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Fabiane Secches narra a experiência de viver estrangeira – 16/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

“Ilhas Suspensas”, romance de estreia de Fabiane Secches, é uma história sobre o deslocamento. Publicado pela Companhia das Letras, o livro acompanha Mariana, uma pesquisadora que deixa seu país e passa o primeiro ano no que parece ser uma cidade europeia, embora o livro nunca deixe explícito o local onde ela está.

No enredo, o deslocamento opera em dois sentidos. Há o movimento geográfico da migração e, por consequência, uma noção subjetiva de estar fora de lugar. A personagem muda de país ao mesmo tempo em que tenta se encontrar nesse novo cenário. A história tem início com Mariana já está no novo endereço. O que se acompanha a partir de então é o movimento da protagonista como uma pessoa fora do lugar que busca se adaptar à nova vida.

A autora, que hoje vive na Espanha e antes morou na Alemanha, começou a escrever “Ilhas Suspensas” antes de emigrar. Ainda que sua experiência pessoal não esteja na origem do romance, ela atravessa o texto. Com isso, Secches rejeita a classificação de seu livro como autoficção. “Eu me interesso muito por invenção, por fabulação, e tem muita coisa puramente inventada”, afirma a escritora.

Embora ela compartilhe com sua personagem a condição de mulher imigrante, Secches destaca como diferença fundamental o luto que vive sua personagem. Mariana atravessa o romance marcada pela morte da mãe, perda que Secches nunca viveu.

Pesquisadora e crítica literária, Secches costura no texto a trajetória de sua protagonista e trechos ensaísticos, em que as referências literárias e cinematográficas são instrumentos de caracterização da personagem e experiências dela.

A filósofa e zoóloga Donna Haraway é uma das vozes mais evocadas ao longo do romance. Mariana é bióloga, e a narrativa destaca sua relação com o cachorro Quincas, que a acompanha e a seu marido na mudança de país.

Curiosamente, Quincas é um dos raros personagens nomeados no livro além da protagonista. Se no filme clássico “Bonequinha de Luxo” o gato sem nome simboliza a recusa de pertencimento, no livro de Secches, Quincas é apresentado como um eixo de reconhecimento para a protagonista. Mais do que companhia, o cachorro encarna a condição de lar.

Em um mundo marcado hoje pelo deslocamento forçado de refugiados e pela perseguição a imigrantes nos Estados Unidos, o romance dialoga, de forma sutil, com uma questão política urgente. Ao longo da história, Mariana conhece outros imigrantes e percebe que, embora compartilhem a condição de estrangeiros, não partem do mesmo ponto. Enquanto seu poder de escolha é claro, as razões que levaram outras personagens a se mudarem ficam apenas sugeridas.

Em uma das cenas, ao se apresentar à faxineira imigrante de uma amiga também imigrante, Mariana reconhece que as três compartilham da mesma condição, apesar da desigualdade que as separa: “uma está lá para sujar e a outra para limpar”.

“Desde a primeira versão já havia uma personagem imigrante. Esse é um tema que me comove”, admite a autora. Autocrítica confessa, Secches demorou a publicar ficção e levou cinco anos para escrever “Ilhas Suspensas”. “É difícil, tendo estudado grandes livros, achar que o seu tem algo a oferecer ao mundo.”

O livro é estruturado em três partes, nomeadas como começo, meio e começo. Assim, recusa a ideia de resolução plena. “Eu vejo a vida assim, com começos importantes, meios que são vivências relacionadas a esses começos, e depois um outro começo, que não chamo de recomeço.”

A última parte coincide com um certo apaziguamento da protagonista com sua condição de deslocada. Não se trata de encontrar definitivamente o seu lugar, como aponta Secches, mas de aceitar o “não lugar”.

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