Paolo Sorrentino sempre foi conhecido por um cinema de características muito facilmente reconhecíveis. Filmes como “A Grande Beleza”, de 2013, o tornaram famoso por uma estética afeita a rebuscamentos visuais e personagens excêntricos. Mas seu mais novo longa, “A Graça”, mostra que o italiano talvez esteja disposto a seguir novos caminhos formais.
Muito comedido que de hábito, Sorrentino mostra no longa as hesitações de um presidente (fictício) da Itália já na reta final de seu mandato. Que tem ainda algumas decisões importantes a tomar, mas que gasta a maior parte do seu tempo tentando avaliar seu governo e seu potencial legado, fazendo um balanço concomitante sobre sua trajetória de um modo geral, enquanto ser humano.
“Tenho feito filmes cada vez mais pessoais, nos quais me envolvo mais emocionalmente. Estou mais conectado com a narrativa das histórias”, disse Sorrentino, quando apresentou o longa no Festival de Veneza, em agosto passado.
“Não sei o que explica isso. Talvez seja um pouco pela idade. Comecei a fazer filmes porque gostava muito de cinema, então os primeiros trabalhos que fiz refletiam um pouco da filmografia que eu tanto amava. Mas aí, conforme envelheço, assisto a menos filmes, creio que amo menos o cinema e fico mais ligado a algumas questões às quais, quando mais jovens, não damos tanta importância.”
Em sua sétima colaboração com seu ator-fetiche, Toni Servillo, possibilitou ao amigo o prêmio de melhor atuação masculina em Veneza. Ele interpreta Mariano De Santis, o presidente prestes a se aposentar, conhecido pela sua firmeza de opiniões. No fim de seu mandato, surgem dois casos de praticantes de eutanásia que solicitam perdão presidencial (a “graça” do título). Apesar de muito católico e de não ser a princípio a favor de uma pessoa poder antecipar a morte de outra, De Santis se sente impelido a analisar com cautela as duas situações.
O filme não chega a ser uma ode à eutanásia, mas mostra que nenhum ser humano precisa seguir os mesmos princípios morais do início ao fim da vida; é sempre legítimo e enriquecedor se abrir a novas ideias e formas de pensar.
“De Santis faz um gesto muito bonito, na minha opinião. Ele leva em consideração o que as novas gerações dizem sobre a fragilidade humana, que também é a minha posição em relação especificamente à eutanásia”, diz o cineasta. “Para mim, a grande diferença entre a minha geração e a dos meus filhos é como lidamos com a fragilidade. Fomos educados para considerar a fragilidade como algo que deve ser vencido, com força. Mas é possível lidar com isso de forma menos rígida.”
As hesitações do presidente o tornam um personagem com muito mais maleabilidade do que grande parte dos políticos que estão no poder mundo afora. Nesse aspecto, De Santis se mostra um líder diferenciado, que Sorrentino fez questão de criar como contraponto ao que vemos nos gabinetes presidenciais de hoje em dia.
“A representação desse presidente precisava corresponder à ideia de política que, na minha opinião, deveria prevalecer nas esferas mais poderosas do mundo, mas que infelizmente não é o caso. Ou, pelo menos, é algo que está se tornando cada vez mais raro. Trata-se de uma figura que acredita que a política é quase uma vocação religiosa. Algo a ser sempre respeitado: as decisões devem ser ponderadas, tomadas com base na dúvida, não na certeza”, diz Sorrentino, que acha que o excesso de convicções dos políticos de hoje é, de certo modo, um espelho do comportamento parecido da população nas redes sociais. “É como diz o Alcorão: só quem não estudou nada é que tem certezas.”
De Santis é um personagem até certo ponto idealizado, mas que Sorrentino buscou conceber a partir de características de diversos líderes da Itália moderna, como se fosse um amálgama. “Fui inspirado por um raio de luz que atravessou todos os presidentes da República Italiana nos últimos 30 anos. Todos foram muito responsáveis e atuantes. E em geral muito cautelosos, movidos pela dúvida”, diz.
Mas De Santis não é uma figura 100% exemplar ou perfeita. Demonstra, por exemplo, um ciúme doentio ainda hoje não superado da mulher, há décadas já morta, que teria cometido adultério no passado. E tem problemas para se relacionar com a filha. É um personagem cheio de nuances tragicômicas, que Sorrentino diz terem brotado naturalmente – o que viria de sua afinidade com a “commedia all’italiana”, o tipo de cinema vivaz e humorístico que fala das imperfeições humanas com mordacidade e certa ternura, eternizado na obra de cineastas como Vittorio De Sica, Mario Monicelli e Dino Risi.
“Por ser italiano, cresci com toda uma geração de cineastas, diretores e roteiristas que foram influenciados por esse cinema, que sempre foi muito prodigioso em dosar o drama, a ironia, a melancolia e a estupidez de uma forma muito sábia. Eles combinavam esses elementos nos personagens. Talvez tenha sido com eles que aprendi a dosar esses tons.”