Da investigação clássica ao terror psicológico, a literatura japonesa de mistério vive um momento de descoberta no Brasil. Em meio ao crescimento do interesse por narrativas de suspense e noir vindas do Japão, editoras apostam tanto na recuperação de autores fundamentais do gênero ainda inéditos por aqui, quanto em nomes já publicados.
Independente do lugar onde é escrito, um livro de mistério costuma partir de uma estrutura conhecida: o crime, a investigação e a revelação de um culpado. A simplicidade desse esquema, porém, não torna o gênero previsível. O caminho que um autor percorre do crime até sua resolução registra o seu estilo e revela sua cultura.
Embora muitos livros cheguem aqui sendo comparados a Agatha Christie, são poucas as semelhanças entre os modos de narrar e desvendar mistérios. Enquanto a Rainha do Crime domina o “whodunit” (histórias que buscam responder “quem fez isso”), os japoneses se aproximam mais do que seria um “howdunit” (ou “como fez isso”).
No Ocidente, a década de 1920 marcou a consolidação da ficção policial com autores como Dorothy L. Sayers, Ellery Queen e os últimos trabalhos de Arthur Conan Doyle. No Japão, o desenvolvimento do gênero ocorreu de forma mais discreta, interrompido durante a Segunda Guerra Mundial, quando narrativas policiais foram consideradas inapropriadas.
Quem mudou esse cenário foi Tarō Hirai. Sob o pseudônimo de Edogawa Ranpo (nome que soa propositalmente como o do escritor Edgar Allan Poe ), ele introduziu o imaginário cultural japonês à lógica dedutiva ocidental e deu um novo rumo ao suspense no Japão.
“A partir daí, o policial japonês passa a assumir características próprias”, afirma Ana Paula Laux, jornalista especializada em suspense e mistério. Ranpo é tido como o primeiro autor moderno de mistérios no Japão e fundador da organização Mystery Writers of Japan (Escritores de Mistério do Japão).
O objetivo dessa sociedade, que no mês de junho completará 60 anos, é pesquisar e publicar literatura policial nacional e estrangeira.
Edogawa foi introduzido ao Brasil com “A Besta nas Sombras”, publicado pela HarperCollins. A narrativa metalinguística apresenta um autor preso em uma trama de mistério em que uma amiga é vítima e seu rival é o maior suspeito.
Na obra, ele divide os escritores policiais em dois tipos: “os ‘criminosos’, interessados apenas em crimes e que só se satisfazem ao discorrer acerca da psicologia brutal do criminoso mesmo quando escrevem romances policiais baseados em deduções; e os ‘detetivescos’, sempre de olhos voltados para as ações de um detetive racional e inteligente, indiferentes à psicologia do malfeitor”.
“Acho essa classificação bem interessante porque ela traduz a essência do gênero policial, uma tensão constante entre o olhar do detetive e a mente do criminoso”, afirma Laux. Segundo a jornalista, o legado de Edogawa se percebe principalmente na exploração do grotesco, da tensão psicológica e do lado obscuro da natureza humana.
Um autor que embarcou nas dimensões mais psicológicas propostas por Edogawa é Seichō Matsumoto, autor que chega ao Brasil pela Todavia. Seu “O Expresso de Tóquio” é um mistério contado de maneira incomum. A história acompanha um investigador que busca derrubar um álibi, mas sua obstinação logo se torna obsessão.
É também uma história intrinsecamente japonesa em que a pontualidade, pilar fundamental da cultura, sustenta uma trama em que horários de partidas e chegadas de trens guardam a resolução do mistério.
Outro que chega ao Brasil nessa mesma leva é Tokurō Nukui, que tem seu “Os Gritos” publicado pela Rocco. O livro noir acompanha a investigação de uma série de raptos e assassinatos de meninas.
“Acredito que as emoções humanas, a curiosidade e o desejo são universais. As diferenças nos contextos nacionais e culturais moldam a forma como essas qualidades se expressam e esse talvez seja um dos aspectos que os leitores estrangeiros consideram interessantes”, diz o autor, atual presidente do Mystery Writers of Japan.
Segundo Tokurō, a tradição da ficção de mistério gerou uma forte demanda por abordagens novas. Isso explica o apelo de trazer histórias inéditas para o Brasil.
Uketsu é mais um nome que chegou recentemente ao Brasil. Sob um pseudônimo, ele também comanda um canal no YouTube no qual não revela seu rosto e posta vídeos com significados ocultos. Por aqui foram publicados seus títulos “Casas Estranhas” e “Casas Estranhas 2”, pela Intrínseca, e “Imagens Estranhas”, pelo selo Suma, da Companhia das Letras —todos com tramas de mistério contadas por meio de desenhos e plantas arquitetônicas.
Diferente dos outros autores, que recorrem a uma escrita mais vaga e ambígua, Uketsu adota um estilo direto e literal, sem pudor ao descrever horrores. A avaliação é do tradutor de seus livros, Jeferson José Teixeira. “O japonês procura sempre evitar dizer as coisas diretamente”, explica, reafirmando a exceção.
Os livros que chegam ao Brasil exploram cenários tipicamente japoneses e privilegiam a investigação à construção dos personagens vítimas e suspeitos. Muitas vezes, as vítimas não têm seu passado narrado e os assassinos permanecem em silêncio. São obras que não poupam os leitores dos detalhes e abusam do noir.
Essas diferenças, no entanto, jogam a favor do gênero. A chegada de uma nova linguagem de mistério ao Brasil permite conhecer novos parâmetros para o gênero e abre as portas para a chegada de novos nomes, como Seishi Yokomizo, Akimitsu Takagi e Natsuo Kirino.