“E se isso te faz sentir vivo, então fico feliz em poder proporcionar isso”, cantou o vocalista Brendan Yates, aos gritos, em “Blackout”, a penúltima música do show do Turnstile no Lollapalooza Brasil. A banda americana de Baltimore fez uma apresentação para deixar energizados os fãs na noite deste domingo (21), o último dia da edição deste ano do festival, que aconteceu no Autódromo de Interlagos, em São Paulo.
Dona de um hardcore ao mesmo tempo barulhento, suingado e confessional, o Turnstile encontrou uma plateia tão acesa quanto a própria música da banda. Bastou o primeiro vislumbre do quinteto para que a plateia acendesse os sinalizadores. Mais uns minutos e começaram a pipocar várias rodas de bate-cabeça.
Começando com a música “Never Enough”, o Turnstile não contou com estrutura pomposa. O telão exibiu luzes no estilo technicolor e um globo de luz, com poucas variações. O som é que deixou a desejar —quem não estava próximo das caixas não conseguiu absorver todo o peso sonoro dos americanos.
Desde que tocou no Brasil pela primeira —e última— vez, há quatro anos, o Turnstile só cresceu. Além de uma apresentação memorável no Cine Joia, casa de shows de São Paulo que comporta menos de 1.000 pessoas, a banda foi atração de uma sexta-feira, no começo da tarde, no Lollapalooza daquele ano.
Não tinha tanta gente para ver a banda naquela ocasião. Agora, o grupo retornou ao megafestival em dia e hora muito mais favoráveis —às 19h de um domingo, numa noite encabeçada pelo rapper Tyler the Creator e pela cantora pop Lorde, que tocaram logo depois do quinteto americano.
Em 2022, o Turnstile colhia os louros do álbum “Glow On”, de 2021, com o qual se destacou para além da cena underground de hardcore, punk e rock pesado dos Estados Unidos. Nesse meio tempo, lançou o disco “Never Enough”, que esteticamente é uma continuação do anterior, mas agora com ainda mais reconhecimento, incluindo dois prêmios no último Grammy, nas categorias melhor álbum de rock e melhor performance de metal —esta para a música “Birds”.
O repertório do show deste domingo foi todo orientado por esses últimos dois discos, terceiro e quarto da discografia do Turnstile, com destaque maior para o mais recente. Houve somente uma exceção —a música “Real Thing”, do segundo álbum do grupo, “Time & Space”, de 2018. Ainda que tenha vindo com uma entrega energética no palco do Lollapalooza, a canção soou como apenas um rascunho da estética que o quinteto viria a desenvolver nos últimos anos.
Isso porque o Turnstile criou um jeito heterodoxo de compor hardcore. As músicas são feitas para fazer o público pular e suar, mas o quinteto tem uma abordagem própria do estilo, incluindo em suas canções momentos dançantes, refrões melódicos de pegada pop, passagens etéreas guiadas por teclados atmosféricos e até batidas da música eletrônica de pista.
Nessa abordagem, há espaço para letras sentimentais que dispensam demonstrações gratuitas de autoconfiança e não hesitam em falar de medos e incertezas. Foi assim em “I Care”, tocada na primeira leva de músicas do show. A balada pop rock serviu para esfriar os ânimos de uma plateia já em polvorosa, com harmonias de teclado e uma letra em que o personagem principal se mostra feliz em mudar e se entregar por alguém com quem se importa, ainda que em troca tenha o coração partido por essa pessoa.
Esses sentimentos de amor por vezes vieram com alguma violência. Logo na segunda performance da apresentação no Lollapalooza, o vocalista Brendan Yates cantou aos berros o refrão fofo da música “TLC” —abreviação de “Turnstile Love Connection”, ou conexão amorosa do Turnstile. “Quero te agradecer por me deixar ser eu mesmo”, ele gritou a letra da música, após uma avalanche de guitarras distorcidas e bateria tocada na velocidade da luz. Uma espécie de surra de amor.
Mas a grande força do Turnstile no palco do festival esteve na capacidade de fazer mexer os corpos do público. Foi assim em “Seein’ Stars”, de andamento arrastado e levada dançante, guiada por uma guitarra cintilante, em “Don’t Play”, que é tão violenta quanto groovada, num balanço roqueiro irresistível, e principalmente nas mais pesadas do repertório.
Nessas horas, o Turnstile se exibiu mestre em criar dinâmicas —às vezes numa mesma música. É algo que a banda deve tanto aos diversos riffs distribuídos pelos guitarristas Pat McCrory e Meg Mills quanto ao vasto cardápio rítmico do baterista Daniel Fang, que foi de uma levada a outra num piscar de olhos. A formação da banda também inclui o baixista Franz Lyons.
Ao longo das performances, o Turnstile fez paradas estratégicas tanto para os fãs pudessem respirar quanto para facilitar a aberturas das rodas. Houve gente em pé no ombro de outros, pessoas carregadas, camisetas e bandeiras da banda levantadas ao ar. Não precisava estar tão perto do palco para ver as pessoas esbaforidas entre um pulo e outro ao longo do show.
Mais que isso, o Turnstile mostrou no Lollapalooza que consegue fazer um hardcore sintonizado com o espírito do tempo atual. Prova disso foram os rostos jovens na plateia, que desta vez estava apinhada no palco Budweiser, o maior do festival. Se não era tão grande, a quantidade de público não deixou a desejar em relação aos artistas pop que passaram pelo mesmo espaço e horário nos dias anteriores do evento.
Essa plateia cantou em coro quando o grupo puxou “Mystery”, abrindo uma sequência final matadora que também teve também “Blackout” e “Birds”, no apogeu do show. O resultado foram copos de cerveja jogados ao alto, mosh pits, gente suada e de alma lavada. É de se imaginar como o cenário poderia ficar mais intenso caso o som estivesse mais potente. Hardcore como sempre, mas fazendo sentido hoje.