Personagens pitorescos podem derrubar regimes. O fim do Primeiro Reinado teve a mãozinha da amante do rei. Getúlio caiu em 1954 por conta de crimes e trapalhadas do chefe da guarda pessoal. A crise se estendeu até 1964. Veio a ditadura.
A Nova República caminhou no fio do bisturi por conta de um erro médico em 1985. Se receitassem antibióticos a Tancredo Neves, ele não morria. Lula não foi eleito em 1989 provavelmente por conta de uma ex-namorada, mãe de Lurian. Collor caiu em 1992 por conta do irmão e um Fiat Elba.
Agora, a democracia pode se liquefazer se rolar a delação premiada do ex-apresentador de um programa de música gospel, que conseguiu uma licença para operar um banco, ficou bilionário com consignados do INSS e uma rede de degustadores de uísque, charuto e garotas de programa.
Daniel Vorcaro é um cordeiro com vínculo à igreja Lagoinha, que não é um bucólico templo cercado por um gramado e um laguinho, mas um império com megatemplos, filiais no exterior e uma rede de rádio e TV, a Rede Super.
Tudo é superlativo nela, cujas filiais lembram academias de ginástica. Mas nem tudo na vida é festa, diria Antonio Palocci, o todo poderoso ex-ministro da Fazenda, que caiu por conta de um caseiro.
A profecia da música “Viva la Vida” (Coldplay), que seria tocada ao vivo no seu casamento, se concretizou: “Eu costumava governar o mundo, mares se erguiam quando eu mandava, mas agora eu durmo sozinho”. Vorcaro dorme hoje numa cela de dois metros por três.
A notícia de que ele reclamou que sentia falta da amada Martha Graeff, a quem chamava de “momolada”, não passou despercebida e quase humanizou o criminoso.
Por um lado, o vazamento de fotos e conversas íntimas causou repúdio. Mas desenhou a conta-gotas o modus operandi de como corromper uma República, de “b”, “c”, “s”, “t”, “f”.
Chegaram a dizer que a influencer gaúcha não tem compaixão. Ganhou mimos, milhões e rompeu o noivado mesmo depois da festa em Roma com Ben Harper, acrobatas, flores e velas, ao estilo da franquia “Succession”, filmada por drones com “Lose Control” (Teddy Swims), que traduzi como:
“Alguma coisa me pegou recentemente, não me conheço mais, sinto que o cerco está se fechando, e o diabo bate à minha porta”.
Um internauta criou a playlist “Vorcaro – Amor Master”, que começa com o extraordinário “I Fall in Love to Easily”, de Chet Baker, um arrasa-coração cujo refrão entrega tudo:
“Meu coração devia estar calejado, porque já fui enganado outra vez, mesmo assim, me apaixono muito fácil, me apaixono rápido demais”.
A lista segue com “Quero ir pra Bahia com Você” (Julio Secchin) —que na verdade deveria ser “Quero ir pra Trancoso com Você”, o novo point faria-limer—, “Apenas Mais uma de Amor” (do último romântico, Lulu Santos), passando por “Let’s Stay Together” (Seal).
Onde está o compromisso “prometo estar contigo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-te, respeitando-te e sendo-te fiel…”? Depende.
Quando Vorcaro apareceu com o cabelo raspado, Havaianas pretas, camiseta branca e calça laranja, sem brilho nos olhos, nos dentes e principalmente nos cabelos, antes penteados para trás, era um presidiário como outro qualquer.
Seguíamos seus passos, algemado, até o avião da PF, enquanto Martha seguia decidida para o lado oposto; apagou as referências e fotos do noivo, para distanciá-la o mais rapidamente possível do canalha que as mensagens revelavam, da mansão que iriam compartilhar e do escândalo Master.
A verdade sobre o macho alfa foi um baque. O mineirinho tinha no celular o contato de loiras que recebiam a mesma mensagem de “bom dia”, seguida de emoji de sol e coração, que Martha recebia. Era como uma lista de transmissão do prazer.
Quando ela descobriu que ele tinha contatos de profissionais do sexo, ele se saiu com esta: “Tenho nojo do tipo de trabalho que essas mulheres fazem”. Contou que conhecia mais de cem profissionais, que já deu festas com 300, mas que nunca ficou com essas mulheres, de quem sente nojo.
Para quem?
Martha pensou rápido: o cara gastou milhões na contratação de assessores, advogados, sicários, gente do quilate de ex-ministro do STF, ex-ministro da Dilma, enrolou a PGR, trocou mensagens com Xandão, fez negócios com Toffoli e funcionários do Banco Central.
Tinha na agenda contatos da direita, centrão, presidente e dois ex-presidentes da Câmara, engabelou fundos de pensão até do estado do presidente do Senado, mas não foi capaz de contratar um assessor para assuntos nada ecumênicos? Tratava pessoalmente com hosts das surubas republicanas?
Basta cantar o clássico de Domenico Modugno “Ciao, ciao bambina…” para a relação e, talvez, para a democracia.
A tese antissistêmica vai contaminar a eleição, o debate político e nossos pesadelos. Desta vez, é um playboy esbanjador que pode derrubar o regime atual? “Mamma mia!”