CRITICA | RJ
Adega Pérola
Cinco estrelas (ótimo)
R. Siqueira Campos, 138a, Copacabana. @adegaperola
Pelo que me lembre, a última vez que estive na Adega Pérola, em Copacabana, foi antes da pandemia. Lá se vão pelo menos seis anos e, ao entrar de novo naquele salão, na hora me perguntei: Por que fiquei tanto tempo sem voltar? Não sei dizer, não faz sentido.
Depois de algumas recentes experiências furadas em bares e restaurantes pretensiosos, hypados ou antiguinhos mas que se desvirtuaram e não seguraram a onda, revisitar a Adega me fez pensar como é bom —e importante— contar com um lugar como esse no Rio.
Pratos da Adega Pérola, botequim no Rio de Janeiro
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Cleo Guimarães/Folhapress
Onde mais encontrar um balcão refrigerado com mais de 60 opções de petiscos fresquíssimos, frutos do mar em sua maioria, servidos a granel em simpáticos pratinhos? A comprida vitrine traz tantas alternativas que o vídeo em que vou andando a passos largos para mostrar, numa tomada só, tudo o que está exposto, dura quase 40 segundos. É muita coisa.
Além de pratos mais óbvios, como o excelente vinagrete de polvo (100 gramas a R$ 52) e a sardinha à escabeche (R$ 12 cada), a Adega, um mix de bar de tapas espanhol e tasca portuguesa com acenos ao botequim carioca raiz, tem em seu enorme cardápio petiscos que não aparecem com frequência em outros estabelecimentos do Rio de Janeiro.

Fachada da Adega Pérola, botequim no Rio de Janeiro
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Cleo Guimarães/Folhapress
É o caso da rã à doré (R$ 46 cada uma), dos portuguesíssimos tremoços (100 gramas a R$ 30) e da linguiça ao vinho (R$ 40). No quesito “coisas que você não encontra em qualquer lugar”, destaque para o rollmops, sardinha marinada e enrolada com cebola (R$ 22 cada uma). O aperitivo tem raízes germânicas e a fama de ser um cura ressaca poderoso. Para acompanhar os pratos, cestinhas de pão francês fatiado são oferecidas a honestíssimos R$ 5.
Não que a Adega Pérola seja um lugar barato. De pratinho em pratinho, a conta vai se avolumando, sem que você se dê conta. Se a vontade for experimentar várias coisas ou combiná-las entre si (geralmente é o que acontece), o ideal mesmo é ir em grupo e pedir diferentes belisquetes, seguindo a lógica dos bares de tapas. O ambiente, simples, remete a um legítimo boteco espanhol, daqueles fora do roteiro turístico, frequentado por locais.

Entrega da Adega Pérola, botequim no Rio de Janeiro
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Cleo Guimarães/Folhapress
Mesas maiores podem ser compartilhadas e há outras do lado de fora, uma das poucas novidades na segunda encarnação da Adega, que foi fundada em 1957 e em 2010 estava prestes a fechar. O papo que rolou pela cidade era que seria vendida ao dono de uma rede de bares e restaurantes, famoso por manter em atividade points clássicos da gastronomia do Rio, padronizando-os e fazendo adaptações nem sempre bem-vindas. Habitués se desesperaram com essa possibilidade.
Foi aí que, para felicidade geral na nação dos amantes de botequim, três antigos frequentadores entraram em ação. Eles prometeram aos antigos proprietários que, caso o negócio fosse fechado, manteriam tudo exatamente como antes. Dito e feito.
No almoço nada mudou também. Por lá são servidos pratos tradicionais como o filé de linguado com molho de alcaparras, arroz de brócolis e salada (R$ 106 para dois) e lulas grelhadas com os mesmos acompanhamentos, a R$ 114. Bife com batatas fritas, filé de frango? Também tem. Mas na Adega Pérola os aperitivos são o prato principal, a joia da coroa.

Pratos da Adega Pérola, botequim no Rio de Janeiro
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Cleo Guimarães/Folhapress
Estamos falando de um bar que serve de tudo um pouco —bolinhos de bacalhau, atum defumado, ostras, pescadinha frita, cavaquinha, carne de siri, morcilla, coração de galinha, moela, ovos de codorna, queijos variados, carne de sol, batatinha calabresa, favas, jiló, alho ao azeite; a lista é extensa. Talvez seja mais fácil dizer o que não tem: doces. Ou melhor, só há uma opção —pastel de nata (R$ 14), que não provei, mas a julgar pelo conjunto da obra, deve ser bom.
A fartura de ofertas não se restringe às comidas. Só de cachaças são 28 opções, além de batidas de coco, maracujá e gengibre, vinhos populares a preços camaradas, chope (R$ 12) e uma vasta relação de cervejas.
Peculiaridade: a Adega Pérola não abre aos domingos e, apesar de sua vocação boêmia, fecha as portas razoavelmente cedo, à 1h. Nem tudo é perfeito.