Em 1960, quando Jerry Lewis terminou “Mensageiro Trapalhão”, seu primeiro trabalho como diretor, ouviu de um chefão da Paramount que o filme não seria distribuído porque aquilo não fazia o menor sentido. Jerry ouviu, refletiu e bolou um prólogo, no qual explicava ao espectador, em poucas palavras, que ele ia ver um filme que não fazia o menor sentido.
O resultado é que, com sua sucessão de gags “sem sentido”, a comédia estourou na bilheteria. Naquela ocasião, Jerry Lewis, cujo centenário é lembrado nesta segunda (16), deixava de ser o garoto agitado que nunca crescia para se tornar um dos cineastas experimentais mais ousados e bem-sucedidos de Hollywood.
Estava na hora. Tinha 34 anos e, desde 1946, fazia o papel do palhaço na histórica dupla com o cantor e ator Dean Martin. Uma parceria que passou para o cinema em 1949 e durou até 1956. A dupla funcionava bem —Martin, o cantor bonitão e tranquilo; Jerry, o cômico das cambalhotas e caretas.
Como os dois eram astros em partes iguais, não é de estranhar que a tensão entre eles tenha crescido, até que tiveram de ir cada qual para um lado. Isso foi em 1956. Eles haviam feito certamente os dois melhores filmes da parceria —”Artistas e Modelos”, de 1955, e “Ou Vai ou Racha”, de 1956. Nesses últimos trabalhos, entrava na vida de Jerry aquele que foi o seu melhor diretor, fora ele mesmo —Frank Tashlin.
Antes de dirigir humanos, Tashlin já era conhecido como “gag man” e depois roteirista e diretor de filmes de animação. Trabalhou sobretudo na Warner, com Pernalonga, entre outros. Conhecia o burlesco o bastante para entender o humor de Lewis, que, embora popular entre as crianças, estava longe de ser reconhecido pelo público adulto.
A briga com Dean Martin duraria pelo menos 20 anos, de maneira que Lewis começou de imediato sua carreira solo com “O Delinquente Delicado”, em que foi roteirista, junto com o diretor Don McGuire. Tashlin assumiria os negócios em “Bancando a Ama-Seca”, de 1958. Ali, Tashlin foi roteirista ao lado de Preston Sturges, diretor e roteirista de comédias clássicas dos anos 1940. Este, aliás, seria o último trabalho assinado por Sturges, que morreria em 1959 de um ataque cardíaco.
O filme deu início à fase mais fértil do comediante, que, não à toa, tinha Tashlin na conta de seu mentor. Nesse momento, Lewis não assina seus roteiros, mas é óbvio que interferia neles. Mais tarde, ele contaria que, durante as filmagens, não parava quieto em seu canto. Aproveitava cada minuto para perguntar a cada membro da equipe o que ele fazia e como fazia.
Assim, preparou-se para dirigir “Mensageiro Trapalhão” e tornar-se, enfim, o ator-roteirista, diretor e, não raro, produtor. Enfim, um legítimo sucessor da linhagem de Charlie Chaplin e Buster Keaton —um cineasta completo.
Nessa altura, porém, Lewis já era um homem sério. Discutia com o estúdio para obter sua liberdade criativa e, embora delegasse a Tashlin a realização de alguns de seus melhores filmes —”Bancando a Ama-Seca”, “Cinderelo Sem Sapato”, “Errado pra Cachorro”, “O Bagunceiro Arrumadinho”—, o ponto central de sua obra, o trabalho autoral, caberia a ele mesmo fazer.
Ali ele se afirmaria pela capacidade de compor planos de arrojo formal raro —tal como aquele em que abre o campo pouco a pouco, até mostrar os vários andares da pensão para moças de “O Terror das Mulheres”, de 1961, onde foi trabalhar o pobre Herbert H. Heebert, o rapaz traumatizado por mulheres desde que a namorada da faculdade o abandonou. Ali, Jerry Lewis já desenvolve a ideia de deixar a estrutura dramática —ou cômica— solta o bastante para que o humor possa fluir livremente.
Se “Mocinho Encrenqueiro”, de 1961, ilustra alguns grandes momentos da mímica do comediante e deixa bem clara sua habilidade em aproximar a mímica dos efeitos sonoros, “O Professor Aloprado”, de 1963, não só foi o maior sucesso dessa fase como o filme em que Lewis desdobra-se em mais de um personagem.
Nessa paródia de “O Médico e o Monstro”, ele será o professor Julius Kelp, feioso e desajeitado, que inventa a fórmula capaz de transformá-lo no belo, chique e cantor Buddy Love. Claro que se pode ver em Buddy Love um “ersatz” do ex-amigo Dean Martin, mas isso é secundário perto da dupla atuação, em que o ator aparece exemplar falando, gesticulando ou até cantando. E, sobretudo, tirando de uma trama conhecida, efeitos de humor sempre originais e inesperados.
