Home » Nobel Wole Soyinka desafia a ficção ocidental do indivíduo – 20/03/2026 – Ilustrada

Nobel Wole Soyinka desafia a ficção ocidental do indivíduo – 20/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

“O verdadeiro medo não expresso é: esse protagonista sobreviverá ao confronto com forças que existem dentro da área perigosa de transformação?”

Essa pergunta de Wole Soyinka, vencedor do Nobel de Literatura, nasce de suas reflexões sobre a dramaturgia e os contornos do teatro ritual nigeriano.

Peço licença para retirá-la de seu contexto, pois partirei dela para chegar a “Crônicas da Terra das Pessoas Mais Felizes do Mundo”, seu mais recente romance, cujo núcleo ético-estético segue a reflexão constante sobre os sentidos do humano que esse grande autor africano tem consolidado em suas obras.

São sentidos compostos em sintonia com o que é articulado em comunidade e no que se assenta em sistemas cosmogônicos, e, portanto, diverso dos valores ocidentais que construíram o “eu”, o “sujeito”, o “indivíduo” como separabilidade intrínseca e autônoma —o “eu” não integrado aos outros, à natureza, ao cosmos.

No território do drama, Soyinka busca conexões entre o eu, a comunidade e o cosmos através dos mitos e da ritualística nigeriana. Sem se deixar enganar pela ficção ocidental do indivíduo, ele reflete no teatro o sujeito como parte integrada: espaço de articulação entre múltiplas forças (cosmogônicas, naturais, comunitárias).

Por isso, “entrar nesse microcosmo envolve uma perda de individuação, uma auto submersão na essência universal”. “É um ato realizado em nome da comunidade, e o bem-estar do protagonista é inseparável do da comunidade total.”

Dentro da história da construção do “eu” no Ocidente, o romance demarca seu lugar, já que sua origem histórica enquanto forma costuma ser atrelada a uma fase específica do desenvolvimento do sujeito —o indivíduo burguês pós-iluminista vivendo a órbita de suas instituições e valores.

Mas como esse protagonista sobrevive ao confronto com forças que existem dentro da área perigosa de transformação? E quando essa transformação implica em rever a própria envergadura do que nominamos humano?

“Crônicas da Terra” acompanha o roteiro de quatro amigos em seu retorno à Nigéria após concluírem suas formações acadêmicas no estrangeiro, nutrindo sonhos de transformação das frágeis estruturas nacionais.

O enredo estabelece uma intertextualidade com o primeiro romance de Soyinka, “Os Intérpretes”, construído a partir do encontro de cinco amigos e suas expectativas em relação à nação. Essa divisão em quatro focos narrativos fratura sem alarde o centro único que forja o herói do romance no Ocidente, seja ele problemático, em formação ou em crise.

Mas a grande personagem do romance talvez seja a própria Nigéria, inscrita na ficção como matéria cotidiana de uma sociedade complexa em seus pequenos e grandes abismos. O próprio mundo social no qual os atores são forjados protagoniza a tal área perigosa da transformação.

E como nós, leitores e leitoras, coabitamos de alguma forma o mundo dos romances que lemos, é como se a narrativa também nos questionasse, nós, igualmente, sujeitos de um globo que se despedaça em colapsos ambientais e sociais: o que restou de nossos devires? Como operar as bases rituais que sustentam as fibras sutis do todo?

Por meio da ironia (que já começa no título) e da sátira, o autor navega por problemas que abrangem desde dilemas éticos a decisões políticas, incluindo na trama o tratamento de um tema difícil: o tráfico internacional de órgãos humanos, descoberto por um cirurgião que se depara com um esquema de venda de partes de corpos no hospital em que trabalha.

Corpos sem vida destituídos de qualquer unicidade, integridade e da própria fisicalidade que lhes tornava corpo, separados em partes e transformados em lucro —metáfora arrojada para pensar plasticamente a fratura de um mundo que se despedaça, para referir a obra de Chinua Achebe, outro autor fundamental da literatura nigeriana.

Talvez o verdadeiro medo não expresso assuma em cada leitor e leitora uma centelha de risco próprio, mas a literatura é sempre uma forma de se arriscar ainda mais no mistério. Wole Soyinka é mestre dos mestres.

Autor Original

You may also like

Leave a Comment