Home » Lollapalooza ganha um novo fôlego com ajuda de divas pop – 22/03/2026 – Ilustrada

Lollapalooza ganha um novo fôlego com ajuda de divas pop – 22/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Durante o principal show de sábado do Lollapalooza no Brasil, festival que aconteceu neste fim de semana, em São Paulo, a cantora Chappell Roan comentou sobre o que via de cima do palco —centenas de leques de cores e estampas diferentes acompanhavam o ritmo das batidas e faziam as vezes das palmas a cada fim de música cantada por ela.

“Quando a Lady Gaga tocou no Rio, eu vi vocês com os leques. E eu pensei ‘uau, será que algum dia eu vou ver isso também’? E aqui estamos nós”, disse, rindo. A cena não foi uma exclusividade do show da americana, embora tenha sido o ápice do uso desse objeto que, nas mãos dos brasileiros, acabou virando instrumento musical.

Este foi o ano do “lequepalooza”. A quantidade de leques por metro quadrado no Autódromo de Interlagos não foi um acaso —acompanhou uma aposta certeira do evento em escalar cantoras pop que estão em ótimos momentos das carreiras exatamente agora, caso da própria Chappell Roan.

Se o “Gagacabana” lembrado pela cantora foi exemplar na curadoria de seus dois primeiros anos, ao escalar Lady Gaga e Madonna e atrair uma base de fãs comprometida, engajada e igualmente cheia de leques aos shows, o Lollapalooza pareceu buscar na iniciativa carioca inspiração para retomar o fôlego de um festival que enfrentou críticas nas últimas edições.

Isso se traduziu numa sexta liderada por Sabrina Carpenter com ingressos esgotados, um fim de sábado memorável com Chappell Roan e um domingo marcado por shows de Addison Rae e Lorde, divas pop de mundos diferentes, mas que surfam na mesma onda de álbuns recentes bem-sucedidos. Mesmo quando olhamos para além do pop, a presença de nomes como Doechii, Tyler, The Creator e Katseye foram apostas mais certeiras na música contemporânea.

Tudo aponta para uma curadoria mais ajustada aos desejos dos fãs de música, algo no qual o evento pareceu patinar nos últimos anos. Agora, o Lollapalooza voltou a arriscar mais que outros festivais grandes, mas ainda não ousa muito na maior parte do tempo, variando em atrações balizadas pelo Grammy e o algoritmo do TikTok.

Se o leitor quiser brincar de adivinhar quais serão as atrações do Lollapalooza do ano que vem, são altas as chances de que a resposta esteja na categoria de artista revelação do prêmio. Foi assim com Sabrina Carpenter, Chappell Roan, Doechii, Rae e Katseye, neste ano, e com Billie Eilish, Olivia Rodrigo, Benson Boone, The Marías, Doja Cat, Rosalía e Lil Nas X em edições anteriores.

É claro que nem tudo que vem do TikTok é passageiro, assim como nem tudo que vem do Grammy é sinônimo de qualidade —e os artistas que frequentam esses espaços muitas vezes se misturaram nos últimos anos. Na verdade, as duas fontes de inspiração da curadoria só revelam que há certa restrição de imaginação de onde buscar nomes, em especial aqueles que preencham o miolo do line-up.

O Lollapalooza também tem olhado para a rede social chinesa para escolher artistas com mais bagagem. Foi o caso do Deftones que, mesmo com quase 40 anos de carreira, recentemente virou a banda de metal favorita da geração Z e fez um show afiado para fãs antigos e novos na sexta.

Se o grupo atuou como um elo entre os artistas alternativos mais experientes —filão em que o Lollapalooza sempre apostou— e os mais jovens, em alguns momentos essa conexão ficou perdida. Foi o caso no show do Cypress Hill, ícone do rap americano na década de 1990, que fez uma apresentação animada para uma plateia pequena no sábado. O quarteto tocou no mesmo dia de Chappell Roan, Lewis Capaldi e Marina, nomes pop que não dialogam com seu som.

É interessante que o Lollapalooza não abandone nenhum desses filões, que estruturam sua identidade, mas fica a impressão de que eles podem dialogar melhor. Um dos artistas que fazem essa conexão é Tyler, The Creator, um dos mais inventivos nomes do rap da última década, que foi headliner do domingo. Figura excêntrica, dono de uma música que varia entre a esquisitice e a candura, ele tem um apelo pop e alternativo que é a cara do festival, e não à toa funcionou muito bem no line-up.

Foi também o caso do Turnstile, banda que produz hardcore para os novos tempos. Sua escalação mostrou não só que o rock pode voltar a ocupar esses espaços como também ser essa ponte estética para as sonoridades mais consagradas. Isso se a escolha das atrações não apelar para a vertente radiofônica mais formulaica do gênero ou se render a quem faz um mero “revival” do estilo.

O Lollapalooza também reafirmou neste ano sua estrutura consagrada —mais para o bem do que para o mal. A lama, que deu as caras no Autódromo após a chuva da quinta-feira, parece um problema insolúvel, ainda que o sol e o bom tempo do fim de semana tenham limitado seu impacto.

A disposição dos palcos segue a mesma, uma geografia já reconhecida pelo público e que funciona melhor que na concorrência. Alguns banheiros e bares mudaram de lugar, mas isso não chegou a gerar grandes alterações na experiência do festival.

O que causou reclamações foi a saída do autódromo, com relatos de superlotação e demora para conseguir acessar o transporte público. Por outro lado, neste ano o Lollapalooza estreou o trem expresso, serviço que conecta estações estratégicas da cidade a um ponto próximo ao festival.

O que funcionou razoavelmente bem foi o sistema de som, que comportou a maioria das apresentações. Isso é algo de essencial para que o público consiga se conectar com a música emanada do palco, e que nem sempre é uma constante nos megafestivais.

Isso aconteceu mesmo em apresentações abarrotadas como a de Chappell Roan. Um dos pontos altos desta edição, a artista parece ter sido a solução perfeita para renovar os ares do festival e trazer de volta o que sua identidade tem de melhor. Ela é sim atual e bastante popular, mas carrega alguma dose de esquisitice —ingrediente que faz de uma atração ter a cara do Lollapalooza, que nasceu para contemplar alternativos.

Autor Original

You may also like

Leave a Comment