Contas falsas que se passavam por Sasha-Jay Davies acumularam 81 mil seguidores no TikTok e 22 mil no Instagram
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Sempre que alguém encara Sasha-Jay Davies, 19, em um supermercado, ela entra em pânico, pensando que reconheceram o seu rosto e estão prestes a confrontá-la.
Há quase quatro anos, ela é acusada de dar esperanças a homens, marcar encontros e não aparecer, além de ser assediada por completos desconhecidos.
Isso acontece porque fotografias de Davies foram roubadas de suas contas nas redes sociais e usadas por alguém para construir relacionamentos com homens e amizades com outras mulheres.
O caso está sob investigação da South Wales Police, do sul do País de Gales.
Para Yair Cohen, advogado especializado em segurança online, pessoas que praticam catfish (criar identidade falsa na internet, em tradução livre) dessa forma frequentemente são motivadas por “baixa autoestima” e pelo prazer do poder que isso lhes dá.
“Já aconteceu de rapazes vierem falar comigo pessoalmente, me assediando e me acusando de mandar mensagens para eles, de dar esperanças ou de marcar encontros com base em conversas que eu nunca tive”, disse Davies.
“Eu costumava sair muito, mas agora quase nunca saio porque tenho medo de qual homem vai me abordar em seguida. É realmente difícil e eu não desejaria isso nem ao meu pior inimigo.”
Até agora, os homens que a abordaram foram educados, mas ela se preocupa com o que pode acontecer e acrescenta: “É assustador ser confrontada por algo que você não fez e perceber que alguém está usando o seu rosto para manipular outras pessoas.”
A pessoa que se passava por ela mudou repetidamente o nome de usuário da conta falsa no Instagram, que acumulou mais de 20 mil seguidores antes de ser encerrada pela plataforma
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Davies, de Aberdare, no País de Gales, afirma que cerca de 20 homens e várias mulheres já entraram em contato com ela nas redes sociais acreditando que a conhecem.
O que é ainda mais perturbador, porém, é que não foram roubadas apenas as suas fotos.
Houve publicações cruéis relacionadas ao seu falecido pai, incluindo um certificado falso de câncer pancreático, e também foram republicadas ofensas racistas que afetaram seu “caráter e reputação”.
Fotos de outros corpos femininos com biotipo semelhante à de Davies também foram publicadas, atraindo comentários de homens que a fizeram se sentir “muito desconfortável” e “violada”.
“O nível de cálculo e maldade por trás disso é algo que tenho dificuldade de entender”, disse. “Eles sabem absolutamente tudo sobre mim.”
O que é catfishing?
Catfishing é quando alguém cria uma identidade falsa na internet com a intenção de enganar outras pessoas.
Isso pode acontecer por diversos motivos, como extorquir dinheiro, iniciar um relacionamento amoroso ou simplesmente por satisfação própria.
Quem pratica catfishing frequentemente usa fotografias roubadas, mente sobre a própria vida e evita situações como chamadas de vídeo, nas quais poderia ser descoberto.
Veja os vídeos que estão em alta no g1
A primeira vez que Davies percebeu a existência de uma conta falsa foi em 2022, quando ela tinha 16 anos e havia acabado de começar a faculdade após terminar a escola.
Ela conta que descobriu que alguém estava usando suas fotografias na rede social TikTok.
Como o perfil era público e os conteúdos eram publicados diariamente, a conta rapidamente ganhou seguidores.
Davies denunciou o caso à polícia, mas foi informada de que pouco poderia ser feito.
“Pensei algo como: ‘bem, espero que a pessoa simplesmente se canse e passe a fazer isso com outra pessoa'”, disse.
No entanto, logo depois as fotografias começaram a aparecer em aplicativos de namoro e no Instagram, e contas falsas chegaram a ser criadas usando imagens roubadas de amigas dela, para “fazer tudo parecer mais convincente”.
Apesar de ter tornado as suas próprias contas privadas há 18 meses, Davies afirmou que a pessoa que roubou sua identidade continuou usando fotos antigas e imagens editadas com inteligência artificial.
Mark conversou com Sophie Kadare sobre seus músicos favoritos e ficou chocado ao descobrir que se tratava de um perfil falso
Mark
As fotografias foram usadas em contas com o nome de Sophie Kadare.
