Marina Lima é avessa a entrevistas. Durante boa parte do ano passado, o repórter tentou sem sucesso entrevistá-la. À época, a ideia era recontar a trajetória da artista por ocasião de seus 70 anos, comemorados no dia 17 de setembro. Uma data para a conversa foi definida em maio, mas ela desmarcou por questões pessoais. Em setembro, uma nova data e um novo cancelamento. Desta vez em razão dos ensaios de “Ópera Grunkie”, disco que chega às plataformas digitais nesta terça-feira (24).
A postura esquiva é própria de uma cantora que já foi definida por críticos musicais como a esfinge cool e suingante da música brasileira. A exemplo da criatura mitológica, a artista parece inatingível e impenetrável. Um enigma tão fascinante quanto difícil de decifrar. Agora, porém, Marina está prestes a se revelar. “Vocês querem que eu tire os óculos escuros?”, diz ela, ao chegar na casa de seu empresário, na zona oeste de São Paulo.
Após um membro da equipe assentir, ela tira o objeto e deixa à mostra olhos de um preto tão intenso que lembram duas pedras de azeviche. O assessor aproveita e pede que ela tire também a jaqueta de camurça que está jogada preguiçosamente sobre seus ombros. “Não, não. Eu gosto de usar a jaqueta desse jeito”, diz ela, de forma polida, mas firme.
Foi com essa mesma assertividade que Marina construiu uma das mais luminosas carreiras da música brasileira. Ela entrou no mercado fonográfico em 1978, quando se tornou a primeira artista mulher contratada pela Warner Music Brasil. Foi sob esse selo que ela concebeu “Simples como Fogo”, disco de estreia lançado em 1979.
Marina, porém, não se demorou na gravadora. Decidiu deixá-la depois que um produtor tentou controlar o modo como ela deveria se vestir.
Em razão desse comportamento resoluto, ela ganhou a pecha de difícil, voluntariosa e até mesmo brigona. “Eu não brigava. Eu tomava o meu rumo. As pessoas ficam putas, mas o que eu posso fazer?”, diz ela. “Eu quero achar a minha maneira de ser. Não quero me enquadrar no que acham que vai dar certo.”
Recusar fórmulas prontas se mostrou uma decisão acertada. Com sua voz rouca, quase sussurrante, ela entoou clássicos que ajudaram a definir os rumos do pop no Brasil, como “Virgem”, “Fullgás”, “À Francesa” e “Pra Começar”. São canções que tocaram à exaustão em rádios, embalaram novelas e se fixaram à memória afetiva do público.
Apesar dos sucessos, Marina não quer repetir o que já deu certo. No lugar das bundinhas de fora de “Uma Noite e Meia” ou da solidão com vista para o mar de “Não Sei Dançar”, o que ouvimos em seu novo disco são versos que tematizam a dor e o luto.
É isso o que se faz sentir em “Perda”, “Meu Poeta” e “Grief-Stricken” —algo como enlutado, em português. Essas canções fazem referência a Antonio Cicero, irmão e parceiro musical de Marina, morto em 2024, aos 79 anos.
Membro da Academia Brasileira de Letras, ele realizou um procedimento de suicídio assistido na Suíça, onde a prática é legalizada. A decisão foi motivada pelo declínio cognitivo relacionado ao Alzheimer. “Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade”, escreveu ele, em uma carta de despedida.
Para Marina, o irmão ajudou a dissipar a desinformação sobre a eutanásia. “Se o Cicero quisesse se matar, ele teria feito isso aqui, no Brasil. Mas não era isso o que ele queria, mas sim fazer uma afirmação para que as pessoas prestassem atenção nesse tema”, diz a artista. “Essa decisão foi a última obra de arte dele.”
Apesar de abordar o luto, “Ópera Grunkie” não é um trabalho soturno. “Olívia”, por exemplo, é uma faixa atmosférica que parece transportar o ouvinte para uma festa tão caótica quanto animada. A anfitriã da festança é uma mulher insubmissa que tira as roupas toda vez que se sente contrariada.
Em “Chega pra Mim”, parceria com Adriana Calcanhotto, ela canta sobre o espanto de redescobrir o amor. Em “Collab Grunkie”, o que ganha evidência é um exercício polifônico no qual Marina insere áudios de gente que ela define como “grunkie” —neologismo que faz referência a pessoas livres e independentes.
Fernanda Montenegro, diz ela, é uma das sínteses desse espírito libertário. Por isso, a cantora decidiu incluir na faixa um áudio de Whatsapp que recebeu da artista após a morte de Cicero. “Aproveite a vida. Não se queixe. Nada consola uma velhice idiota”, diz a atriz, na gravação.
