Nus, dois manequins, um sem braços e outro sem cabeça, parecem vigiar o ateliê povoado por desenhos de outras figuras masculinas, também sem roupas. Em cima da mesa, o rosto de mármore branco de uma mulher tem os olhos tapados por duas mãos escuras coladas à peça, num ato de censura.
O registro inédito do que restou do apartamento paulistano de Hudinilson Júnior, um dos nomes mais radicais da performance e da arte homoerótica do país, está numa série de novas fotografias de Mauro Restiffe, que desvendam o lar desse artista que pôs o próprio corpo na linha de frente de sua arte, muitas vezes entrelaçado com os descaminhos da metrópole.
Essas imagens, feitas no rastro da desmontagem do antigo lar do artista, sublinham a força de suas próprias obras numa das mostras mais ambiciosas da galeria Martins&Montero, em São Paulo. Ambição, no caso, em termos de escala e ousadia, já que nos jardins do espaço que a casa tem como sede num dos bairros mais nobres da cidade estarão instalados outdoors com nada menos do que uma visão da boca e outra do pênis do artista, imagens de suas famosas séries de fotocópias do próprio corpo.
No auge da chamada “body art” e movido pelas possibilidades de novas tecnologias, Hudinilson Júnior fez uma série de performances em que se debruçava e se esfregava nu sobre uma máquina de Xerox, criando imagens insuspeitadas do choque entre homem e máquina, ângulos tão obscenos quanto abstratos da anatomia masculina, num emaranhado de pelos e pele que chocou à época, não deveria chocar mais dada a carnificina desatada do mundo, mas ainda arrisca ser um tabu.
O artista, morto há pouco mais de uma década, sofreu censura em vida, ato esse que inspirou até uma versão de suas famosas fotocópias do corpo em que, sobre a imagem do pênis, ele aplicou um carimbo com os dizeres “pinto não pode” em letras maiuscúlas cor-de-rosa, subindo um degrau na provocação.
É na contramão dessa afirmação que Jaqueline Martins e Maria Montero, as galeristas por trás da mostra, operam agora, erguendo no coração dos Jardins, no jardim de seu casarão, um outdoor com uma imagem semelhante, sem nenhuma legenda censora, rompendo com a escala íntima do original para escancarar um detalhe do corpo numa vitrine aberta à escala urbana.
Não é provocação barata. Quem se lembrar da atuação de Hudinilson Júnior no coletivo 3NÓS3, parceria dele com os artistas Mario Ramiro e Rafael França, pioneiro da videoarte e um dos grandes artistas queer do país, não deve estranhar o que significa questionar a vitalidade do corpo em praça pública, ou melhor, denunciar violações contra o corpo público e político diante de olhares que atravessam a arena.
Na virada da década de 1970 para a de 1980, já nos estertores da ditadura militar mas ainda longe do fim da censura que persistiu como zumbi rondando a arte do país mesmo depois de sepultado o regime, eles encapuzavam com sacos plásticos uma série de estátuas em praças da cidade. Eram atos clandestinos, feitos na madrugada, sem autoria declarada, embora os próprios artistas depois denunciassem os flagras de vandalismo, como testemunhas anônimas, à polícia e à imprensa.
Vigiar e punir, censurar e castrar, eram valores em choque com a liberdade irreverente, irrefreável e avassaladora no coração das obras de Hudinilson Júnior, figura do underground maldito paulistano valorizado pelo mercado só depois de morto como um dos grandes inovadores da nossa performance, uma obra em atrito e diálogo com o melhor da performance de sua época pelo mundo.
Tanto que, no exterior, sua obra continua galgando espaços. O Museu de Arte Contemporânea de Barcelona e o Walker Art Center, em Minneapolis, nos Estados Unidos, acabam de comprar alguns de seus trabalhos. Hudinilson Júnior também já estava no acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, do Reina Sofía, em Madri, do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, além do Masp, da Pinacoteca do Estado de São Paulo e do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, este último, aliás, o lugar onde ele começou seus experimentos com as máquinas fotocopiadoras.
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