Uma das pessoas enganadas foi Mark (nome fictício), 22, de Essex. Em dezembro, ele começou a trocar mensagens com “Sophie” no Instagram depois de ver seus vídeos no TikTok.
“Ela disse que era torcedora do Liverpool, então pensei em segui-la”, disse Mark.
Durante cerca de um mês, eles trocaram mensagens e conversaram sobre assuntos como futebol, o dia a dia e viagens. Então, ao navegar pelo TikTok, Mark encontrou um vídeo na conta verdadeira de Davies sobre o namorado dela.
“Fiquei um pouco chocado no início”, disse. “Nunca tinha passado por isso antes.”
Devido à falta de ação das redes sociais e da polícia, Sasha-Jay Davies que teve de fazer sua própria investigação
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Mark avisou Davies, mas quando ele confrontou “Sophie”, ela o bloqueou. “Acho que ela estava falando comigo por atenção”, disse.
Davies se pergunta se alguém que ela conhece está por trás disso.
Ela afirma que denunciou repetidamente as contas nas redes sociais, mas diz que a pessoa que se passa por ela bloqueia seus amigos e familiares para impedir que façam o mesmo.
O fato de as contas falsas terem acumulado 81 mil seguidores no TikTok e 22 mil no Instagram também dificultou a situação.
“Como eles têm mais seguidores do que eu, parecem ser a pessoa real”, disse.
A polícia inicialmente disse que nada poderia ser feito, mas depois que Davies fez uma publicação recentemente sobre suas experiências no Facebook, recebeu um número de ocorrência e o caso passou a ser investigado.
Ela descreveu sentir medo, ansiedade e constrangimento.
“Acho que, no começo, isso não me incomodava tanto, mas também não era tão grande quanto é agora. Essa conta literalmente tomou conta de toda a minha vida”, acrescentou Davies.
“Todo mundo acha que eu sou essa pessoa, a Sophie — eu não posso ser eu mesma. Ver alguém usar minha identidade e minha imagem como arma teve um enorme impacto emocional.”
‘Catfishing’ é crime no Reino Unido?
Se passar por outra pessoa na internet e praticar catfishing são um problema significativo de segurança online, segundo Hayley Laskey, do UK Safer Internet Centre — um centro britânico dedicado a tentar tornar a internet um lugar mais seguro.
Ela destacou casos como perfis gerados por inteligência artificial (IA) e imagens falsas usadas em golpes românticos e de chantagem sexual online.
Cerca de 5% dos casos relatados à linha de ajuda para conteúdos nocivos do centro em 2024 e 2025 envolveram contas falsas que se passavam por outras pessoas.
Laskey afirmou que o catfishing em si nem sempre é ilegal no Reino Unido, mas comportamentos relacionados podem violar leis como o Fraud Act 2006, se alguém usar uma identidade falsa para obter dinheiro ou presentes, ou causar danos financeiros ou à reputação.
Da mesma forma, fingir ser outra pessoa na internet também pode ser ilegal se causar prejuízo, danos à reputação ou perdas financeiras para essa pessoa, acrescentou.
Pelo Ato de Segurança Online de 2023, as plataformas devem agir se se passar por outra pessoa levar a comportamentos ilegais, como ameaças ou fraude.
Laskey aconselhou as vítimas a primeiro denunciar a conta usando as ferramentas da própria plataforma e aguardar cerca de 48 horas antes de encaminhar o caso para a linha de ajuda do centro.
Mas, segundo ela, o ponto central é “prevenção e educação”, incluindo limitar as informações pessoais online, usar senhas fortes e autenticação em dois fatores, além de ter cautela antes de enviar dinheiro ou imagens pessoais.
Kirat Assi foi vítima de catfishing por quase nove anos por alguém que se passava por Bobby, um cardiologista atraente; ela relatou sua experiência em um documentário da Netflix
Netflix
Yair Cohen, um dos primeiros advogados especializados em internet do Reino Unido, representou Kirat Assi em seu histórico processo civil de 2020 contra a pessoa que a enganou com catfishing, posteriormente retratado no documentário da Netflix Sweet Bobby: O Meu Pesadelo de Catfish.
Cohen afirmou que quem pratica catfishing muitas vezes conhece as vítimas e que muitos apreciam “a confiança que é depositada neles” criada pela identidade falsa.
“Eles tendem a desfrutar desse poder que têm sobre as vítimas, ambos os tipos de vítimas — a pessoa [cujas fotografias] estão sendo roubadas e as pessoas que estão sendo enganadas usando a identidade falsa”, explicou.