“É quase um ensinamento para quem ouve o meu disco. Esse trabalho é sobre uma mulher de 70 anos tentando levar o que vale a pena e descobrir o que quer agora.”
Os álbuns de Marina são como fotografias que capturam momentos de sua vida. Lançado em 1993, “O Chamado”, por exemplo, é um disco denso, introspectivo, quase invernal, feito após a morte de seu pai, o economista Ewaldo Correia Lima. No sentido oposto, “Virgem”, de 1987, é um álbum tão quente e ensolarado quanto a praia do Leblon que Marina costumava frequentar naquela época.
Em 1984, no entanto, a artista não apenas radiografou a própria vida, mas também o espírito de um tempo. Com o disco “Fullgás”, Marina e Cicero verteram na música a ebulição de uma sociedade que saia da ditadura para entrar na democracia. Ao ouvir o álbum, a atmosfera de euforia, hedonismo e atrevimento daquele período é quase palpável.
Isso fica evidente na música que dá nome ao disco, em que Marina dá voz a um dos versos mais cultuados do cancioneiro nacional. “E tudo de lindo que eu faço / Vem com você, vem feliz / Você me abre seus braços / E a gente faz um país.”
“Era divertido ser revolucionário nos costumes”, diz a cantora. “Eu e Cicero começamos a descrever musicalmente o mundo que a gente queria ter.”
Com essa verve utópica, “Fullgás” atualizou a música brasileira ao incorporar sintetizadores e baterias eletrônicas às faixas, tornando-se uma das pedras angulares do pop nacional. Marina, porém, parece pouco animada com o gênero que ajudou a construir. Com exceção de nomes como Anitta e Marina Sena, a atual safra de cantores não tem despertado o seu interesse.
“Talvez o meu trabalho agora seja um pouco sofisticado para a linha do pop atual, que é mais simples e voltada ao Spotify.” Por outro lado, ela é uma entusiasta do funk. “Esse movimento liberou a minha bunda. Eu tinha uma certa vergonha por ela ser grande, mas agora tenho orgulho.”
Não que Marina seja uma pessoa reprimida. Pelo contrário. No começo da carreira, ela foi uma das pontas de lança da revolução sexual que chacoalhou a cultura brasileira a partir dos anos 1960.
A artista nunca se furtou de cantar sobre a própria bissexualidade. “Será que você será a dama que me completa?/ Será que você será o homem que me desperta?”, diz os versos de “Não Estou Bem Certa”, de 1991. Tampouco tinha pudor em assumir a perspectiva masculina. “Você precisa de um homem / Pra chamar de seu / Mesmo que esse homem seja eu”, cantou em uma releitura de “Mesmo que Seja Eu”, de Erasmo Carlos, lançada em 1984.
“Não havia porquê me esconder. Eu era livre”, diz a cantora, casada atualmente com a advogada Lídice Xavier. “Eu acho maravilhoso o jeito como as coisas estão hoje em dia. Quebraram o pau da barraca mesmo. Acabou. Se eu não escondia nada antes, agora é que eu não vou esconder mesmo.” Com a naturalidade com que fala sobre o prazer, ela discorre sobre a dor.
Em 1995, Marina lançou “Abrigo”, um disco só com faixas escritas por outros artistas, como Rita Lee, Tom Jobim e Chico Science. Era uma novidade para alguém acostumada a produzir obras de forte caráter autoral.
No entanto, durante os ensaios para a turnê do disco, ela percebeu que não se sentia confortável como intérprete. “Eu achava lindo, mas não tinha nada a ver comigo. Não sou sereia, sou compositora. Meu corpo mostrou que eu não estava me sentindo inteira. Aí eu pifei.”
Marina caiu numa crise profunda de depressão. Cancelou a turnê, se afastou da vida pública e perdeu a voz. Chegou ao ponto de não conseguir falar ou respirar como antes. Em 2012, afirmou que as cordas vocais foram lesionadas por erro médico durante um procedimento na garganta. Desta vez, porém, atribui o problema à depressão. “Era a minha tristeza. Eu não queria fazer mais aquele show. Eu estava exausta”
Após tratamento psiquiátrico, Marina conseguiu se restabelecer. Diz não apenas ter recuperado a voz, mas encontrado um prazer em subir no palco que não conhecia no auge da fama.
“Ter permanecido no coração das pessoas e com fãs mais jovens depois da depressão me fez ficar grata. Por isso, tenho vontade de dar o melhor para cada encontro ser uma festa”, diz a artista. “Demorei a fazer o caminho de volta. Mas eu voltei.”