Em “A Família Fuleira”, de 1965, ele leva ao paroxismo o gosto de se desdobrar em vários personagens. Aqui serão nada menos do que sete. O ano de 1965 também é de um acidente que marcaria a carreira do cineasta. Ele já havia sofrido um ataque cardíaco em 1960.
Agora, no show que fazia em um hotel de Las Vegas, enquanto dava uma de suas cambalhotas famosas, caiu de um piano e disso resultou um dano na espinha dorsal que o obrigaria a tomar Percolan, opiáceo capaz de livrá-lo das dores intensas que sentia. Daí surgiu um vício nesse medicamento que se estenderia até a década seguinte.
Pode-se pensar se desse problema não resultou a pouca inspiração de seus filmes seguintes. Sabe-se que o humor quase sempre tem data de validade um tanto limitada, porém não é menos verdade que desse período emerge a fama de mau-humorado do cineasta.
Houve mesmo quem dissesse que, na vida real, ele se parecia muito mais com Jerry Langdorf, seu sempre irritado personagem em “O Rei da Comédia”, de 1982, de Martin Scorsese, do que com o Jerry Lewis de seus próprios filmes.
Pode ser. A atriz Bette Midler disse dele que era “uma alma complexa”. É verdade que, em 1964, perguntado sobre seus projetos futuros, disse que eram muitos simples: “Quero passar o resto da minha vida fazendo filmes para divertir as pessoas”. Simples mesmo.
A complexidade, porém, existia. E se manifestou plenamente em um filme que permaneceu inédito: “O Dia em que o Palhaço Chorou”, de 1982. Um filme, no mais, incompleto, mas que diz muito sobre o próprio Lewis, judeu de nascimento e cujo sobrenome original era Levitch.
Ali ele interpreta um palhaço alemão que, durante o Holocausto, tem a missão de levar crianças judias para as câmaras de gás. Segundo o crítico Jean-Michel Frodon, uma das raras pessoas a ver o filme e —ainda mais raras— a gostar, considerou-o “ousado em relação ao tema”. Mas, sobretudo, o dilacerante filme talvez trouxesse uma indagação sobre o que significa fazer rir?
À parte a angústia que esse filme explicita, a verdade é que Jerry Lewis nunca passou de um “entertainer” para a maior parte do público dos Estados Unidos. Como quase sempre, é preciso fazer uma visita à França para encontrar esse reconhecimento. De nomes como Jean-Luc Godard, por exemplo.
O crítico André Labarthe, dos Cahiers du Cinéma, nota que, desde 1960, Lewis sabia “chamar a si todos os recursos técnicos que doravante tem à sua disposição: cor, trucagens, movimentos de câmera”. Já seu mais apaixonado e atento exegeta, Robert Benayoun, da revista Positif, chama a atenção para o ritmo e a construção das sequências ao longo dos filmes —entre outras coisas.
Ou seja, o fato de fazer comédias nunca o tornou menos exigente em relação ao trabalho, ao contrário. Sabia como ninguém, desde Keaton e Chaplin —ou Jacques Tati—, a importância do ajuste da montagem, de dar lugar ao improviso sem perder na estrutura, de dominar a técnica para realizar o humor que imaginou.
É certo que, nos anos 1980, seu trabalho mais bem-sucedido foi a própria negação do humor, na pessoa do Jerry Langsdorf de “O Rei da Comédia”. É verdade que “As Loucuras de Jerry Lewis”, de 1983, tem lá seus momentos, mas fica longe de seus melhores trabalhos.
Dali até sua morte, em 2017, aos 91 anos, suas aparições foram quase sempre em shows, programas de TV, especiais. Não é tão pouco para quem sofria de problemas cardíacos pesados, de dores cervicais, de diabetes e fibrose pulmonar. Sua posteridade por vezes é tão complexa quanto foram sua saúde ou sua obra.
O mais grave —o fato de ter deserdado os seis filhos do seu casamento de 36 anos com a atriz Patti Palmer. Segundo a revista People, o texto do documento em que modifica o testamento diz: “Tenho intenção de excluir Gary Lewis, Ronald Lewis, Anthony Joseph Lewis, Christopher Joseph Lewis, Scott Anthony Lewis e Joseph Christopher Lewis e seus herdeiros considerados beneficiários das minhas propriedades. É minha intenção que eles não recebam nenhum dos benefícios indicados”.
Lewis designou apenas sua segunda mulher, SanDee Pitnick como herdeira de seus bens. Com ela, Lewis adotou a filha Danielle Sarah Lewis.