“Eu tenho 27 anos”, diz Elsa nas páginas iniciais do impressionante “As Vozes da Noite”, em um parágrafo de uma única linha que, isolado e contido, se transforma quase em uma melancólica profecia: um enigma (um futuro é provável, afinal) que não faz questão nenhuma de ser misterioso e logo se revela bem desolador. Ela é a protagonista e narradora do romance de Natalia Ginzburg que chega ao Brasil mais de meio século depois de sua publicação na Itália, em 1961.
Elsa também nos conta no mesmo trecho que, para a sua mãe, a “amargura mais pungente” é que ela ainda não se casou, desastre apenas atenuado pelo fato de outras duas mulheres da região (o norte da Itália, um Piamonte nunca nomeado) serem um pouco mais velhas e também seguirem solteiras.
Toda a trama do romance se passa em seu vilarejo e arredores. Circulam pela história os pais de Elsa, uma tia e umas poucas famílias, especialmente a do velho Bolota, dono da fábrica de tecidos que movimenta a economia local. É com um dos filhos dele, o mais novo, Tommasino, que ela tem uma relação que poderia ser duradoura e amorosa, mas uma espécie de anestesia difusa generalizada é mais forte que os sentimentos de ambos.
O relacionamento não termina por acaso. A solidão é a regra do pequeno mundo visto e descrito por Elsa, em um tom distante, frio e às vezes inesperadamente cômico. É um lugar preenchido por personagens menores, presos numa teia inabalável de fofocas, maledicências e desencontros.
Uma das forças do texto é que ele justifica e não justifica ao mesmo tempo essa rotina esquálida pelo fato de muitos dos eventos que ele retrata, do ponto de vista histórico, ocorrerem após os horrores da Segunda Guerra Mundial (com o imenso envolvimento da Itália fascista de Mussolini). O enredo oscila entre esse presente e os anos imediatamente anteriores ao conflito.
Ainda que esse mundo desfigurado seja incorporado ali, isso acontece mais porque acabamos (re)aprendendo, durante a leitura, a escutar os ecos de um estrondo de que ninguém poderia escapar, do que pela enunciação direta de lances traumáticos. O cotidiano minúsculo de sua existência e de quem está próximo é a matéria possível e suficiente de Elsa.
E com isso, em uma construção narrativa em inúmeras passagens quase teatral, repleta de falas anunciadas por variações de conjugação do verbo dizer, Ginzburg não deixa de rememorar a tragédia concreta, mas dá muito mais ênfase às violências sutis que o convívio naturaliza, aos danos de informações distorcidas que se propagam como verdades ou à fragilidade de estigmas que definem pessoas irremediavelmente.
São fenômenos que se desprendem de tempos específicos e das denominações que assumem em momentos diferentes, que se reproduzem e se espalham com facilidade. O livro de 1961 nos atinge com força em 2026.
Se é ruim que a obra chegue por aqui só agora, é preciso dizer que a edição caprichada compensa em parte o atraso ao incluir um prefácio de Italo Calvino e um posfácio da própria escritora, além da tradução cuidadosa de Iara Machado Pinheiro, especialista na autora, sobre quem recentemente defendeu uma tese de doutorado.
Publicado originalmente em 1964, o ensaio de Ginzburg apresentava uma reunião da parte inicial de sua obra e nele a escritora lembra como, desde criança, era acompanhada “de manhã até de noite” por “interlocutores invisíveis, aos quais submetia e destinava” dentro dela não só o “desejo de escrever como também cada pensamento, cada gesto e cada hábito”.
Ao falar do último livro daquele volume, “As Vozes da Noite”, ela diz que ali o “inventar jorrava da memória, e a memória estava tão resoluta e feliz que se libertava sem esforço daquilo que não se assemelhava a ela”.
Já o texto de Calvino é uma transcrição do discurso lido para apresentar o romance ao principal prêmio literário de seu país, o Strega, em 1961.
Cito um trechinho em que ele comenta, com outras palavras, esse mesmo tipo de invenção que jorra da memória: “A literatura começa no ponto em que ultrapassamos o ódio e o amor pela espécie humana. Começa quando não nos importa mais nada registrar o ‘costume’, quando a vulgaridade cotidiana não nos atinge mais e escutamos somente a música que flui no fundo, sob todas as palavras e todos os gestos”.