“Eles não precisam confrontar nada, não precisam ser eles mesmos. Estão literalmente pegando emprestada a identidade de outra pessoa e usando isso para melhorar a sua própria autoimagem e, às vezes, a imagem que têm diante dos outros.”
Uma vez que o engano começa, acrescentou Cohen, os responsáveis frequentemente acham “muito, muito difícil” parar.
“Eles precisam continuar com o jogo até o final amargo, e é por isso que quase sempre conseguimos identificá-los, porque continuarão cometendo esse erro repetidas vezes até serem pegos”, disse. “Não há saída para eles.”
Sobre a experiência de Davies, Cohen disse que deveria haver “pouca dificuldade em caracterizar ao menos um crime de assédio”, observando que a conduta “claramente tem a intenção de causar nela alarme e sofrimento”.
A polícia local de Davies afirmou: “A polícia do País de Gales investiga um caso de roubo de identidade na área de Mountain Ash. A vítima está sendo mantida informada durante a investigação.”
O Instagram informou que removeu a conta falsa da plataforma.
O TikTok se recusou a comentar o caso específico, mas afirmou que suas diretrizes proíbem contas que se passam por outra pessoa e spam, assim como conteúdos que “violam os direitos de propriedade intelectual de outra pessoa”.
Desde que a BBC entrou em contato com o TikTok, a conta falsa foi removida.
Davies compartilha a sua história na esperança de obter respostas e alertar as pessoas sobre os perigos das redes sociais
Reprodução/TV Globo
Enquanto isso, Davies disse que está compartilhando sua história na esperança de obter respostas e também quer que as pessoas sejam ainda mais cautelosas quando estiverem online.
“Eu sempre pensei: ‘isso nunca vai acontecer comigo’, e agora aconteceu comigo”, disse.
“As redes sociais são poderosas, mas ainda não existem proteções suficientes para proteger as pessoas de contas falsas de longo prazo e ataques direcionados como esse.”
Ela quer que as plataformas de redes sociais introduzam verificação de identidade para as contas e acrescenta: “Um perfil falso pode parecer inofensivo para alguns, mas pode destruir reputações, relacionamentos e a saúde mental.”
Davies está incentivando as pessoas a “ter cuidado com quem interage online”, pedindo aos usuários que mantenham os perfis privados, verifiquem as contas com atenção, denunciem perfis falsos imediatamente e protejam informações pessoais.
“E, mais importante, entendam que o que acontece online não fica online, isso transborda para a vida real de maneiras que podem ser profundamente prejudiciais”, disse.
“Ninguém deveria ter que lutar para recuperar a própria identidade ou se sentir inseguro porque outra pessoa está escondida atrás de uma tela.”
O Departamento de Ciência, Inovação e Tecnologia do governo do Reino Unido afirmou que todos os provedores de redes sociais deveriam proteger os usuários.
“Fingir ser outra pessoa ou praticar catfishing na internet é uma forma horrível de abuso que pode ter consequências angustiantes para as vítimas, tanto online quanto offline”, disse um porta-voz.
“Segundo o Ato de Segurança Online, todos os serviços abrangidos pela lei, incluindo plataformas de redes sociais, precisam proteger os usuários de conteúdos ilegais e comportamentos criminosos, incluindo delitos relacionados a comunicações falsas.”
A polícia do Reino Unido alerta para golpes românticos, dizendo que criminosos geralmente fazem um grande esforço para ganhar confiança e convencer seus alvos de que estão em um relacionamento genuíno. Eles usam a linguagem para manipular, persuadir e explorar para que os pedidos de dinheiro não soem alarmes.
Para evitar cair em um golpe de catfishing:
Faça muitas perguntas. Não confie simplesmente nas informações fornecidas no perfil online de alguém
Use a internet como uma ferramenta para buscar informações em outros lugares e as contas de mídia social da pessoa com quem você está conversando
Fale com amigos e familiares. Ouça outras pessoas sobre se o perfil com quem você conversa parece genuíno
Converse dentro do site de namoro. Evite fornecer seu número pessoal ou e-mail antes de realmente conhecer alguém
Nunca dê dinheiro. Se alguém pedir dinheiro em um site de namoro, não envie
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'Minha identidade foi roubada e usada para enganar homens na internet'
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