Brasileiro “O Agente Secreto“, que concorria em quatro categorias, não levou nenhuma estatueta na maior premiação de cinema de Hollywood. A 98ª cerimônia de premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, realizada neste domingo (15/03), coroou “Uma Batalha Após a Outra” como o grande vencedor da noite.
Dirigida por Paul Thomas Anderson, a saga americana multigeracional sobre resistência política levou seis Oscars: melhor filme, direção, roteiro adaptado, montagem, ator coadjuvante (Sean Penn) e seleção de elenco.
O filme conta uma história de um grupo rebelde que luta contra um governo autoritário que detém imigrantes – num paralelo inevitável com os Estados Unidos de Donald Trump.
“Escrevi este filme para meus filhos, para pedir desculpas pela bagunça doméstica que deixamos neste mundo, que estamos entregando a eles”, disse o diretor Paul Thomas Anderson ao receber o prêmio de melhor roteiro. “Mas também com o incentivo de que eles serão a geração que, espero, nos trará um pouco de bom senso e decência.”
Terror negro
Elogiado pela crítica, “Pecadores”, filme de época estrelando um elenco de vampiros negros nos Estados Unidos da era segregacionista, foi o segundo destaque desta edição do Oscar, com quatro estatuetas.
Michael B. Jordan desbancou Timothée Chalamet como melhor ator, e Ryan Coogler levou o prêmio de melhor roteiro original.
Pecadores também consagrou Autumn Durald Arkapaw como melhor fotografia, e rendeu a Ludwig Goransson o prêmio de melhor trilha sonora.
Quem mais brilhou
“Frankenstein”, do diretor e roteirista mexicano Guillermo del Toro, ficou com três das nove estatuetas a que foi indicado: melhor figurino, maquiagem e design de produção.
Outro destaque da noite foi Jessie Buckley, premiada como melhor atriz por seu papel em “Hamnet”.
Um momento memorável da noite hollywoodiana foi a primeira apresentação musical em um Oscar, numa quase recriação de uma cena de “Pecadores”.
Wagner Moura como apresentador
Indicado a melhor ator por sua interpretação de um ex-professor universitário ameaçado de morte no filme “O Agente Secreto”, Wagner Moura participou da cerimônia do Oscar como apresentador da inédita categoria de melhor elenco.
Discursando em inglês, Moura enalteceu o trabalho de Gabriel Domingues, que escalou o elenco de “O Agente Secreto”, e encerrou sua fala com um “parabéns” em português. “O Agente Secreto se passa no Brasil do fim dos anos 1970. Gabriel Domingues teve que preencher o filme com pessoas que tinham o rosto que parecia pertencem àquela época. Gabriel, você conseguiu”, disse.
Torcida dos brasileiros não comoveu Hollywood
Acompanhada com entusiasmo pelo Brasil, que concorria ao Oscar em cinco categorias, a premiação terminou sem nenhuma estatueta para o cinema nacional – para decepção de uma plateia animada que acompanhou o evento desde o Cinema São Luiz, em Recife.
O local foi cenário de “O Agente Secreto”, do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, que concorria nas categorias melhor filme, melhor filme estrangeiro, melhor ator e melhor seleção de elenco.
Também não teve prêmio para o brasileiro Adolpho Veloso, que disputava na categoria melhor fotografia por seu trabalho em “Sonhos de Trem”. A estatueta ficou com Arkapaw (“Pecadores”), primeira mulher a vencer o prêmio.
Um raro empate
Neste ano, o prêmio de melhor curta-metragem foi dividido entre duas obras: “Os Cantores”, da Netflix, sobre uma competição de canto que toma conta de um bar; e o distópico “Two People Exchanging Saliva” (“Duas pessoas trocando saliva”, em tradução livre), onde pessoas vivem sob restrições de contato físico.
O empate é um acontecimento raro, algo só visto outras seis vezes em 98 edições da premiação de Hollywood.
“Não à guerra e Palestina livre”
O pronunciamento mais explícito contra a guerra veio do ator espanhol Javier Bardem. Ao anunciar o prêmio de melhor filme estrangeiro, ele declarou: “Não à guerra e liberdade para a Palestina“. Bardem, conhecido por defender os direitos do povo palestino, também usava um broche com a palavra “Palestina” e a figura de Handala – símbolo tradicional da identidade e resistência palestinas – além de um emblema apregoado ao paletó onde se lia “não à guerra”.
Diversas celebridades ostentaram broches e símbolos indicando suas posições políticas, entre eles os que diziam “Fora ICE”, numa crítica às políticas de repressão de imigrantes nos EUA. Outros artistas exibiram o símbolo do grupo Artists4Ceasefire, em apoio ao apelo por um cessar-fogo imediato e permanente em Gaza, além de ajuda humanitária aos civis e a libertação de todos os reféns.
Fora do Dolby Theater, local da cerimônia, uma frase de protesto contra a política migratória de Trump foi projetada num edifício próximo dali: “ICE fora de Los Angeles”, uma referência à agência federal que tem aterrorizado imigrantes e perseguido até mesmo cidadãos americanos.
Provocações a Trump
Antes da noite do Oscar, o apresentador Conan O’Brien havia dado a entender que evitaria temas políticos, afirmando em entrevista que a cerimônia deveria celebrar o cinema e seu talento, mantendo o humor “sem cair na raiva ou na política”.
No entanto, ao abrir o evento, ele avisou que “as coisas poderiam ficar políticas”. Em tom de brincadeira, disse que havia uma “cerimônia alternativa” ao Oscar apresentada por Kid Rock ali perto – uma referência à programação paralela de orientação conservadora produzida durante o Super Bowl em protesto à apresentação do porto-riquenho Bad Bunny, que desagradou Trump.
Também sem citar nomes, O’Brien ironizou Trump e o fato de ele ter colocado seu nome no Kennedy Center. Ele brincou dizendo que a cerimônia do Oscar estava sendo realizada no “Teatro Ele Tem um Pênis Pequeno”, referência ao Dolby Theatre, e completou: “Quero ver ele colocar o nome dele na frente disso!”