleições para presidência do partido, em 2025, terminaram com vitória do grupo da deputada federal Heloísa Helena sobre o de Marina.
O pleito, porém, foi contestado. No fim de janeiro, a Justiça do Rio de Janeiro reconheceu irregularidades no processo e anulou seu resultado, em decisão favorável à ministra, que por isso ainda avalia a possibilidade de permanecer na sigla.
Ela tem dito que nada será definido sem conversar com Lula e que a prioridade é formar a melhor composição em São Paulo ao lado dos ministros Fernando Haddad (Fazenda), que deve disputar o governo, Tebet, Márcio França (Empreendedorismo) e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).
Márcio França já foi governador do estado e pode ser candidato ao cargo novamente, enquanto Alckmin já anunciou publicamente que deixará o Ministério da Indústria no início de abril —a interlocutores, ele afirma que apenas aceita concorrer como vice de Lula, descartando um cargo estadual.
O PSB iniciou as conversas para ter Marina desde a metade de 2025, projetando a corrida ao Senado.
“Temos muito respeito e admiração pela trajetória dela, é um dos maiores quadros do Brasil e o mundo a reconhece. Ela tem tamanho pra ser candidata ao que quiser”, disse a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), uma das interlocutoras dessa negociação.
O PT convidou Marina formalmente no início de janeiro, e membros do alto escalão do partido já dão sua chegada como certa, para compor a disputa pelo Senado.
Seu rompimento com a legenda, em 2009, se deu em meio ao debate para a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, da qual ela foi ferrenha opositora.
A distância com o PT aumentou durante as eleições de 2014, quando Marina concorreu à Presidência e foi duramente atacada pela campanha de Dilma Rousseff (PT).
A reaproximação com Lula foi um dos momentos mais simbólicos das eleições de 2022, quando o petista formou uma frente ampla contra o então presidente Jair Bolsonaro (PL), que acabou derrotado e hoje está preso por liderar uma tentativa de golpe de Estado.
No encontro que selou o reencontro entre os dois, Marina frisou que aquele era um movimento político e programático e que, do ponto de vista das relações pessoais, eles nunca se afastaram. Ela foi eleita deputada federal e depois reassumiu a pasta do Meio Ambiente.
Nos três anos de governo até aqui, Marina reestruturou a gestão ambiental, sucateada pelo governo Bolsonaro. A destruição da floresta despencou pela metade desde 2022 e, segundo a própria ministra, pode fechar o ano de 2026 com o menor índice da história.
O PPCDAM (Plano de Prevenção e Controle ao Desmatamento na Amazônia) foi reativado e a pasta criou estratégias análogas para todos os outros biomas do país. Em 2025, a destruição da floresta amazônica chegou ao terceiro menor patamar da história.
A pasta já planeja a sétima e nova fase do PPCDAM para o ciclo entre 2027 e 2030, apostando na continuidade da política ambiental —o que depende, em grande parte, justamente do resultado das eleições.
Após quatro anos de fortalecimento nas ações de combate ao desmatamento ilegal, a nova fase focaria incentivos econômicos e outros mecanismos para reduzir a degradação legal e autorizada, e incentivar pequenos produtores a preservar a floresta. A meta é zerar o desmatamento até 2030.