Foi “vapt-vupt” fazer o check-in, deixar mala no hotel e atravessar a rua até Roma Termini. Tinha só um dia na cidade e queria saber quanto tempo levaria o trem até o aeroporto, onde deveria estar às 9h da manhã seguinte. Soube que o Leonardo Express chegava a Fiumicino em meia hora. Mas como haveria greve dos ferroviários, era prudente chegar bem cedo, porque o serviço mínimo seria logo cancelado. Porca miséria. Era preciso ir de metrô direto para o Palazzo Barberini.
Inaugurado em 1633, ele serviu de ringue para os dois grandes arquitetos do barroco, Francesco Borromini e Gian Lorenzo Bernini. O primeiro fez a escadaria oval, um sinuoso sonho em caracol. Seu contraponto é a escada quadrada de Bernini, do outro lado do Palazzo. Imponente e teatral, ela expressa o poder dos Barberini.
“O que os bárbaros não fizeram, fizeram os Barberini” é o dito tatuado na pele do clã de príncipes, militares e cardeais chefiado por Maffeo Barberini, eleito papa com o nome de Urbano 8º. Foi ele quem fez o que vândalos e visigodos não ousaram: derreter 90 toneladas de bronze do Panteão para Bernini erguer o baldaquino da Basílica de São Pedro.
O Palazzo abriga, desde o mês passado, a exposição “Bernini e os Barberini”, que investiga o mais fecundo consórcio entre arte, dinheiro e ideologia da história italiana.
Assim que coroado imperador da Igreja, em 1623, Urbano 8º disse a Bernini: “É enorme sua sorte de ter o cardeal Barberini como papa, mas muito maior é a sorte que Bernini viva no nosso pontificado”. Dito e feito: o florentino de 56 anos nomeou o napolitano de 24 mestre de obras de Roma. Sem a dupla, a cidade não se tornaria o apogeu do barroco.
O deslumbre da mostra é o busto de Costanza Piccolomini. De pedra ou metal, bustos ufanam potentados, mas não o da moça palpitante, olhos arregalados e cabelo em desalinho, a boca entreaberta de quem fala algo vital e a blusa que mais devassa que oculta o colo carnal —arte oferta à concupiscência de quem a olha. Para o historiador inglês Simon Schama, Costanza faz “o convite mais sexy da história da escultura europeia”. Touché!
Foi a única obra do artista que não foi encomendada. Esculpiu-a para seu deleite e da beldade que o siderava. Ela estava casada com Matteo Bonarelli, artesão na oficina de Bernini, quando do seu affair com o mestre. Ao contrário do seu nome, era inconstante, e boatos chegaram ao arquiteto. Ressabiado, ele espalhou que viajaria, mas ficou de tocaia numa carruagem, ao lado da casa dela.
Amanheceu, Costanza saiu seminua à porta e despediu-se com afagos de um guapo mancebo. Para suprema ira do escultor, o amante da amante era Luigi, seu irmão caçula. Quebrou-lhe duas costelas com um pé de cabra e mandou um capanga dar uma navalhada no rosto de Costanza, punição de praxe para mulheres que, dizia-se, “desonravam” machos.
A pedido da mãe dos Bernini, o papa deu um basta ao barraco. Baniu Luigi para Bolonha, prendeu Constanza por adultério e fornicação e fez Gian Lorenzo casar-se com a moça mais bonita de Roma, Catarina Tezio, com quem teve 11 filhos.
Sai-se do Palazzo Barberini, sobe-se a Via delle Quattro Fontane, vira-se na 20 Settembre e, em dez minutos, se chega à igreja de Santa Maria della Vittoria. Está ali “O Êxtase de Santa Teresa”, mármore que redimiu Bernini de uma dupla queda: a da torre que pelejava para pôr de pé na Basílica de São Pedro e a morte de seu mecenas, Urbano 8º.
Se o busto de Constanza é pré-coito, a estátua da freira de Ávila flagra o ato que os franceses chamam de pequena morte. Ela se baseia na autobiografia da carmelita Teresa, best-seller no século 17. Bernini faz com que ela levite quando um anjo aponta um dardo fálico para sua pelve. O tumulto das vestes da santa traduz o transe que lhe toma as entranhas, sobe ao rosto e a põe fora de si, no abandono do orgasmo.
A estátua solidifica o verso de “O Voo sobre as Igrejas” em que Drummond define o barroco: “esse tropel de desejos,/ essa ânsia de ir para o céu/ e pecar mais na terra”. Você a contempla sem ver o tempo passar, pensando que, no périplo do berço ao túmulo, o momento que Bernini mostra é um raio fugaz, inefável mesmo, mas às vezes justifica a vida.
Como é tempo de alcachofra, peço carciofi alla romana no Nino, na Via Borgognona. Daqui a pouco será preciso encarar a greve de trens e a longa volta à vida real, ao país em que, para continuar com Drummond, “as mãos tecem apenas o rude trabalho./ E o coração está seco”.
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